29 ABRIL 2009 - 12.43h
Categoria -
Política
Dei com um texto de há umas semanas de Pedro Abrunhosa, publicado na Notícias Magazine. O tema é a magreza esquálida do orçamento destinado pelo Governo à Cultura. E o autor do conhecido hit “Talvez Foder” deve ter entretanto tirado um curso acelerado de tecno-Português, pois trata de nos informar do o seguinte: «se há uma área de absoluta prioridade estratégica que é, pela essência, forte, determinante e geradora de riqueza para um crescimento homogéneo e auto-sustentável do país, essa área é a Cultura.» Impressionante.
Mas há solução à vista: «Portugal tem que saber exportar a sua maior e única exclusiva riqueza: a Alma», que hoje já não se resume ao Fado, claro. Abrunhosa aponta como tremendas exportações a descobrir «a modernidade com que definimos a excelência da nossa escola arquitectónica, do teatro, da pintura, da literatura, esse meio excelso com que temos cativado o mundo, do imenso, único e disperso espólio arqueológico, patrimonial e paisagístico, da indústria musical que, em contra-corrente, se manifesta como das mais activas e produtivas do velho continente (…)».
Isto faz-me lembrar tempos de antanho, em que o nosso sombrio isolamento nos fazia cair em delírios colectivos de grandeza; tudo o que era português era o melhor do mundo – dos queijos aos pilotos de avião. Naturalmente, tal alucinação não nos levou a parte alguma.
Não temos nem fabulosas «escolas» de arquitectura, nem pintores na moda, nem dramaturgos encenados lá fora, nem músicos geniais, nem o mirífico «espólio» irresistível para hordas de turistas sedentos da magia da Cultura Lusa. Tivemos a sorte de dar ao mundo um dos maiores poetas do século passado e exportamos, hoje em dia, dois excelentes prosadores. Temos, ao fim e ao cabo, o que seria de esperar de um país com a população de Londres, mas povoado por malta incrivelmente ignorante e grunha.
Enquanto os nossos filhos continuarem a achar que quem anda com livros debaixo do braço é nerd e que quem não gosta dos Linkin Park só pode ser surdo; enquanto a educação artística no secundário inexistir, de nada valerá atirarmos milhões suplementares às nossas frustes indústrias culturais; além de apaziguarmos os bonzos do costume, só por acaso conseguiremos produzir e exportar mais um Fernando Pessoa ou um Domingos Bontempo.
Luis Rainha