Surgiu outro estudo sobre a fraquíssima mobilidade social em Portugal, a juntar aos estudos já existentes sobre desigualdade social (muito alta em Portugal), "university premium" (alto no país), sobre a relação (anormalmente forte e persistente) entre background financeiro e educativo dos pais e sucesso na escola e no mercado de trabalho dos filhos. Portugal aparece sempre muito mal em todos estes estudos. E aparece inclusivamente pior do que em países menos ricos e com democracias mais jovens que a nossa.
Tenho, porém, encontrado aquilo que me parecem ser enviesamentos de análise em alguma da opinião publicada. Um enviesamento de análise à direita, um enviesamento de análise à esquerda.
À direita foi já afirmado que uma das causas da fraca mobilidade social é a própria esclerose dos mercados de trabalho (poucos despedimentos, poucas novas contratações, longuíssimos períodos de permanência nos mesmos postos de trabalho, baixíssimas percentagens de trabalhadores que ao longo da vida mudam de emprego).
A liberalização dos mercados de trabalho é importante mas não é a principal causa da imobilidade social. Quando os filhos da classe pobre e média-baixa não completam a universidade, nem sequer o 12o e nem ao menos, mínimo dos mínimos dos mínimos!, o 9o ano - então mesmo com liberalização absoluta dos mercados não é possível esperar por qualquer forma de ascensão social. Isto porque estas pessoas sub-educadas não têm currículo sequer para meramente se candidatarem a muitos postos de trabalho. Estas pessoas nunca chegarão a concorrer aos sectores do mercado de trabalho menos competitivos porque logo à partida falta-lhes currículo mínimo para se candidatarem, por exemplo, a um lugar na função pública. E isto é verdade independentemente dos respectivos mercados de trabalho serem mais ou menos liberalizados.
Para compreender a baixíssima mobilidade social em Portugal é necessário colocar a ênfase da análise no sistema de ensino.
Para aqueles cujo background familiar aponta no sentido da exclusão do mercado de trabalho, o mérito só pode começar na escola. Mas se as famílias não têm posses para manter os filhos nas escolas; se as escolas que os pais podem financiar são só as públicas; e se as escolas públicas são cada vez mais inferiores, fáceis e estúpidas - então nem com mercados de trabalho flexíveis se chega à ascensão social e à meritocracia.
A esclerose do mercado de trabalho português (falo na prática, na perspectiva dos "outcomes" mensuráveis e não na perspectiva apriorística e jurídica) - afecta sobretudo os "outsiders" que passaram a primeira barreira: a da educação. A rigidez laboral penaliza sobretudo aqueles que, embora tendo nascido pobres, conseguiram acabar a universidade. Estes têm currículo que justifica a entrada no mercado de trabalho em profissões da classe média mas essa entrada é-lhes vedada porque a maioria dos postos de trabalho já está preenchida por trabalhadores inamovíveis. São sobretudo estes "outsiders", que subiram a pulso, quem é mais prejudicado pelos "direitos adquiridos". Os outros outsiders, os subeducados: esses nem sentirão o cheiro das repartições e dos escritórios onde nunca trabalharão. Quando muito, poderão sentar-se nos bancos da sala-de-espera de um qualquer centro de emprego.