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19 DEZEMBRO 2011 - 20.52h

Da Psicologia

Categoria - Política

Ter esperança é confundir o desejo de uma coisa com a sua probabilidade.
Quem não tem esperança, também não tem medo: é esse o significado da expressão «desesperado». Porque é natural o homem acreditar ser verdade aquilo que deseja que o seja, e acreditar nisso porque o deseja; se esta qualidade salutar e tranquilizadora da sua natureza for obliterada pela repetida má fortuna, e ele chegar mesma ao ponto de pensar que aquilo que não deseja que aconteça tem de acontecer, e aquilo que deseja que aconteça nunca poderá acontecer só porque o deseja, chama-se desespero à sua condição.
Aforismos - Da Psicologia:6, Schopenhauer

1. Decorre das funções de Primeiro-Ministro português que ele aumente a probabilidade de concretização do desejo dos professores dar aulas em Portugal – isto é, que aumente a probabilidade de as suas esperanças fazerem sentido. Disto decorre as suas declarações serem absurdas.

2.O Sr. Primeiro-Ministro devia meditar sobre o seguinte: dizer a pessoas quase «desesperadas» que elas na verdade já estão «desesperadas» – aquilo que não desejam que aconteça tem de acontecer -- é o mesmo que apontar todos os defeitos de uma só vez a uma pessoa que conhecemos mal, e tem o mesmo efeito. Sublinhe-se que a inutilidade do exercício é independente da pertinência da observação; e é total. 



PM Ramires

19 DEZEMBRO 2011 - 20.18h

O fiel jardineiro

Categoria - Política

Como bem lembrou Miguel Esteves Cardoso, Gonçalo Ribeiro Telles não foi apenas «o» jardineiro: foi, e continua a ser, o mais original dos filósofos políticos portugueses. A sua visão crítica - mas calma, paciente e desassombrada -, da relação entre o homem e o território que sempre amou - alicerçada no princípio da preservação da unidade da paisagem enquanto atributo da sua diversidade e da sua beleza - remete-nos para um outro filósofo: Michael Oakeshott. Em Gonçalo Ribeiro Telles encontramos a disposição conservadora que Oakeshott tão sabiamente descreveu no ensaio «On Being Conservative»: a defesa do regresso a escalas mais humanas; a apologia do belo em detrimento do «brutalismo»; o apelo à lealdade inter-geracional como ponto de partida fundamental para a conservação do legado natural, sem nunca cair na veneração bacoca do very typical; a justa e precisa noção do carácter contingente das relações de equilíbrio entre o homem e o meio natural; a inclinação para a conservação e fruição do presente, em detrimento do corte abrupto, a maior parte das vezes irreparável, tão ao gosto do modernismo asséptico e acéfalo; a forma sábia como fazia notar as correlações vitais e as interdependências orgânicas entre os mais diversos elementos (os solos, a flora, a hidrologia, o património edificado…). «As preocupações são duráveis», como lembrava Guilherme de Oliveira Martins na recente homenagem a Gonçalo Ribeiro Telles, na Gulbenkian. Coisa que inquietava mas simultaneamente apaixonava e motivava este sage. Um homem bom, que teve sempre razão antes de tempo. Talvez por isso, continue, ainda hoje, a inquietar a ignorância estabelecida.

PS: Há um texto de Roger Scruton, intitulado «Conserving Nature» (poderá ser encontrado nos livros «Political Theory and The Ecological Challenge» ou «A Political Philosophy – Arguments for Conservatism»), onde nos voltamos a reencontrar com o espirito de Gonçalo Ribeiro Telles. Vale a pena ler.



Carlos do Carmo Carapinha

17 DEZEMBRO 2011 - 10.20h

O Paradigma

Categoria - Política

Liguei de novo a televisão e lá estava ele, Marinho Pinto: intercílio carregado, sobrancelhas ameaçadoras, íris fulminantes, encorvado sobre a mesa, em posição de ataque, a gesticular enquanto vociferava contra a ministra da justiça as irresponsabilidades do costume. O momento chave deu-se quando a jornalista, subtil e inteligentemente, lhe perguntou: mas se não é o poder político quem pode incutir alguma ordem na justiça, quem será? O bastonário, de início um pouco hesitante mas logo retumbante conclui o óbvio: não é o poder político, é o povo que tem de pôr ordem na justiça. Isso mesmo, O POVO. Se, como diz o Francisco Mendes da Silva, a indignação é a doença infantil da esquerda no séc.XXI, Marinho Pinto é o seu paradigma.



