"O Capitalismo é o único sistema que temos e não temos nada que o substitua. O que precisamos é que seja ético, com princípios, como era no início."
Mário Soares, numa entrevista ao Expresso, que tive a felicidade de não ler.
Pobre capitalismo, que agora, talvez por ser Verão, tem de ser ético! E porque não simpático? E que tal amoroso? E jovial? E, por que não, amigo? Talvez o pudéssemos convidar para um jantar e, honrando-o com libações, cair nas suas boas graças!
Como é que se explica a alguém como Mário Soares que o capitalismo não é nem deixou de ser ético, e que isso só não é irrelevante na medida em que devia levar o dr. Soares a meditar sobre que raio de sistema temos em Portugal para que a ética seja assim tão fundamental.
Abordemos dois pilares do Capitalismo: Justiça e Concorrência.
O Capitalismo, dr. Soares, não tem como base a ética (e não precisámos de nos debruçar muito sobre os corruptos humanos que nós somos para concluir que estávamos bem perdidos se assim fosse), mas a Justiça; sem Justiça, seu esteio central, o Capitalismo desabará. Mas para se manter de pé e alcançar resultados frutuosos não apenas para alguns mas para todos, o Capitalismo também necessita de concorrência, que um organismo chamado Autoridade da Concorrência deve zelar e promover.
A Justiça, em Portugal, funciona, dr. Soares? Alguma vez funcionou? Alguém está a fazer alguma coisa para que funcione? Num país onde a Justiça não funciona, não surpreende que chore pela ética dr. Soares! E a concorrência, dr. Soares, observe o amor que todos em Portugal temos por ela! Quanto bradámos procurá-la!, e, no entanto, ela não aparece! Será culpa nossa? Será que no fundo a odiámos e nunca a quisemos por perto, ou será culpa dela, que teima em escapar à nossa busca doentia?
Antes que seja ético, dr. Soares, precisámos que em Portugal o Capitalismo seja mesmo Capitalismo, e não o reles mercantilismo que temos, homérica história de amor entre um Estado promíscuo (que dorme com todos empresários que lhe batem à porta), uma Justiça incapaz e um simulacro grotesco de Concorrência que todos fingimos ver.
E não há ética que resolva isto, acredite.