Ponto menos um:
Tem estado na moda aquela coisa da declaração de interesses: jornalistas, bloggers, eteceteras introduzem a prosa sua voluntariamente declarando conhecerem de vista, ou de longe ou de perto, um conhecido da pessoa implicada na referida prosa.
Não fugindo à moda, eis a minha declaração de interesses: na minha opinião, os computadores Apple são como os carros com caixas-de-velocidades não-manuais: existem para quem nunca aprendeu nem quis verdadeiramente aprender a conduzir; isto é, os Apple servem para aquelas pessoas que não percebem nem querem perceber nada de computadores (e servem também para americanos e snobs americanófilos).
Posto isto, aqui vai a minha previsão acerca do iPad: será um sucesso tremendo.
Ponto zero: o iPad não é novidade nenhuma
O iPad é tão novidade como os iPods foram: muito antes de haver iPods já havia dezenas de leitores mp3 portáteis. Muitos antes de ontem, já havia computadores tablet híbridos (ecrã táctil + teclado convencional) e tablet puros (ecrã táctil sem nenhum teclado convencional apenso). Como em relação a todos os produtos Apple, a novidade é que este produto é mais caro do que os concorrentes, é mais bonito e integra num só objecto (quase) tudo o que pode ser integrado (imagem, som, processamento, etc.).
Ponto um: será um sucesso tremendo
Uma cada vez mais esmagadora maioria de programas de "computador" (computador num sentido lato: qualquer coisa com processador lá dentro) não precisa de teclado (rato, teclas de direcção, touchpad ou aquela rodinha dos iPods basta) mas exige um ecrã grande (jogos no telemóvel são um fracasso, navegação na internet é um fracasso em tudo o que tenha ecrã mais pequeno que o do iPhone). Ou seja, é um golpe de mestre fazer uma coisa que tenha um ecrã minimamente grande para a maioria do software e que, ao mesmo tempo, poupe no peso e nas dimensões ao não vir provido de teclado convencional. E se teclado necessário for, o iPad apresenta-o numa parte do ecrã táctil.
A ideia é esta: ninguém consegue trabalhar nem fazer nada parecido com o que se faz com um computador portátil utilizando um iPhone, um iPod touch ou um qualquer dos concorrentes destes: os ecrãs são pequenos demais. E, por outro lado, para uma grande maioria das aplicações os micro-portáteis não precisam de ser tão "grandes": o teclado convencional destes é dispensável para uma grande quantidade de aplicações. O iPad faz o equilíbrio perfeito entre os palmtops, iPhones e quejandos (num certo sentido pequenos demais) e os micro-portáteis (grandes demais no outro sentido).
Ponto dois: integrar é fonte de sucesso
Para quê comprar um ebook reader que só serve para ler documentos? A verdade mais fundamental do mercado tecnológico é que ninguém compra nada que sirva só para UMA tarefa: os telemóveis servem para falar, tirar fotografias, agendar, enviar/receber mensagens escritas e muito mais; um leitor mp3 tem de mostrar também vídeos e, já agora, ter rádio. Quantos mais eteceteras melhor. Como é que alguém vai estar alguma vez interessado num ebook reader que só serve para abrir ficheiros de texto? Ainda por cima, o preço destes extraordinariamente recentes monolíticos objectos é quase tão alto como o preço do novo iPad.
A ideia é esta: na senda dos iPods Nano que têm jogos giros e que, na última geração, já (finalmente!) tiram fotografias - o iPad será um sucesso porque acrescenta aos convencionais ebook readers uma série de aplicações e capacidades típicas de um "computador convencional" mantendo, ainda assim, reduzidas as dimensões do aparelho. Enquanto que o ebook reader é um computador que só serve para ler, o iPad é um ebook reader que faz tudo o que os computadores fazem.
Ponto três: o preço elevado não é problema
O preço elevado não é problema por uma série de razões: a Apple escolhe, para todos os seus produtos, qualquer que seja o tipo, preços sempre superiores aos da concorrência - and gets away with it. Porque é que havemos de esperar que o preço passe agora a ser, no caso do iPad, um problema para a Apple?
Além disso: na fronteira tecnológica, imprevisivelmente mutante, é muito difícil que a massa de compradores perceba qual será o standard vencedor e qual será o melhor produto. O preço mais elevado dos produtos Apple é o sinal de que a sua proposta corresponde ao standard definitivo e à melhor qualidade. É aliás por isso que a Apple costuma apresentar os seus produtos só depois de os concorrentes terem lançado os seus. Afinal, existe uma last player advantage: o último a chegar faz melhor, integrando tudo o que houver num só objecto, batendo todos os recordes de autonomia de baterias e... propondo o preço mais alto. Aliás, a Apple apresenta preços mais altos e, consecutivamente, propões versões melhoradas cada vez mais caras (cfr. a gama do iPod clássico).
E ainda: não é a moda que interessa, é a ÚLTIMA moda que importa: ao vir em último, a Apple consegue sempre ser a última moda. E a mais duradoura também.
Finalmente, quem é a massa de potenciais compradores? Aficionados da Apple (compram tudo o que tiver a maçã), gente com muita pasta, gente a quem a pasta é uma fonte infindável (jovens universitários) e malta snob (quanto mais caro, melhor). Portanto, o preço mais alto não é problema para a Apple, antes pelo contrário.
Ponto quatro: e eu vou comprar?
Resposta: não, é caro; mas ficaria muito contente se mo oferecessem.
Ponto post scriptum: parece que a coisa não tem câmara; não faz mal: a câmara só chegou ao iPod Nano à quinta geração e isso não impediu o sucesso deste.