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21 FEVEREIRO 2012 - 13.05h

A ver se nos entendemos

Categoria - Política

Foi o Partido Socialista que pediu ajuda externa e assinou um Memorando de Entendimento com a ‘troika’. Isto passou-se em Maio de 2011. Ou seja: há cerca de nove meses. Desse acordo, que nos salvou da bancarrota, José Sócrates, então secretário-geral do PS e primeiro-ministro, disse aos microfones, perante as câmaras e o Luis: “foi um bom acordo.”

Esta semana, António José Seguro – do mesmo PS – afirmou ter pontos de vista divergentes. "Não escondo que houve pontos de vista bem divergentes entre o PS e a 'troika' no que diz respeito ao processo de consolidação das contas públicas e particularmente quanto à prioridade", disse.

António José Seguro é livre de dizer o que lhe vem à cabeça, incluindo o facto de, passados nove meses, achar que o putativo «bom acordo» é, afinal, um «mau acordo». De acordo. Mas não perceber que o acordo vincula o estado português ao seu cumprimento e que qualquer hipotética alteração aos termos e condições do mesmo, poderá apenas ter lugar após Portugal provar que age de boa-fé e que está empenhado em cumprir as suas metas, é não perceber nada. Melhor: é demagogia. Da grossa.

Mas é mais do que isso. Os termos e objectivos do Memorando de Entendimento não são um mero capricho do FMI, da EU e do BCE. Trata-se de um programa de «ajustamento» que um conjunto de entidades não propriamente acéfalas, achou essencial pôr em prática no nosso país. «Ajustamento» do quê, ou para quê? Simples: ajustar os gastos às receitas; ajustar o nível de endividamento do Estado à realidade concreta do país; ajustar o padrão de vida à produção de riqueza; para que o país não consuma ou gaste cronicamente mais do que aquilo que é capaz de produzir.

As coisas são o que são, e não aquilo que o «Tó Zé» acha que são: as dívidas contraem-se para fazer face a gastos que suplantam o rendimento. Se isso é justificável em momentos específicos e por um tempo limitado, não é possível fazer disso o padrão ou a regra, sob pena de descontrolo (ou seja: onde chegámos). António José Seguro devia saber duas coisas simples: 1) as dívidas gerem-se mas também se pagam; 2) a partir de um patamar de dívida, o serviço da mesma sufoca o país (com juros e impostos) e empurra-o para um ciclo que não é apenas vicioso: é também suicidário.

A receita que nos trouxe até Maio de 2011 é precisamente aquela que a ‘troika’ pretende reformar. De pouco nos serve «pedir mais tempo» ou «esticar o prazo». Adiar é pagar mais tarde e com mais dor. O Memorando de Entendimento pode ter os seus, digamos, «defeitos», mas tem o importante e sublime propósito de tentar ajustar as expectativas à realidade, a produção ao consumo, os gastos ao domínio do possível.

Se não é assim, António José Seguro que nos diga, preto no branco, bem explicadinho, o que faria no lugar do primeiro-ministro. Suspendia o Memorando? Expulsava a ‘troika’? Subia os impostos para financiar o bendito investimento público? Despedia funcionários públicos para baixar impostos e, dessa forma, relançar a economia? Apostava nas PPP para não prejudicar o orçamento? Nacionalizava os bancos e as empresas «estratégicas»? Lançava subsídios, pagos pelos contribuintes ou pelo emir do Qatar, para «estimular» o emprego? Baixava o preço dos transportes públicos e aumentava o ISP? Ah, já sei: «renegociava o acordo» e «apostava no crescimento». Dito assim, é lindo, não é?



