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Comunicado do Conselho de Ministros de 2 de Setembro de 2010 


4. Proposta de Lei que regula o procedimento de mudança de sexo e de nome próprio no registo civil e procede à alteração do Código do Registo Civil

Esta Proposta de Lei, a enviar à Assembleia da República, visa simplificar o procedimento de mudança de sexo e de nome próprio no registo civil para as pessoas a quem clinicamente tenha sido diagnosticada uma mudança da identidade de género (transexualidade).

Este novo procedimento justifica-se pelo facto de a complexa solução actual para estes casos, que exige uma intervenção judicial, não ser a mais adequada, por razões de justiça e por este ser o caminho mais seguido a nível europeu.

Em primeiro lugar, não faz sentido que as pessoas que queiram proceder a uma mudança de sexo e de nome próprio no registo civil tenham que propor uma acção em tribunal, que é o que sucede hoje em dia. Na verdade, nestas acções judiciais, o tribunal praticamente se limita a reconhecer os relatórios clínicos e a confirmar por sentença um diagnóstico científico. Desta forma, não se justifica obrigar as pessoas interessadas a propor acções em tribunal com os custos inerentes de tempo e dinheiro, bem como pelo desgaste psicológico envolvido.

O procedimento criado através da presente Proposta de Lei visa, portanto, permitir que as pessoas a quem foi diagnosticada uma mudança de identidade de género possam alterar o seu sexo e o seu nome próprio no registo civil, sem necessidade de propor uma acção judicial.

Em segundo lugar, a solução adoptada pela presente Proposta de Lei é a que mais favorece uma plena integração social às pessoas a quem tenha sido clinicamente diagnosticada uma mudança de identidade de género.

Finalmente, deve referir-se que esta solução já vigora em diversos países, como a Alemanha, a Espanha, a Itália, o Reino Unido e a Suíça. Na verdade, há mais de 20 anos que vigora a legislação alemã, suíça e italiana sobre a mudança de identidade de género. E também há já mais de 20 anos que o Conselho da Europa recomendou aos Estados-membros o reconhecimento legal desta situação.

O procedimento consagrado na presente Proposta de Lei permite que as pessoas a quem tenha sido clinicamente diagnosticada uma mudança de identidade de género possam requerer, em qualquer conservatória do registo civil, a alteração do sexo e do nome próprio, bastando apresentar um relatório elaborado por equipa clínica multidisciplinar de sexologia clínica que comprove o respectivo diagnóstico. O conservador deve decidir sobre o pedido apresentado no prazo de oito dias.

Este regime proposto dá expressão ao compromisso do Governo de “combater todas as discriminações e, em particular, a envidar todos os esforços no sentido de proporcionar a todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual e identidade de género, o pleno usufruto dos direitos constitucionais. Com este passo, acreditamos contribuir para uma sociedade mais justa, estruturada no respeito pelos direitos fundamentais, pela democracia e pelo valor da inclusão de todas as pessoas”.