PM Ramires

16 DEZEMBRO 2011 - 15.46h

Christopher Hitchens

Categoria - Política

Morreu Christopher Hitchens. Ou seja, morreu o marxista preferido da direita. O que fica do seu legado, ideologicamente? Fica a defesa radical da liberdade acima de tudo: a liberdade do povo iraquiano que o fez posar na fotografia ao lado de W. Bush, para vergonha de todo o seu circuito de amigos, ou a liberdade do humanidade que o transformou num cruzado contra essa «Coreia do Norte celestial» que era para si a ideia de uma existência tutelada por Deus. Como se vê, Hitchens esteve muitas vezes certo e muitas vezes errado (escolher o ponto de vista), mas fê-lo sempre com um brilhantismo digno de admiração. Morreu uma das minhas melhores companhias.



Lourenço Ataíde Cordeiro

15 DEZEMBRO 2011 - 20.35h

Da delinquência

Categoria - Política

Não vos quero atormentar mas...

a) imaginem que José Sócrates, ladeado por Pedro Nuno Santos e João Galamba, era primeiro-ministro;

b) imaginem que Manuel Alegre, esse mesmo, era Presidente da República.

Será que é possível que alguém não conclua que nesse inferno os funcionários públicos já não recebiam salários há uns meses? Será que é possível que alguém não conclua que a nossa apregoada 'miséria' era já uma efectiva e desesperada e humilhante miséria?

Há uns meses escrevi que a esquerda em geral olha para o fenómeno do endividamento com uma perspectiva muito diferente da direita: para a esquerda, pagar as dívidas que se contraem é só uma das opções -- pode-se muito bem não pagar (ou, eufemisticamente, à la Sócrates, gerir); para a direita as dívidas são sempre para pagar. 

Nesta diferente atitude está a diferença entre a delinquência e o civismo. Se não vos parece evidente, experimentem não pagar.-- assim, unilateralmente, não pagamos! 

Obrigado a todas as pessoas que impediram que a delinquência chegasse de novo ao poder.



PM Ramires

15 DEZEMBRO 2011 - 10.53h

Iluminações de Natal

Categoria - Política

A Câmara Municipal de Lisboa anunciou com pompa que, face ao ano passado, poupou 700 mil euros em iluminações de Natal, reduzindo o orçamento para 150 mil euros. Mais ou menos ao mesmo tempo, a Madeira anunciava um gasto de 3 milhões nos seus próprios presépios. Confesso que, aqui, estou do lado de Jardim. Num país que precisa desesperadamente de «investimento estrangeiro» e que se apoia no turismo como fonte previligiada de receitas, arruinar desta maneira o potencial turístico do Natal como fez Lisboa não pode ser elogiado como uma boa decisão. O dossier das luzinhas e bolinhas não foi bem gerido, e esta decisão é um monumental enfianço de cabeça na areia. Em vez de fazer um esforço de optimização do investimento municipal, a CML desperdiça 150 mil euros em execuções artísticas abstractas que só dentro de um enquadramento crítico pós-moderno e preguiçoso podem ser associadas ao Natal, por muito forte que seja o esforço laicizante que se tem aplicado à celebração do nascimento de Jesus Cristo. Eu sei que os chapéus de chuva do chinês são baratos, mas 150 mil euros dava para muitos presépios, senhor presidente. 