Carlos do Carmo Carapinha

20 FEVEREIRO 2012 - 19.41h

Lobos Neves

Categoria - Política

Brás Cubas – herói defunto de Machado de Assis - tinha encontrado uma lei sublime, após ter valsado uma noite com Virgília: a lei da equivalência das janelas. O modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência. Brás Cubas (ainda) amava Virgília, com quem tinha estado, em tempos, para casar. Mas não casou. Virgília casou com Lobo Neves. Lobo Neves venerava Virgília. Para ele, Virgília era a perfeição: amorável, austera, um modelo. Confessava-o, à boca cheia, a Brás Cubas.

Mas Brás Cubas cedo percebeu que Lobo Neves não era um homem feliz. E este acabou por lhe confessar o mal de que padecia: faltava-lhe a glória pública. Curiosa confissão esta, porque Brás Cubas tinha um tio, cónego de prebenda inteira, que lhe costumava dizer que o amor da glória era a perdição das almas. Um outro tio, oficial de infantaria, tinha opinião diversa: o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que havia no homem e, por conseguinte, a sua mais genuína vocação. Seja como for, Lobo Neves sofria, em silêncio, de tédios impossíveis, amarguras engolidas e raivas recalcadas.

Confessou, a Brás Cubas, que o mundo da política era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfídias, interesses e vaidades. Mas então porquê a política? Por equívoco: Lobo Neves vira o teatro pelo lado da plateia - um soberbo cenário, com vida, movimento e graça na representação – e tinha-se inscrito às cegas. Uma vez em palco, a graça deu lugar à ingratidão, o movimento revelou uma inconstância de sentimentos e a vida era tudo menos gloriosa. Lobo Neves vivia, por isso, uma existência infeliz. E Brás Cubas, supõe-se, soluçava com o divertimento.

A política é um assunto demasiado sério para ser entregue a amadores. E, acrescento eu, a senadores estacionados no burguês sofá do «estatuto». Entregue a amadores (ou, como diria o senhor bastonário dos advogados, a «betinhos») ou a eminências pardas, a política tende a resvalar para a «política baixa»: o terreno das escorregadelas para o enfático, dos inenarráveis autos narcísicos quase sempre hilariantes (“eu sou tão boa pessoa que me parece impossível ninguém o perceber”), do insulto gratuito e verboso e, claro está, da clássica liturgia da vitimização.

Como diria o outro, é preciso ter estofo. Ter estofo, em política, é conceder zero graus de latitude à postura tanto do desgraçadinho, como do vaidoso enfastiado (eternamente iluminado mas incompreendido). Para abraçar a causa pública é preciso ser-se suficientemente desassombrado para perceber que não há um inimigo a cada esquina ou em cada palavra escrita ou lançada ao vento. É ter o paciente poder de encaixe para lidar com a crítica mais austera, a farpa mais mordaz ou o reparo mais ou menos eloquente, por mais injustos, imprecisos ou errados que estes possam parecer. É perceber que «dizer mal» é, ainda e sempre, um dos vários exercícios que concorrem para o escrutínio público a que as figuras públicas estão sujeitas (com particular destaque para os políticos ou para quem exerce funções de poder). De «Lobos Neves» estamos todos mais ou menos fartos.




Carlos do Carmo Carapinha

17 FEVEREIRO 2012 - 20.05h

Mindfucking

Categoria - Política

Um filósofo britânico, Colin MacGinn, escreveu um livro onde analisa o conceito de mindfucking (psico-foda, na tradução portuguesa). Entre outras coisas, no empreendimento, distingue persuasão de manipulação - quando nos tentam manipular estamos a ser alvo de uma psico-foda. Olá, blogosfera, foram alvo, na última quinta-feira, da maior psico-foda da vossa história.
Começa assim, o segundo parágrafo do maior exercício de desonestidade intelectual da história da blogosfera:

"Dos dois lados, a tentativa de reduzir o défice. Uma, a americana, com os olhos postos na economia. Outra, a europeia, sem olhar a repercussões económicas."

