17 SETEMBRO 2010 - 14.12h
Categoria -
Mundo
Sejam verdadeiras expulsões, ou meros "convites" ao abandono do país através da coacção soft do dinheiro, ou seja outra coisa qualquer que se lhes queira chamar - esta persuasão do governo francês sobre as comunidades ciganas para que façam as malas, levantem os acampamentos e digam adieu a la France já vem sendo praticada há anos. Não é de 2010, vem de trás e tem sido levada a cabo de forma relativamente sistemática e discreta.
Outros países seguem há décadas as suas muito discretas políticas de convite ao exílio, por exemplo, de indivíduos considerados "socialmente indesejáveis". A Alemanha, por exemplo. E não, não me refiro nem ao Terceiro Reich nem à RDA, refiro-me à Alemanha mais recente e mais democrática. As expulsões não são nem de agora nem um exclusivo francês.
A novidade em 2010 é que estas campanhas francesas passaram a ser mediatizadas. A discrição anterior foi resultado da influência que os media franceses têm sobre os media de outros países, sendo que os media franceses são nacionalistas e defendem a todo o custo a imagem externa do seu "grande país". A AFP é francesa. E países há, como por exemplo Portugal, em que os media nacionais acedem aos acontecimentos estrangeiros sobretudo por via indirecta, lendo apenas aquilo que apetece aos les mondes revelar. Em anos anteriores, não interessou aos les mondes falar de políticas de imigração; agora, passou a interessar.
A mediatização actual resultou de uma deliberação de Sarkozy com fins puramente estratégicos e de política baixa. O presidente francês pretendia ganhos de popularidade e acreditou que os conseguia através da publicitação das expulsões de ciganos.
Isto não é mais que um dos grandes clichés da política: em época de crise económica, é fácil atirar as culpas genericamente para cima de uma minoria ora endinheirada ora frágil. É uma forma de canalizar tensões sociais para um elemento da sociedade que conta pouco (ou nada) em termos eleitorais. Isto é uma coisa que se pode registar ao longo dos séculos e desde uma Indonésia a uma Alemanha, ou seja, por todo o planeta.
Ora, no caso francês, o uso desta política-cliché está a revelar-se um tremendo erro: a popularidade de Sarkozy não só não descolou como que, também, os franceses, orgulhosos e altivos, temem que a imagem da França no exterior venha a sair muito prejudicada.
Muita opinião já foi divulgada sobre este assunto. A mim, uma das perspectivas que me parecem mais interessantes e menos abordadas é a da legalidade. É preciso lembrar que Sarkozy pôde "expulsar" ciganos porque é legal. Sim: sem querer subir às declarações universais de direitos e princípios gerais do direito europeu, é perfeitamente legal pagar àqueles romenos para que dêem meia-volta e desocupem o terreno francês.
O mais interessante da história das expulsões de ciganos em França, e talvez aquilo que mais se relacione com Portugal e a nossa integração europeia, são os factores que levaram a que seja legal que as autoridades francesas possam assim tão facilmente expulsar cidadãos romenos. Sobre isso falarei no próximo post.
Ricardo Vicente