Este post de Luís Naves suscitou-me dois comentários:
1. Um comentário sobre intenções: as pessoas que criticam fazem-no, quem sabe a maior parte das vezes, com uma intenção boa. É a intenção de exortar à melhoria daquilo que se critica. Critica-se porque se gosta. Tão simples quanto isso. Um tipo que faz comparações entre jornais portugueses e estrangeiros é porque certamente os lê. É de crer que quem lê tanto jornal não gosta de jornais? E se gosta, qual é o motivo mais natural que justifica a crítica? É o gosto pelos jornais, ora pois! Eu não acredito que ninguém critique os jornais desejando com isso o fim da imprensa. O que se deseja é a sua melhoria.
2. Um comentário sobre previsões: o Luís Naves coloca a hipótese do desaparecimento da imprensa portuguesa. E avisa que tal acontecimento constituiria um atentado à liberdade de expressão. Ora, isto é um exagero e, seja-me permitido, um erro de análise.
Exagero: existe um objecto chamado "rádio" e umas coisas chamadas "rádios" com programas de "rádio" e notícias e passatempos e assim. A "rádio" já foi várias vezes vaticinada de morte. No entanto, a rádio sobreviveu à televisão, sobrevive à internet e sobreviverá à televisão por cabo e outros etceteras. Os jornais em papel terão o mesmo destino: a sobrevivência. O mesmo se diga dos livros versus o kindle [livros on-line já existem há séculos, já teria sido tempo dos livros em papel desaparecerem... e no entanto, aí estão] e tantos outros exemplos.
Mas o Luís Naves terá certamente acesso a números de que eu não disponho. Tiragens, vendas, receitas publicitárias, estruturas de custos. Economicamente, serão os jornais hoje menos viáveis do que no passado? Não sei. Mas sei que um dos factores dessa alegada crise dos jornais em papel são... os jornais electrónicos. Os mesmos jornais em papel existem online. E jornais que nunca existiram em papel existem também no online. E há portais de notícias. E, obviamente, há blogues e blogues aos milhares.
Isto tudo para dizer que um dos factores para o (inacreditável) desaparecimento dos jornais de papel é a explosão do número de "jornais" em outros suportes e formatos que não o papel. Ou seja, os jornais estão supostamente em risco de extinção porque há notícias e opinião por todo o lado. Os jornais de papel estão em crise paradoxalmente porque a liberdade de expressão nunca esteve tão em alta. Se os jornais em papel acabarem será precisamente por causa da concorrência, isto é, por um "excesso" da liberdade de expressão, "excesso" no muito bom sentido.
Daí ser errado concluir que o eventual desaparecimento dos jornais em papel implique uma qualquer diminuição da liberdade de expressão.
Agora, por muito que isto desagrade a jornalistas (há excepções), a especialistas (há excepções), a professores universitários (há excepções) e a TODOS os que se julgam monopolistas da razão e do saber e da experiência - a verdade é que nunca houve um tempo em que tanta gente comentasse os jornais, discutisse os seus conteúdos, tivesse opiniões sobre tudo e se interessasse por quase tudo. No fundo, nunca houve tanta gente tão interessada.
Isto é mau? Bem, lê-se dia sim, dia sim pela internet, sobretudo nesses esgotos que são as caixas de comentários, a crítica ao "tudólogo". Dezenas e dezenas de vezes Marcelo Rebelo de Sousa é acusado por... "falar sobre tudo". Bloggers e mais bloggers são insultados porque "pensam que percebem de tudo". Na minha opinião, quem pensa assim é que está muito mal. Alguém conhece alguma razão minimamente compatível com as ideias de democracia e liberdade que justifique que uma pessoa se dedique a um só assunto e que, de preferência, opine pouco, e fique caladinha? Pois...
A "explosão" da liberdade de expressão, provocada pela internet e, também, porque, apesar de tudo, os portugueses lá vão ficando mais escolarizados e cultos - implica uma SÉRIE DE AMEAÇAS.
Sim, há gente que julga que percebe mais de assuntos do que os jornalistas que escrevem sobre esses assuntos. E muitas vezes é verdade: essas pessoas percebem mais que os jornalistas. E quem diz jornalistas diga especialistas, diga diplomados, diga encartados. É verdade: os jornalistas, os especialistas, os diplomados devem sentir-se ameaçados: há cada vez mais gente com opinião e que, oh desgraça, escreve essa opinião. E muitas vezes essa opinião não é só boa como é melhor.
E há gente que escreve sobre economia sem ser economista. E tem toda a legitimidade para fazê-lo. Qual é o cidadão pagador de impostos (ou não) que não tem legitimidade para falar de economia? E há gente que não estudou direito e que contesta as opiniões de juristas, denunciando que a eventual autoridade académica não produz por inerência uma maior autoridade moral. E há gente que, pasme-se!, alerta para o facto de que a autoridade científica de um médico (até os médicos, até os médicos!...) em nada acrescenta à autoridade ética que qualquer pessoa, médica ou não, tem. E têm toda a razão!
Pois é, isto é tudo uma questão de MAIOR CONCORRÊNCIA. Jornalistas, especialistas, juristas, economistas, professores, médicos, etc., etc., etc. são e serão cada vez mais "vítimas" de gente que lê e lê muito e lê "em estrangeiro", gente que navega na internet, que se informa e que descobre. Gente a quem pode faltar diplomas (ou ter outros diplomas) mas cujas opiniões nem por isso serão menos luminosas que as opiniões dos encartados. E quantos vezes estas opiniões dos não-especialistas são bem melhores!
Encartados: vocês estão lixados. O tempo do vosso monopólio da autoridade acabou.
[Este post não visa ninguém em particular. Visa uma imensidão de gente em geral, é o que é.]