Para ser absolutamente sincero, dada a convicção de Daniel Oliveira, não tenho sequer a certeza de estarmos perante desonestidade intelectual ou ignorância (por delicadeza afasto a hipótese da estupidez). Como é que é possível alguém, nesta altura do campeonato, por assim dizer, ainda não ter percebido que o espaço politico-económico "américa" é totalmente diferente (quanto ao que interessa) do espaço politico-económico "europa"; que essa diferença é tal que torna qualquer comparação entre os modos de sair da crise numa simples manipulação; e que deriva precisamente dessa diferença a impossibilidade de adoptar a mesma estrutura para obter o mesmo resultado (o quadro europeu terá de ser um díptico politico-económico - não para construir à pressa e devido a um estado de necessidade uma mudança estrutural profunda de supostas (muitas delas fictícias) consequências benéficas de curto-prazo (a tal Federação), mas devido à união monetária que nos une, para o bem e para o mal, a todos). Com franqueza, nem sei o que vos diga. É um artista português.



PM Ramires

14 FEVEREIRO 2012 - 10.03h

Os cursos de escrita criativa

Categoria - Política

 Introdução

Adjectivo-me de cidadão extremamente vivido, que acima de tudo se esforça por dizer sim à diversidade da experiência e para quem a informação e o conhecimento deveriam ser espécie de espaço Schengen levado ao extremo, pelo que a ninguém deve admirar que uma pessoa nestas meritórias condições, ao longo dos vastos e bastos anos que carrega de reflexão e amor às ciências e às artes, tenha sido númeras vezes confrontada com a existência de uma entidade autónoma como “curso de escrita criativa”; apesar dessa pontual mas ainda assim frequente exposição, vejo-me forçado a afirmar, a bem da verdade que deve nortear todo aquele que valoriza verdadeiramente a passagem por este mundo, que nunca me dei ao trabalho de tentar perceber as implicações da expressão “curso de escrita criativa”, ou sequer abrir o Google Chrome com o objectivo de contactar com o que outros, no pleno exercício da sua disponibilidade e liberdade de expressão, teriam a dizer sobre o mesmo; em consequência, neste preciso instante em que escrevo estas linhas com base nos ensinamentos prestados por um curso de escrita descritiva que frequentei com frequência de 100% no outro dia no Rogério Alves Institute for the Advancement of the Parlapier, eu não tenha a mais vaga das remotíssimas ideias do que seja ou do que consta um “curso de escrita criativa”.

Conclusão

De repente, ocorre-me dizer que uma coisa será a criatividade, outra a criatividade na escrita. A escrita (e o vocabulário) é um estreitíssimo conjunto de correspondências sonoras/gráficas através das quais tudo o que somos, e por consequência a nossa criatividade, tem que ser traduzida se queremos ter sexo com alguém. Assim, e por um lado, parece-me que ensinar métodos para se ser criativo cheira a receita adequada para limitar ainda mais o espectro de conexões que em dado momento achamos necessários a um determinado texto (e, com isso, as hipóteses de termos sexo); é certo que nem só de diversidade se compõe a criatividade na escrita, mas o problema mantém-se: mesmo que apenas se ensinem técnicas para formatar logicamente um texto com a imaginação que nos calhou em sorte, em algum ponto do processo o método e a técnica terão que nos informar. Mas o que mais me interroga é se um “curso de escrita criativa” tem, como imagino que tem, o propósito explicito e inverso a este: libertar-nos dos limites e esquemas mentais que a nossa prática diária pessoal nos foi enquistando. Mas como é que se tem a certeza que a criatividade não reside, também, na especificidade de um conjunto de escolhos, fronteiras, barreiras e imposições externas que sejam só nossos? Em que raio de livro vem escrito que libertar-nos do nosso quintal mental corresponde a um movimento criativo? Por outro (havia outro lado, não sei se estão recordados;), o Norman Mailer fartava-se de dizer que os cursos de escrita criativa foram um elemento essencial no seu desenvolvimento até um grande escritor. Ultrapassemos, sem nos deter, a questão de saber se um “grande escritor”, como ele foi, é sempre um tipo “muito criativo”; é por demais evidente que é sempre, e que é essencialmente isso que um grande escritor é. O que pretendo sinalizar neste ponto específico é que tudo o que aconteceu a um grande escritor pode ser considerado um elemento essencial para o que ele se tornou; mesmo que assumamos que o Norman Mailor é um tipo moderadamente inteligente, e que até beneficia de um ponto de vista vantajoso para afirmar o que é que foi ou não importante para se tornar num grande artista, a verdade é que o relevante nesta experiência do Norman Mailor não é que os cursos de escrita criativa o ajudaram a ser o que foi, mas porque é que o ajudaram a ele em concreto daquela maneira tão decisiva. Aí reside o mistério do qual gostava de me aproximar, pois até um badameco de merda como eu conseguirá ver a utilidade de um curso de escrita criativa depois de ter frequentado um.



