Você está em: Homepage / Blogues / Blogue de Esquerda / Agitações na Blogosfera
Alterar tamanho de letra

20 JULHO 2009 - 16.54h

Agitações na Blogosfera

Categoria - Política

Com eleições a 27 de Setembro, seria de supor que a blogosfera veraneasse em águas mais agitadas do que o costume.  A criação do Simplex, blog de apoio ao PS, é, até à data, a mais séria confirmação dessa expectativa. Entendo que a construção da opinião a partir de uma declaração de voto constitui um sério ganho para a transparência do debate. Nno entanto, traz-me uma reserva que temo não conseguir explicar devidamente. Tentarei.  

Ao mesmo tempo que a declaração pública de apoio a um Partido recusa o tacticismo de uma opinião que se escusa a dizer claramente ao que vai, cria uma atmosfera intersubjectiva de arregimentação que pode ter como um dos seus efeitos a elisão de um distanciamento crítico, aquele mesmo que, no pesar de prós e contras, no ponderar dos diversos temas  da vida pública,  foi prévio à cristalização de uma decisão em relação ao voto. A consequência deste facto é uma  recepção previsível dos dados do debate político de tal modo que as críticas às posições do partido apoiado dificilmente serão mais do que ténues concessões retóricas. Esta questão é tão mais premente uma vez que numas eleições legislativas não se sufraga uma questão ou uma causa específica, mas uma míriade de questões conforme expostas nos programas de governo. 
Por seu lado, a construção de uma opinião que evita colar-se decisivamente a um  voto prévio também tem implicações ambíguas. Pode constituir uma forma menos transparente de entrar no debate se essa omissão, qual agenda escondida, der lugar a proselitismo instaurado a partir de um simulacro de distanciamento crítico: a cada tomada de posição configura-se uma relativa imprevisibilidade que se pode traduzir na adesão empática de um espectro mais alargado de sensibilidades políticas (relativa imprevisibilidade porque facilmente se percebem as águas políticas em que cada navega). Mas a produção de opinião apartada da declaração de apoio a um partido também pode constituir algo de positivo no debate, quer como reflexo de uma sincera reserva no apoio a um partido, quer como reflexo de uma atitude de continuado culto da dúvida que metodicamente assume prioridade sobre o indício das próprias certezas.  Por muito rebuscadamente que esta posição posssa ensaiar uma ética subjectiva de dúvida, ela pode responder a um esperar para ver em que o sujeito comprometido se adia (venha a campanha, venham os programas dos partidos, venham as sondagens), mas também pode responder à exigência de uma postura que se quer mais genuinamente crítica: 1) como deliberado cultivar de  uma convicção opinativa mais heterodoxa, em que o texto subjectivo e o público se informam recursivamente; 2) como expressão de uma lealdade política baseada na "hermenêutica da suspeita", aquela que só entrega a idiossincrasia da sua visão política ao programa de um partido, se tanto, no recato da urna.  
 



Bruno Sena Martins

Autor:

  • Marta Rebelo

    Jurista de formação, professora por dedicação, política de actividade e escritora por amantíssimo gosto

  • Tomás Vasques

    Advogado de profissão, mas dedica-se com frequência a outras artes. Gosta do conceito "esquerda liberal"

  • José Reis Santos

    Doutorando em História Contemporânea. Benfiquista, socialista e liberal, por esta ordem.

  • Nuno Ramos de Almeida

    Recorda com saudade a última frase de um dissidente soviético que se suicidou: "Não disparem camaradas!"

  • João Ribeiro

    Doutorando em Sociologia, jurista, socialista (moderno e não só) acredita que os consensos só servem os que dominam.Quer discutir os meios antes dos fins

  • Rui Estevão Alexandre

    Socialista, Republicano e Laico. Partilha de uma visão humanista do mundo. Através da Política contribui para o processo de construção da Polis

  • Catarina Caetano

    Gosto de trabalhar, das tábuas, do palco, de questionar, de reflectir. Sou actriz, e quero sempre mais

  • Bruno Sena Martins

    Antropólogo dado a radicalismos de esquerda procura sociedade séria para compromisso aberto

  • Miguel Cardina

    Historiador nos tempos úteis, musico nas horas vagas e esquerdista o tempo todo

  • Tiago Mota Saraiva

    Comunista e benfiquista. Arquitecto por vontade própria, professor desempregado e empresário por obrigação

  • Vítor Dias

    Comunista com muita honra, uma amargura combatente, a idade pesando e o cabelo embranquecendo

  • Ana Gomes

    Socialista, eurodeputada, blogger preocupada

  • Paulo Guinote

    Professor porque sim, aprendiz de historiador nos tempos livres, individualista e liberal demais para acreditarem que sou de esquerda

  • Mariana Mórtagua

    Economista (cada vez mais aterrorizada). De esquerda por absoluta convicção e estruturalmente feminista

  • Miguel Marujo

    Pai babado. Jornalista. De esquerda. Benfiquista. Católico. Leitor compulsivo. Blogger. Viajante. Cagaréu. A ordem não pode se esta

  • Miguel Vale de Almeida

    50 anos, antropólogo, professor universitário, activista LGBT e ex-deputado independente pelo PS à AR

    

Arquivo

<Maio 2012>
 
segterquaquisexsábdom
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031   
       
Copyright ©. Todos os direitos reservados. É expressamente proíbida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Edirevistas, S.A. , uma empresa Cofina Media, SGPS. Consulte as condições legais de utilização.