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30 ABRIL 2009 - 14.28h

Ainda a toponímia

Categoria - Política

Para Alberto Gonçalves, a toponímia é a memória de um país, lá cabendo de forma confortável todos os "facínoras". Para este douto sociólogo, é igual uma “Avenida Marquês de Pombal” a uma imaginária “Alameda da PIDE”. O tempo, ao fim de um mês ou dois, tudo liquefaria numa lama indistinta onde se diluem os resquícios da memória. Que ainda ande por aí gente que foi torturada às ordens de Salazar, eis um pormenor de somenos.
Engraçado. Há uns anitos, surgiu um livro intitulado "Portugal, Hoje: o Medo de Existir". Nele, José Gil, autor que o AG até é capaz de apreciar, postula que a depressão colectiva em que nos via mergulhado radicava, em grande parte, no facto de nunca termos lidado de modo definitivo com o fantasma do salazarismo: não houve julgamentos, nem castigo, nem um enterro eficaz daquele passado vergonhoso. Seríamos o que Gil chamaria a pátria da «não-inscrição»,
Nem vou contrapor o caso de Espanha, país exilado de uma ditadura ainda mais feroz, com a bagagem de uma guerra civil carregada de atrocidades, mas onde os herdeiros do franquismo foram absorvidos e normalizados... sem julgamentos, vinganças ou convulsões de maior.
Não. Importa aqui explicar ao sociólogo AG que ainda é cedo para estrear com espavento obras dedicadas a um ditador recente que espezinhou as nossas liberdades durante décadas, logo no dia da revolução que o depôs. Ainda é cedo para fazermos aquele curioso resumo diacrónico que nos diz que o Marquês de Pombal foi um grande homem, apesar de tudo; que D. Carlos até é capaz de ter sido mais do que um peralvilho erudito desligado do seu reino. Ainda é cedo, sobretudo, para equiparar, como AG faz, Álvaro Cunhal, homem que sacrificou décadas da sua liberdade a um ideal, a Salazar – o responsável pela sua prisão e tortura.
 



Luis Rainha

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