25 ABRIL 2009 - 00.34h
Categoria -
Política

Mais uma vez, comecei o dia jurando que não ia à manifestação. E mais uma vez acabei o dia garantindo a mim mesmo que para o ano não ponho lá os pés.
Então, foi assim: antecedendo a cabeça da manif, como se impõe, galopavam os "seguranças". A mim, tocou-me dar de caras com um troglodita de bigode estilo piaçaba e cartão ao peito, que berrava “vamos: tudo para o passeio, já!”, enquanto ia desenhando urgentes movimentos de braço com que empurrava os mais lentos.
Atrás dos debilóides gesticulantes da organização, vinha o inefável e crucial “Quadrado”. Para quem nunca viu um dos programas do David Attenborough sobre movimentações de massas organizadas pelo PCP, eu explico: é um polígono móvel, delimitado por um pano, onde apenas entram as Personalidades Importantes. Dentro de cada organização que participa em marchas assim, há lutas intestinas de morte para decidir na véspera quem são os eleitos que terão lugar nesta espécie de “Sala VIP” da manif.
À frente do majestoso Quadrado seguia a Comissão Política do PC em peso, temperada por alguns militares, figuras do PS e celebridades sortidas, sorrindo para o mundo como estrelas de Hollywood em digressão pela parvónia.
Avenida abaixo, lá se estendeu a procissão do costume. Macambúzios jotinhas, sindicatos mal dispostos, altifalantes barulhentos às resmas, coloridas organizações gay, divertidos okupas do ATTAC e tribos similares, festivos imigrantes. Enfim: tudo normal. Só que tudo em menor escala e mais triste que no ano passado.
Por fim, desaguou o desfile no Rossio. Era chegada a parte política da função. Começou o falatório com uma senhora que berrou em nome da “Comissão Organizadora do 25 de Abril”, talvez os responsáveis por o calendário não ter passado directamente do dia 24 para o 26. Estava dado o tiro de partida para a maratona de discursos. A abrir, uma criatura que gastou à vontade meia hora a debitar lugares-comuns sobre os males do mundo: a globalização, o governo, o desrespeito pelos “direitos dos trabalhadores”, etc. Enfim: um deprimente bestiário das piores figuras de estilo do agit prop em versão grunha.
Nesta altura, já só os fiéis prestavam atenção aos urradores. O povo deambulava em busca de ginjinhas, Big Macs e lugarzitos sentados. Eu, por sorte e denodo revolucionário, acabei por alcançar estas três magnas conquistas de Abril. Mas, mesmo assim, para o ano não me apanham noutra. Garanto-vos. A sério.
PS: Escrevi mais ou menos isto no dia 25/4/05. Palpita-me que não vou ter de alterar grande coisa mais logo.
Luis Rainha
José Mário Silva