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17 FEVEREIRO 2010 - 17.55h

O país onde vivemos

Categoria - Política

Portugal já foi um país de gente de bem. De gente composta, bem formada e com cultura. Sabia-se o que queria dizer «Homem de Bem», e honrava-se o bom nome dos que andavam na rua de cabeça erguida. Dava-se a cara por causas, ideias ou ideais. Vivia-se com coragem, mesmo num clima de medo. Separava-se dignamente o público do privado, respeitavam-se conversas e havia limites que dificilmente se ultrapassavam. Hoje estamos longe deste país. Hoje tudo vale para se conseguir alguma notoriedade. Para se conseguir ver o nome impresso no jornal. Hoje vivemos num país invejoso e de invejosos; mesquinho. Sem coluna vertebral e sem mundo. Tudo vale. Tudo mesmo, para se conseguir duas linhas de jornal ou dois minutos de televisão.
Portugal também já foi um país com uma imprensa de respeito. De qualidade. Mesmo durante a ditadura havia quem – na situação e na oposição – levasse a sério o seu trabalho de jornalista; e, mesmo em condições de adversidade extremas, procurasse produzir notícias e investigação jornalista de qualidade. Hoje não. Hoje estamos rendidos ao imediatismo sensacionalista efémero. À parangona fácil e à desinformação condicionadora. Pouco importa a veracidade ou a pertinência do objecto noticiado. Pouco importa a legalidade no acesso à informação ou a verificação dos factos. Pouco importa se uma notícia é Notícia.
Esta reflexão deriva da análise a uma suposta «notícia» (pena não conseguir arranjar aspas maiores…) que corre hoje no Correio da Manhã. Viram a notícia? Acusam o Simplex de ser auxiliado por assessores ligados ao governo. Como? Então acusaram o simplex, um blog político de apoio a um projecto político de fazer… política? Onde está a notícia? No facto de os seus colaboradores terem acesso a informação? Não seria estranho que tal não acontecesse? Alguém se lembrou de perguntar ao Pacheco Pereira se, quando escreve, não tem informação para o fazer? Ou ao colectivos Jamais, Arrastão, Rua Direita, 5 Dias ou 31 da Armada (a lista pode continuar facilmente…)? Qual é então a notícia? Nenhuma. Tudo se resume à divulgação ilegal de mails internos da mailing list do Simplex por parte de um execrável sujeito que tudo vende para conseguir alguma atenção e duas linhas de papel impresso.
O interesse jornalístico desta «peça» é, como se vê, zero. Já o interesse político é infinito. O que importa mesmo é atacar o PS e o governo socialista. É mesmo impressionante a ferocidade e a frequência destes ataques (até o insuspeito Mário Soares já assumiu que nem ele – em pleno PRES – tinha sido tão atacado…). Interessa sim colocar mais uma acha, mais um prego. Contribuir para o clima de suspeição e de conspiração. Só assim se entende que uma prática legítima e expectável como é a articulação entre os colaboradores do Simplex e políticos no governo (que são, e serão sempre cidadãos individuais com legitimas aspirações de colaborar na vida política do país) seja motivo de apreciação tão escandalosa. Porque não fizeram os mesmos jornalistas uma investigação apreciativa dos blogues políticos que pululam pela área da direita? Porque apenas interessava acusar o PS e o Simplex. E promover o bufo, o novo bufo, essa inestimável fonte da nova informação jornalística.    
Roma não pagava a traidores, como se sabe, pois reconhecia neles sérias deficiências de carácter impeditivas de consideração. Hoje, pelo contrário, recompensa-se com alvíssaras de latão quem se apresente sem escrúpulos e com uma história catita. Os mais antigos lembram-se que nos tempos da PIDE havia os bufos, os vira-casacas, que sob a cobertura do anonimato chibavam amigos e parentes. Diziam tudo para serem recebidos pelos inspectores do regime, figuras por si estimáveis. Tudo que lhes desse a notoriedade de serem visitas da António Maria Cardoso. Hoje são alguns jornais o abrigo preferencial dos novos chibos. Dão-lhes abrigo e comida, e com jeito até uma colunita. Tudo para que o público fique bem (des)informado.