Lourenço Ataíde Cordeiro

13 DEZEMBRO 2011 - 14.34h

Voltando ao tema

Categoria - Política

O que mais espanta nas declarações de José Sócrates, não são as declarações em si (patetas e básicas, logo verosímeis tendo em conta o sujeito e o predicado), mas o tom indulgente e casto de algumas reacções. A taça vai inteirinha para um (ir)reconhecível Pedro Marques Lopes que, no Eixo do Mal (SIC-N), bradou contra a corja dos «broncos e ignorantes» (vulgo «taxistas») que, obcecados com José Sócrates, teimaram em não perceber que o homem-engenheiro tinha, afinal, regurgitado umas banalidades muito acertadas (daquelas que se estudam no primeiro ano da faculdade).

Não perceber que: a) ninguém, em parte alguma, sugeriu, dissertou, aconselhou ou brincou com a ideia de pagar a dívida de uma só vez (esvaziando de sentido a referência de José Sócrates sobre o assunto); e b) José Sócrates deveria ser a última pessoa à face da Terra a poder preleccionar sobre o tema da dívida; reflecte limpidamente o desnorte que por aí vai, catalisado pelo despudor de uns e a intermitente candura dos «indignados» (incluindo os mais improváveis) que, quais baratas tontas, obliteram as causas e as razões do estado do país, como se «troika», «bancarrota», «despesa» e «dívida» fossem termos de uma opera buffa.



Carlos do Carmo Carapinha

12 DEZEMBRO 2011 - 19.49h

O Gosto do Saké

Categoria - Sociedade

Agir corajosamente é agir em coerência com honestas e inconvenientes conclusões a que chegamos.

Contudo, há sempre um álibi perfeito.

Do filme: sabendo que devemos libertar o outro da posição conveniente e importante que ocupa na nossa vida, usámos a sua fragilidade emocional – filha primogénita da sua gratidão e amor para connosco – como álibi para as nossas acções continuamente cobardes.

É precisa uma certa coragem para continuar a viver depois da humilhante derrota; e é necessária uma suprema coragem para viver sozinho depois da humilhante derrota.

Se multiplicarmos o sozinho pela negritude do horizonte da velhice – a velhice é o crepúsculo no Inverno – percebemos exactamente o gosto do e pelo saké.

O gosto do saké é o único lugar onde se consegue viver depois de se ter criado as condições para, escolhido o caminho da nossa própria miséria
[O Gosto do Saké - Ozu]

 



PM Ramires

11 DEZEMBRO 2011 - 02.42h

The War Against Stupidity

Categoria - Política

Pepe, central brasileiro que conspurca a história do Real sempre que veste aquela admirável camisola, afirma que a derrota se deveu ao ‘muito azar’ – e registe-se a evolução argumentativa, da diabólica ‘arbitragem’ para o mais pacato ‘azar’, apesar de tudo. Vi pouco mais de 10 minutos de jogo (intercalados), o suficiente para verificar uma entrada assassina do Sérgio Ramos (no que ele se tornou, desde que o pestilento português foi para lá) tentando arrumar com a principal causa de todas as derrotas do Real nos últimos anos: o rico, bonito e verdadeiramente grande jogador de futebol, Lionel Messi. Enfim, mais um episódio da saga The War Against Stupidity onde, graças a Deus, o bem, como quase sempre, venceu.



PM Ramires

7 DEZEMBRO 2011 - 12.29h

Da irresponsabilidade

Categoria - Política

ou (A Quem Nós Estivemos Entregues, Meu Deus!)

«Pagar a dívida é ideia de criança». A frase é de José Sócrates, proferida numa conferência com colegas universitários. A plateia, constituída por alunos da secção latino-americana - provavelmente um subgrupo a que pertence o aluno José Sócrates – aplaudiu estrondosamente o nosso ex-PM. No final, consta que terá dito «há muito tempo que não era assim aplaudido».

Fora o pitoresco da cena e o riquíssimo filão de anedotas que o episódio proporciona, aquela frase é todo um programa. Socialista e cainesiano, acrescente-se (e não Keynesiano). É o programa de base da Sócrates & Galamba School of Economics: 1) a despesa é infinitamente virtuosa; 2) a dívida é uma abstracção; 3) os recursos só são escassos na teoria.

