À esquerda parece haver um outro enviesamento. Se podemos facilmente aceitar que uma das causas da baixa mobilidade social é a própria desigualdade (se a classe média-baixa é “muito baixa” então terá grande dificuldade no acesso ao ensino de qualidade, logo baixa educação e, daí, baixa mobilidade social) já não parece nada claro que para aumentar a mobilidade social sejam precisas ainda mais medidas "igualitárias".
Ora o que não tem faltado a Portugal desde o 25 de Abril são precisamente políticas "igualitárias". E estas têm sido erradas e agravado o problema que supostamente visavam resolver. A medida mais grave tem sido óbvia e escandalosamente a deterioração da qualidade e exigência nas escolas públicas.
O que falta a Portugal não é mais intervenção do Estado: a despesa da administração pública em percentagem do PIB regista já em Portugal valores escandinavos. O problema é que esse grande peso do Estado não se consubstancia em educação, saúde, tribunais e serviços públicos de qualidade.
E é aqui que a ideologia e a política entram: a esquerda acredita que os problemas portugueses só podem ser resolvidos com ainda mais impostos, ainda mais despesa e ainda mais intervenção. A esquerda pretende que Portugal resolverá todos os seus problemas sociais se ultrapassar a escandinávia e Cuba em termos de peso e intervenção do Estado.
E ainda: muitos na esquerda falam como se Portugal tivesse uma despesa pública baixa, o que não é verdade, antes pelo contrário. E muitos na esquerda atacam a direita como se esta pretendesse uma baixa intervenção do Estado “só porque sim”. Se a qualidade e quantidade dos serviços públicos em Portugal fossem como na Suécia, acreditem que eu não exigiria menos Estado! Mas é preciso mudar alguma coisa quando o peso do Estado já está ao nível sueco enquanto que a qualidade do que esse Estado oferece está ao nível da Roménia.
A direita liberal, por sua vez, já não acredita que se possa aumentar a quantidade e qualidade dos bens e serviços públicos mantendo o nível das despesas: basta considerar a infindável guerra levada a cabo pelas federações de professores contra toda e qualquer medida que tente aumentar a qualidade e exigência nas escolas. É preciso dizer que os péssimos sistemas de educação e de saúde em Portugal, por exemplo, não são nada “liberais”, muito antes pelo contrário: o peso destas despesas sociais em percentagem do PIB ou o valor destas despesas per capita é bastante elevado no nosso país.
Aliás, para a direita liberal, no caso português, é a própria intervenção do Estado que é a fonte do problema: um dos melhores exemplos é, mais uma vez, o da educação. O Estado cobra uma tributação elevada às famílias que ficam sem margem de manobra para pagar educação privada (leia-se “de qualidade”) aos filhos, ao mesmo tempo que a educação oferecida pelo próprio Estado e paga por esses impostos é cada vez mais inferiorizante. E ao exemplo da educação segue-se o exemplo da saúde e tantos outros.
A mobilidade social pode certamente ser favorecida com a intervenção do Estado. Mas não basta que o Estado seja de grande dimensão: disso Portugal já dispõe. O que é verdadeiramente essencial é que a despesa pública seja de qualidade. E é aqui que a perspectiva ideológica é importante. Eu não repudio um Estado grande que forneça qualidade aos cidadãos. Mas se o Estado é gigantesco, só oferece mediocridade, asfixia os rendimentos das famílias e, em consequência, determina a imobilidade social e a persistência na pobreza, então, combater a dimensão do Estado torna-se necessário para garantir não só mais liberdade mas também mais progresso social.