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24 ABRIL 2009 - 16.01h

Penso, logo gostava mesmo de existir

Categoria - Política



A tradição da intervenção cívica não morreu em Portugal. Ainda é possível a cidadãos anónimos erguerem-se em improvisados púlpitos, chamando a atenção para os erros, para as infâmias, para os desvarios da classe política reinante. Pelo menos na teoria. Na prática, o resultado é uma entidade chamada Clube dos Pensadores.
O seu principal cometimento é uma série de debates em que figuras políticas variadas trocam ideias com o fundador da organização e "convidado permanente" dos debates: o já quase famoso JJ. Um programa de rádio conexo também apresentou debates mas logo evoluiu para solilóquios, por certo fascinantes, da mesma personagem. A outra actividade perceptível daquela malta é a auto-promoção: cada sílaba escrita sobre eles é logo recortada e emoldurada.
Mas não nos detenhamos em pormenores. Corram a visitar o site, que eles merecem. Pelas inventivas entorses a que sujeitam o Português; pela absoluta inanidade dos conteúdos; pela infindável arrogância de quem se acha encarregue de uma missão cívica quase divina.
Fiquem com alguns morceaux choisis da prosa do pensador-chefe: «Portugal , o país do livra-te em quando puderes (sic) e em que tudo é possível e impossível»; «Foi pena ter saído , fiquei com a ideia , metaforicamente falando que , " é uma carro muito bom mas parou por falta de gasolina"»; «Pedro Santana Lopes é um político que me lembra um electrocardiograma , tem altos ( sístole)e baixos ( diástole) mas está aí para as curvas . Ao contrário de outros politicos , em que o seu electrocardiograma mais parece de um morto , apresentando uma linha contínua e horizontal »; «O trabalho que tentou fazer LFM com esforço , eficácia e abnegação foi destruído pelo espírito delituoso. O PSD vive com o anátema que anda sempre aos tombos.»
Note-se que este LFM é mesmo Luís Filipe Menezes; aliás, no seu afã de procurar políticos capazes de renovar a Política, JJ fez algumas descobertas fascinantes: Santana Lopes e Narciso Miranda são apenas duas delas.
Quem ali apareça com outra ideia que não cantar loas ao chefe é logo recebido à pedrada, por acólitos um pouco mais letrados (nós, os alienados por JJ): «Não sei porquê a perseguição e o medo do trabalho que JJ desenvolve com abnegação e sentido cívico. Faz-me lembrar a peça de teatro “Quem tem medo de Virginia Woolf”, que também foi rodado como filme. No início do século XX, essa escritora fantástica deslumbrou o mundo e varreu com o cânone vitoriano estabelecido.» A alusão literária é de bonito efeito. Mas parece olvidar o facto de que esta peça nada tem a ver nem com Virginia Woolf nem com perseguições seja lá a quem for...
Agora, corram e admirem o "trabalho" de JJ. Verifiquem como a iliteracia e a mitomania podem afinal ser sinónimos de "sentido cívico".


Luis Rainha



José Mário Silva

Autor:

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