23 OUTUBRO 2009 - 23.51h
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Outras
Uma reflexão bem-educada:
Há uma coisa que me causa um bocadinho de irritação (mas quem me dera que todas as irritações da minha vida fossem como essa!).
Irrita-me um bocadinho que pessoas inteligentes, com bom gosto e letradas façam depender a sua análise estética da obra de Saramago das suas considerações relativas à pessoa Saramago e ao discurso político que este emite fora dos seus livros.
Uma análise estética de uma obra de arte deve ser separada do ser humano que realizou essa obra, bem como das suas opiniões, por exemplo, políticas. De facto, uma crítica de arte só tem a ganhar se for independente das opiniões (e, mesmo até, das interpretações) do próprio artista sobre a sua arte.
A quem se encontra demasiadamente impressionado pela pessoa e pelo discurso extra-literário de Saramago (ou de outro qualquer) é pois eventualmente aconselhável que não tente uma crítica da sua arte. Nestes casos, as tentativas de crítica acabam quase sempre por ser meros ataques à pessoa projectados na obra ou ataques à obra com o objectivo de atingir a pessoa. Ou seja, acaba por não se fazer justiça à obra enquanto se ataca (e atacar não é o mesmo que criticar!) uma pessoa.
E o facto de alguém eventualmente merecer ser atingida as mais das vezes não se relaciona com os méritos ou deméritos estéticos das suas obras. (Aliás, suponho ser um puzzle ético impossível tentar justificar uma crítica moral dirigida a alguém com base numa apreciação do mérito estético da obra da pessoa em causa).
E ainda: não me custa acreditar quando alguém me diz que não gosta dos livros de Saramago pela dificuldade de leitura. Mesmo reconhecendo que quem espera facilidade da arte deveria recorrer só à música e literatura pop (mas também que beleza e, até, inteligência não têm necessariamente de ser complexas), aceito que o estilo de escrita de Saramago não seja imediatamente muito cativante.
(Aceito também que num país com hábitos de leitura tão miseráveis não seja de surpreender o queixume face ao texto “tão difícil de ler”; o que é verdadeiramente surpreendente é o caso de esse queixume vir de gente auto-declaradamente muito lida).
Agora, da simples constatação da leitura difícil a dizer que os livros são maus é que já vai um grande espaçamento longitudinal (para não dizer distância...): o espaçamento entre os que fazem um trabalho crítico sério, justo e política e pessoalmente isento e os que, não se disponibilizando para suposto maior aborrecimento, vertem os seus biliosos ressentimentos políticos naquilo a que ilegitimamente chamam de crítica.
Ricardo Vicente