Na verdade, não sei se acredito no que vou escrever, mas parece-me bastante razoável aquilo em que estou a pensar, no sentido em que, em princípio, não chateará ninguém. Sou essencialmente um liberal-clássico-muito-conversador que procura, sempre que possível, não apedrejar o desfile de ideias e projectos para o país sempre que eles passam na rua em frente a minha casa. Procuro, assim, ser tolerante, ter uma atitude liberal perante a pluralidade de ideias de que discordo, que me chateiam, nas quais não me reconheço, mas que se não me afiguram como odiosas. Portanto, no sentido em que sou contra torturar os outros quando deles discordamos e no sentido em que acho que o capitalismo é mesmo o melhor do pior dos mundos, sou liberal, mas em tudo o resto sou muito conservador (mesmo em relação ao capitalismo, mas isso fica para depois). Não me parece que, muito sinceramente, com uma reforma profunda isto vá ao sítio, que, abrindo as comportas ao mais abjecto laissez faire ou instaurando, por decreto ou pela revolução, o verdadeiro socialismo, não haveria limites para o nosso bem-estar.
Então o que espero de um governo de direita? Como liberal-clássico-muito-conversador estou sempre muito preocupado (a não ser quando não estou) com a afinação das instituições que existem, exactamente com o objectivo de as fazer evoluir e assim não permitir que dêem cabo delas. Deste modo, tanto quanto eu compreendo o que é um projecto de governo, penso que um bom projecto de governo conservador será focalizar inteligência e energia criativa na preservação das nossas instituições mais importantes – que são, para mim, sem hierarquia, o sistema de saúde, a autoridade da concorrência, a segurança social e o sistema de justiça – e torná-las sustentáveis e eficazes; e um mau projecto de governo conservador será desperdiçar inteligência e criatividade (logo, quando, ironicamente, estas qualidade não são abundantes nos seus representantes) na tentativa de implementar um novo paradigma (como, por exemplo, plano tecnológico), necessariamente ingénuo e despropositado, na doente sociedade portuguesa -- seria, aliás, como, numa casa a cair, definir como prioridade um programa de aquisição de electrodomésticos. Se para tornar sustentáveis e eficazes as nossas instituições mais importantes for necessário abdicar das nossas instituições menos importantes ou fúteis, como a RTP1, devemos, com cuidado, com muita prudência, definir quais são e, depois, abdicar apenas daquelas que temos mais certezas quanto à sua inutilidade; contudo, nunca deverão ser muitas de uma assentada; sou muito céptico quanto a fazer as coisas de uma assentada. É um governo com estas, por assim dizer, prioridades, que satisfariam um liberal-clássico-muito-conversador como eu, contra a incapacidade, falta de engenho e de inteligência demonstrados pelos governos socialistas.
A sociedade portuguesa há largos anos que me faz lembrar uma máquina de flippers avariada, e os governos socialistas electricistas incompetentes que, incapazes de a arranjar, iludem o proprietário de salão de jogos inserindo moedas na máquina: como não têm o engenho para pôr as instituições da máquina a funcionar mas foram chamados ao local para resolver o problema e não querem ser despedidos, enchem o depósito de moedas para regozijo do dono do estabelecimento. Agora que as moedas acabaram, ou estão a acabar, é bom que encontremos um electricista competente para o proprietário do salão não se revoltar, pois, neste sistema constitucional-liberal-institucional-capitalista, não há outro caminho que não este, e sempre que demonstramos incapacidade para o percorrer, os que defendem outros caminhos ganharão simpatia junto daqueles que estamos a deixar para trás.
nota: acho que não vou escrever nenhum post sobre o engenheiro José Sócrates, até porque poderia ser expulso do blogue perante acusações de ódio pessoal, má educação e comportamento incivilizado, e processado pelo próprio; se um dia destes achar que me consigo conter, talvez escreva qualquer coisa.
PM Ramires