É esta a disposição lógica que serve de sustentação à estrutura mental dos que defendem os Eurobonds e/ou a impressão de moeda para solucionar a crise das dívidas soberanas. O saneamento das contas, a tentativa de corrigir os erros passados, a implementação de medidas de reajustamento, que acomode o nível de gastos à capacidade produtiva do país – tudo não passa de uma brincadeira de crianças.

«As dívidas gerem-se, foi assim que eu estudei», disse José Sócrates. Não, caro senhor, estudou mal: as dívidas pagam-se. Sempre. Mais tarde ou mais cedo. E, veja bem: são pagas pela ralé que o senhor sempre desprezou e desrespeitou, com o seu irresponsável cainesianismo de pacotilha.



Carlos do Carmo Carapinha

5 DEZEMBRO 2011 - 21.39h

O «excedente»

Categoria - Política

Feitas as contas, sobram dois mil milhões de euros no orçamento. Esses dois mil milhões a mais serão utilizados no pagamento de dívidas do estado a fornecedores, principalmente da área da saúde. Perante isto, António José Seguro - ou o artista anteriormente conhecido por António José Seguro - anunciou prontamente o «embuste»: afinal não era preciso cortar nos subsídios de natal. Porque, acrescento eu, não é preciso pagar aos fornecedores, que não passam de «interesses privados». É deixá-los falir e assobiar para o lado, ao mesmo tempo que se bate no peito em defesa do «estado social». O PS, para todos os efeitos, está em hibernação.



Lourenço Ataíde Cordeiro

2 DEZEMBRO 2011 - 11.50h

Saint-Simon vs. Marcuse

Categoria - Política

Quando ouço certas luminárias invocar, ou até mesmo exigir, o «regresso da política» contra a invasão dos tecnocratas (do Dr. Ulrich ao Dr. Soares), imagino sempre a imagem de um político-messias a sair de um halo, envolto em vestes diáfanas, segurando uma tábua com a inscrição «a partir de hoje está decretado o fim da crise», ladeado, ainda, por sua eminência o senhor Presidente da República com a caneta da promulgação em riste.

O simples facto de haver gente, em lugares proeminentes, que convictamente acredita que uns acordos políticos, com direito a pancadinhas nas costas e sorrisos de irmandade forjada, coadjuvados por uma máquina de imprimir dinheiro de grande tiragem, são suficientes para alterar o rumo dos acontecimentos, espelha bem o nível de desorientação a que chegámos.

Esta união monetária apresenta defeitos estruturais de tal ordem que só um milagre a pode salvar. Apesar, como diz o Dr. Soares, de «vir de um país responsável por duas guerras mundiais», Angela Merkel está carregada de razão: esse milagre só pode ter lugar se houver uma refundação das regras e critérios de actuação orçamental dos países que pertencem à zona euro, acompanhada de uma harmonização fiscal. Isso acarreta, ao contrário do que se deseja, sangue, suor, lágrimas e perdas abruptas de soberania. Quem está disposto a ir a jogo?



Carlos do Carmo Carapinha

2 DEZEMBRO 2011 - 00.12h

Pensar

Categoria - Política

Tenho lido alguns livros e blogues, todos de pessoas de esquerda, com epígrafes e narrativas do tipo: «ainda não começamos a pensar»; «temos de começar a pensar»; «quando é que começamos a pensar?»; «é preciso começar a pensar»; «mas por quê que as pessoas não pensam nisso?»; etc.

Pensar, em abstracto, parece-me bem; mas fico sempre com a sensação que o que eles querem é que nós pensemos pensemos pensemos até concluirmos aquilo que eles já sabiam antes de começarem a pensar.

Pensem nisto.



PM Ramires

Autor:

  • Rui Castro

    Advogado. O seu conservadorismo é um acto de rebeldia. Gostava de ser de esquerda mas é mal frequentada.

  • Maradona

    Cidadão que só faz posts sob a capa do anonimato.

  • Carlos do Carmo Carapinha

    Alentejano, hipocondríaco, filosoficamente conservador, céptico e pessimista. Só chatices

  • Lourenço Ataíde Cordeiro

  • Nuno Pombo

  • PM Ramires

    

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