A caverna platónica onde insistimos em permanecer com a mais ingénua das expressões e a mais conformada das atitudes, à qual não raras vezes gostamos de associar uma vaga e levemente arrogante ideia de «progresso», tem sido a progenitora das pequenas e grandes ilusões em que, de forma mais ou menos consciente, gostamos de embeber a nossa por vezes patética existência.
O mundo das políticas e doutrinas educativas é, provavelmente, aquele onde a atracção pela caverna se tem feito mais sentir, e onde a distancia entre a realidade concreta e a fantasiosa disparou em proporção geométrica.
A semana passada, numa reunião de avaliação onde estive presente como encarregado de educação, a mãe de uma colega da minha filha pediu a palavra para dar conta da sua indignação, disfarçada de incómodo, pelo facto do seu filho ter tido negativa à disciplina de Francês. A fonte do «incómodo» era dupla: não só o filho tinha tido, pela primeira vez em oito anos, uma negativa, como, estatisticamente, a senhora mãe tinha notado uma bizarra variação: de um primeiro período em que apenas 10% dos alunos tinham tido negativa, tínhamos passado para uma proporção de 40%. Em face deste escândalo, o discurso da senhora mãe (que, a propósito, é professora universitária) pontava baterias para o professor. “Algo de muito errado se passa”, alertava a mãe. “Não é normal”, garantia a mãe. “O professor vai ter que rever os seus métodos porque eles não estão a dar certo”, exigia a mãe. Nem por uma vez a senhora mãe arrolou no leque de causas possíveis para o insucesso de cerca de doze alunos, outras causas que não a «performance» do professor. Causas simples e outrora razoáveis: por exemplo, a impreparação dos alunos por falta de tempo para estudar (hoje em dia os miúdos são alvo de cargas horárias excessivas, de mil e um projectos ou trabalhos de grupo pós-horário escolar, de inúmeras actividades «extracurriculares»); por exemplo, a falta de acompanhamento por parte dos pais em relação à matéria leccionada; por exemplo, o facto de se terem concentrado numa só semana seis provas de avaliação. Não. A tónica foi colocada no professor: se um aluno tem uma negativa, a culpa não morre solteira porque a relação desta com a «perfomance» do professor deu em casamento perpétuo, exclusivo, monogâmico. Porquê? Porque já não é normal haver negativas; porque já não é normal o professor elevar o grau de exigência, independentemente de contingências externas à sala de aula; porque já não é normal a existência de uma percentagem de negativas de dois dígitos; porque já não é normal redigirem-se testes que não baixem o grau de dificuldade para níveis vergonhosos; porque, em suma, um aluno com negativa é um aluno violentado na sua auto-estima e na sua confiança.
Relembro a tese de Anthony O’Hear. Na base das actuais tendências políticas em matéria de educação, encontramos duas concepções filosóficas distintas, embora complementares. A primeira, evocativa de Rousseau, é a disposição romântica que coloca o aluno no centro do mundo, tendo como premissa a ideia de que a educação existe para permitir o desenvolvimento «natural» do potencial natural da criança. A criança, acredita-se, descobrirá por si própria o que precisa para o seu futuro, através de métodos lúdico-práticos em interacção com os outros e com a natureza. No limite, o professor é um mero «assistente», que não só não deve atrapalhar o desenvolvimento nato do petiz, como deve investir em não melindrar a sua confiança e auto-estima. Desta concepção nasceu a ideia de que o aluno deve ser levado ao colo (não são permitidos chumbos, ou eufemísticamente «retenções») até à idade adulta porque, pelo caminho (que se deseja calmo e encantador) o seu potencial «natural» virá ao de cima.
A segunda concepção filosófica vai beber às teorias do filósofo do pragmatismo John Dewey: a educação só faz sentido se estiver focalizada no desenvolvimento das aptidões e destrezas de ordem prática, com ligação directa a problemas concretos da vida real. Neste caso, a verdadeira educação é aquela que parte da experiência concreta da vida e dos problemas práticos que dela advêm. Desta concepção, nasce a ideia de que as matérias ditas «tradicionais», de natureza teórica (por exemplo a Filosofia, a Literatura ou a História) não passam de abstracções artificiais ou exercícios inconsequentes, despegadas dos problemas reais. O que pesará mais na vida futura de um aluno: o diálogo de Príamo com Aquiles ou as diferentes formas de desemperrar um parafuso?
Aquilo de que nos falava O’Hear, reforça a percepção de que as actuais tendências educativas, aliadas a um caldo cultural temperado por uma colher de irresponsabilidade (o «facilitismo» como forma de ultrapassar dificuldades), uma pitada de demagogia (as estatísticas do «sucesso escolar» como obsessão) e uma mão cheia de ideias «progressistas» que visam heroicamente acabar com uma nefasta «tradição educativa» (a palavra «tradição» passou a ser sinónimo de «atraso») que vivia de temerosos espartilhos autoritários, contrários ao são desenvolvimento das crianças (apontam-se anos de traumas indizíveis), permitiram uma total inversão de valores que, na prática, teve dois resultados: um aumento exponencial do poder do aluno, consubstanciado pelo facto dos progenitores estarem hoje em dia mais interessados no «sucesso» do que propriamente na assimilação de conhecimento por parte dos petizes; e um decréscimo vertiginoso da autoridade e da ‘gravitas’ do professor no sistema de ensino.
Eu sou de um tempo em que os pais não toleravam as queixinhas dos filhos em relação aos professores. Se eu chegasse a casa e me queixasse que o professor havia gritado comigo ou que me tinha dado uma negativa, era mais do que certo que solidariedade pelo desconsolo ou crédito ao queixume, era coisa que não iria ter. Partia-se do princípio de que o professor sabia o que estava a fazer, e renovava-se constantemente o exercício do benefício da dúvida sempre que as acções ou decisões do professor poderiam levantar dúvidas. A isto aliava-se a ideia, sábia e carregada de bom senso, de que a versão do aluno era normalmente distorcida ou enviesada (para o lado dele, claro). Not anymore.
O mundo, de facto, mudou. Temo que para pior, enquanto acharmos que as sombras nos são suficientes, numa caverna quentinha, acolhedora e protectora.