Hoje vivemos num país amordaçado. Novamente amordaçado. Já não nos capa a liberdade o ferro da ditadura ou a guilhotina da censura. Já não nos perseguem nem nos ameaçam nas ruas ou no trabalho. Tudo é mais subtil e subterrâneo. Atacam-nos de costas, de preferência anonimamente, com o beneplácito desses ditos «Homens da Liberdade». Disfarçam-se ataques políticos com peças informativas; e jornalistas e directores de jornais assumem o papel dos novos censores. Publicam, sob o manto da imparcialidade, mentiras, meias-verdades e boatos. Tudo que justifique mais uma venda, mais um ataque ao governo (que vende). Tudo o que menospreze ou condicione a governança e os seus principais actores políticos. E queixa-se a direita (ou alguma desta) que não tem liberdade? Pois para mim tenho que só a direita tem hoje liberdade. Liberdade e impunidade.
Portugal já foi um país bem diferente. Já foi livre e bem informado. Dominado por «Pessoas de Bem». E dá-me asco que vivamos num período histórico onde se privilegia o mesquinho, a inveja e a cobiça. Não é neste Portugal que me revejo. Nem nos portugueses que encobrem, aproveitam e pactuam com este estado da situação.
[declaração de interesses posterior: fui colaborador e dos principais dinamizadores do Simplex, um dos seus «pivôs», segundo o Correio da Manhã. Foi um projecto fantástico que reuniu uma equipa inacreditável de proveniências e destinos bem diversos. Conseguimos marcar a vida política nacional e dar um modesto contributo para a vitória do PS nas eleições de Setembro último. Era esse o nosso desiderato. E para tal contribuímos voluntariamente, dentro das nossas capacidades, com o nosso total empenho. Ninguém foi pago no Simplex. Todos sabemos. Nem houve algum tipo de recompensa pela participação naquele blogue (dou o meu caso e todos os que tem vindo a público). O Carlos «o bufo» Santos sabe disso. Sempre soube. Não entendo assim a atitude execrável que tomou recentemente, atacando o Simplex e os seus colaboradores. Demonstrou, ao publicitar correspondência privada e a passar a ideia de que alguns de nós tínhamos tido proveitos ilícitos por termos participado no blogue, não só uma grave falta de carácter como um tique para a mentira patológica e auto-ilusória. O que ele insinua é mentira. Eu fui dos que lhe abriu a porta de casa, e, julgando-me um bom apreciador de carácter, assumo que falhei redondamente a leitura de tal criatura. Enganou-me. Mais, peço desculpas a todos quem apresentei o Carlos Santos como sendo uma pessoa de bem. Não é. É um ser mesquinho, sem escrúpulos éticos ou decência. E de ora avante denunciarei esse sujeito a todos os que por ele me perguntarem, e quando tiver a infelicidade de com ele me cruzar na rua direi a alto e bom som: «Ali vai o Carlos Santos, o bufo. Aquele que traiu amigos e colegas, mentiu e inventou, tudo pela promessa de um prato de lentilhas requentadas e duas linhas num pasquim de viela».  
[ainda neste tema, vejam o que escreveram o Porfírio Silva, o Eduardo Pitta, o Rogério da Costa Pereira, o Pedro Adão e Silva, o Vasco Barreto, o Tiago Barbosa Ribeiro, o Miguel Abrantes, Sofia Loureiro dos Santos, Luís Novaes Tito, Tomás Vasques, André Couto.



José Reis Santos

Autor:

Marta Rebelo

Jurista de formação, professora por dedicação, política de actividade e escritora por amantíssimo gosto

José Reis Santos

Doutorando em História Contemporânea. Benfiquista, socialista e liberal, por esta ordem.

Daniel Martins

De dia disfarça-se de consultor, à noite caminha pelas vielas da escrita. Mas sempre pela esquerda

Mónica Andrezo Pinheiro

Curiosa. Leitora compulsiva. Escritora inspirada. Consultora. Muito benfiquista. Sulista, elitista mas liberal

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