Maradona

3 FEVEREIRO 2012 - 10.48h

So fucking Blur

Categoria - Política

 

Para o Carapinha, por ter tornado isto possível.



PM Ramires

1 FEVEREIRO 2012 - 00.55h

"Projecção" ainda se escreve assim?

Categoria - Política

O lançamento de um evento denominado «capital-qualquer-coisa-da-cultura», parte de dois equívocos: 1) a «cultura» é coisa que se pode produzir por atacado, decreto ou encomenda, em local e período circunscritos; 2) existe um público ávido por banhos de enriquecimento cultural (dito de outra forma: a procura está assegurada). Ambos os equívocos parecem caucionar a velhinha e orquestradora presunção de meia dúzia de políticos e apaniguados que, por vaidade, ingenuidade e, nalguns casos, irresponsabilidade, acharam justificável criar uma fundação (mais uma) para gerir (ou seja, para gastar) milhões num evento que putativamente deixará a sua «marca», e que se acredita ser esta: um importante contributo para inverter o endémico estado de obscurantismo de que padece a nação e/ou a região, dando a conhecer ao mundo – numa palavra: «promover» - a «cultura» indígena. Paralelamente a isto, há ainda o propósito de, e passo a citar, dar "apoio a acções de formação com relevância na área da cultura, promovendo a formação técnica especializada dos agentes e profissionais deste domínio ou domínios afins."
 
“Guimarães Capital Europeia da Cultura” insere-se na longínqua e profícua tradição, saloia e provinciana, de pensar que basta despejar uns milhões (orçamento global superior a 111 milhões de euros) a jusante - dando guarida, durante o processo, às gentes necessitadas da cultura (sempre desgraçadinhas e a precisar de amparo) - para garantir o progresso dos espíritos e a bendita «projecção» («projectar» a nação faz parte do Top 5 dos desígnios predilectos de políticos e respectivos conselheiros «culturais»).
 
Não é preciso ler o Eça para perceber o logro que insistimos, ainda hoje, em trilhar. Não resulta instigar, por compulsão e durante um período, «cultura» - seja ela erudita, alta ou popular – se, do lado de lá, não houver, a montante, um trabalho de educação que desperte o gosto, o interesse, o sentido crítico e a sede de conhecimento. Caso contrário, será mais uma tentativa de lançar sementes em terreno pouco fértil, num país, é bom não esquecê-lo, que precisa urgentemente de rever as suas prioridades.
 



Carlos do Carmo Carapinha

Autor:

  • Rui Castro

    Advogado. O seu conservadorismo é um acto de rebeldia. Gostava de ser de esquerda mas é mal frequentada.

  • Maradona

    Cidadão que só faz posts sob a capa do anonimato.

  • Carlos do Carmo Carapinha

    Alentejano, hipocondríaco, filosoficamente conservador, céptico e pessimista. Só chatices

  • Lourenço Ataíde Cordeiro

  • Nuno Pombo

  • PM Ramires

    

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