24 JANEIRO 2012 - 10.44h
Categoria -
Política
O Presidente da República o Professor Doutor Aníbal António Cavaco Silva - em cujo quadrado no boletim de voto, nas últimas eleições, coloquei uma cruz para significar o meu desagrado com a sua pessoa -, decidiu, de livre vontade, informar a nação a que preside da insuficiência de fundos com que a sua família se digladia. Cavaco Silva demonstraria assim, segundo palavras de esclarecimento que produziu depois, que é mesmo o “Presidente de todos os portugueses”, e que com eles partilha as dificuldades de gerir o dia-a-dia com o dinheiro à tabela com as despesas. Proponho que a Assembleia da República, no intuito de fazer do Professor Doutor Anibal António Cavaco e Silva ainda mais o Presidente de todos os portugueses, lhe estabeleça um vencimento máximo correspondente ao ordenado mínimo menos IVA, e sem direito a carro ou motorista. Para chegar e sair do Palácio de Belém, sugiro a utilização da Carris, através dos autocarros 727, 728 e 729, ou o eléctrico 15; há também uma paragem da CP em Belém, mas fica a uns bons 15 minutos dos portões do Palácio, e inclui uma passagem aéria sobre a Linha de Cascais bastante perigosa para quem calça sapatos de sola. O nosso Professor Doutor à Presidência da República está, muito evidentemente, necessitado de uma massagem com óleos de realidade, para não dizer de um cheirinho de revolta popular. Em movimento inverso, uma das nossas doutoras à Assembleia da república – Ana Drago, uma mulher que desde os seus vinte anos entrou numa descontrolada espiral de ficar cada vez mais gira, ao ponto de hoje, com trintas e tantos, ser a mais gira deputada de que tenho memória – sacrificou-se ao ponto de penetrar no antro das mordomias com que os administradores das empresas públicas e do regime se lambem ao mesmo tempo que despedem trabalhadores e cortam serviços. Pelo que foi noticiado, a lindíssima doutora Ana Drago resolveu envolver-se com um carro e um motorista para ir a Guimarães em representação do seu Grupo Parlamentar. O argumento para esta cedência às benesses do grande capital terá sido o facto de não ter carro próprio ou sequer carta de condução, ou seja, uma limitação pessoal é justificação suficiente para que os valores que noutras alturas servem para condenar o despesismo burguês agora não se apliquem. Eu, por mim, já sei: quando for deputado e tiver que ir a Guimarães, em vez de fazer três horas em primeira classe de Alfa Pendular até Braga, e depois 20 minutos até Guimarães na Alta Qualidade da Rede Expressos, vou primeiro destirar a carta de condução e vender o automóvel de 1991, para que assim não seja condenável perante os sacrifícios do país andar de carro e motorista. Estes dois eventos não estão no mesmo plano, e confesso que até tenho vontade de pedir desculpa à deputada Ana Drago por colocar as suas acções em paralelo com as infames declarações do Presidente da República o Professor Doutor numa Universidade estrageira Anibal António Cavaco e Silva. O Presidente faltou ao respeito a uma nação que aceitou resignadamente e com dignidade empobrecer no pressusposto da necessidade do sacrifício, Ana Drago apenas se colocou a jeito de provar um pouco da demagogia com que o Bloco de Esquerda costuma servir os seus adversários políticos; no primeiro caso, a minha vontade é aderir à violência que os radicais de esquerda tanto gostam de estetizar no papel, no segundo trata-se de um divertimento que nos permite evidenciar o vazio e inutilidade de uma forma pensar.
Maradona