José Reis Santos

O homem que um dia sonhou ser primeiro-ministro de Portugal relançou na sociedade portuguesa o debate em torno da tendência para a gratuidade do Serviço Nacional de Saúde, conforme previsto na Constituição que se propõe a rever. Na antecâmara de uma solução ainda mais liberal e comprovadamente ultrapassada, é apontada a insustentabilidade do actual sistema, com base no crescimento constante e verificável dos custos públicos com a saúde. As crescentes necessidades de uma população em acentuado envelhecimento, a notória falta de qualidade da gestão pública (e privada…) de hospitais e de serviços de saúde e os supostos benefícios que a abertura da prestação de cuidados de saúde universais ao “mercado” trariam são factores adicionais apontados pelos liberais travestidos de sociais-democratas que por ora reinam na São Caetano à Lapa. A solução que apontam é de uma simplicidade que podia ser desarmante: os portugueses deviam aceitar um serviço público de saúde menos abrangente, com mais serviços a serem pagos do seu próprio bolso ou através de benevolentes seguros privados.
Não obstante os vários problemas apontados ao SNS, a questão essencial da tese liberal que sustenta os propósitos laranjas é a afirmação da insustentabilidade do actual sistema. Urge então rebater os argumentos (mitos?) que sustentam semelhante afirmação:
- A comparação entre o crescimento do PIB e dos custos com a saúde é importante. No actual estado da nossa economia, a simplificação desta assunção conduziria rápida e falaciosamente à declaração de insustentabilidade. Todavia, semelhante argumento cai pela raiz, quando o nosso sistema de saúde é comparado com sistemas quasi privados, como o australiano ou o holandês, ou totalmente abertos às perniciosas “virtudes” do mercado, como ainda é o norte-americano. Nesses sistemas o crescimento dos custos com a saúde cifra-se em média 7% a 12% acima dos que se registam no nosso país, sendo que o crescimento económico verificado nas respectivas economias se situa em níveis ligeiramente superiores aos nacionais;
- As nossas contas públicas reflectem uma percentagem de gastos com a saúde superiores à média ocidental, de acordo com os arautos do pseudo-liberalismo económico. Nada mais errado. Com efeito, a percentagem de gastos públicos com o SNS é largamente superada por holandeses e americanos. Desta forma se rebate o eterno e inexplicável mito da concorrência como efeito gerador da descida de preços. Com efeito, apesar do crescimento dos gastos com a saúde na generalidade dos países que ainda garantem um sistema público e universal de prestação de cuidados de saúde, a verdade é que esse crescimento é largamente superado nos países que privilegiam um sistema privado de saúde. Se a estes dados juntarmos a não inclusividade destes últimos, a controvérsia encerra-se de vez;
- Outra questão que releva e que é ignorada pelos paladinos do mercado prende-se com a origem do aumento dos custos com a saúde. Enquanto os gastos com pessoal médico ou com hospitais públicos de estão pública se mantêm, assistimos a um aumento descontrolado de gastos com fármacos e ainda ao inexplicável fenómeno das parcerias público-privadas. No que toca à relação com a indústria farmacêutica, cabe reafirmar a importância da transparência nos concursos públicos e nas relações sempre nebulosas entre clínicos e laboratórios. A generalização da comercialização de genéricos, sobretudo em medicamentos para tratamento de doenças crónicas, ainda está longe de ser uma realidade. Por outro lado, qualquer julgamento dotado de racionalidade económica condenaria a existência de parcerias público-privadas para a construção e administração de instalações de saúde pública;
- Finalmente, cabe arguir que a existência de um sistema público de saúde constitui de igual forma um estímulo ao investimento estrangeiro e à criação de emprego. Com efeito, a ausência de custos com a criação de planos de cobertura de saúde para funcionários, é sempre uma das primeiras questões levantada por gestores privados e é vantagem competitiva assinalável em tempos de crise, e não só.
 Em suma, o sistema actual carece de reformas urgentes, não no que à axiologia do mesmo diz respeito, mas no que concerne à coerente e racional administração do mesmo. Não olvidando a matriz de justiça social e igualdade em que assenta e que constitui a sua grande razão de ser, urge demonstrar perante os quase sempre incontestados oráculos da economia liberal que, de facto, um sistema público e universal de prestação de cuidados de saúde é a solução economicamente mais viável. Provavelmente, a única.
 



Daniel Martins

1 SETEMBRO 2010 - 11.09h

Dívidas soberanas: mitos e realidade

Categoria - Economia

Desengane-se quem julga que o nível de endividamento nacional se encontra acima da média dos nossos comparsas ditos desenvolvidos. Um dos mitos melhor promovidos desde o primórdio desta crise é a errada noção de que o nível de endividamento dos tristemente denominados PIGS atinge valores estratosféricos quando comparado com os "responsáveis" e "sapientes" países anglo-saxónicos. Pura mentira. Países como França, Bélgica, EUA ou o Japão atingem taxas de evolução da dívida pública bem superiores à portuguesa, nos últimos 30 anos.

O dedo apontado em riste aos países do Sul da Europa não é inocente e releva como factor de diversão para iguais problemas que maleitam economias supostamente mais pujantes e inocentes no que ao endividamento diz respeito. Assim sendo, facilmente se identifica o propósito de semelhantes manobras de diversão: exigir sacrifícios a outrem por falta de disposição ou de força para fazer o mesmo dentro de fronteiras.

Ninguém de bom senso pode pactuar com o crescimento exponencial da generalidade das dívidas soberanas. A mera crítica às soluções de austeridade pública que têm feito escola na Europa e no Mundo não pode, todavia, ser encarada como irresponsável. Como Stiglitz e Krugman têm vindo a avisar, a diminuição dos níveis de investimento público numa altura de pré-recessão e retracção do investimento privado padecerá de efeitos contraproducentes que se reflectirão não apenas no aumento dos níveis de desemprego e eventualmente na existência de deflacção, como de igual forma no aumento das dívidas soberanas. Obama já percebeu que urge lançar um novo pacote de estímulos económicos enquanto Merkel continua a assobiar para o lado, embalada pelos dados recentemente vindos a lume, que ainda não reflectem os reais efeitos da sua limitada mas real política de austeridade. Quando e se tiver a percepção do erro, será tarde. E a culpa será provavelmente de portugueses, espanhóis ou gregos. As usual.



Daniel Martins

25 AGOSTO 2010 - 22.06h

Austeridade irracional

Categoria - Economia

Paul Krugman atenta contra o mindset dos sacrossantos policy makers económicos, faltando - intencionalmente ou não - colocar a derradeira questão: quem lucra com a obsessão pelo défice?



Daniel Martins

Autor:

Marta Rebelo

Jurista de formação, professora por dedicação, política de actividade e escritora por amantíssimo gosto

José Reis Santos

Doutorando em História Contemporânea. Benfiquista, socialista e liberal, por esta ordem.

Daniel Martins

De dia disfarça-se de consultor, à noite caminha pelas vielas da escrita. Mas sempre pela esquerda

Mónica Andrezo Pinheiro

Curiosa. Leitora compulsiva. Escritora inspirada. Consultora. Muito benfiquista. Sulista, elitista mas liberal

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