14 FEVEREIRO 2012 - 10.03h
Categoria -
Política
Introdução
Adjectivo-me de cidadão extremamente vivido, que acima de tudo se esforça por dizer sim à diversidade da experiência e para quem a informação e o conhecimento deveriam ser espécie de espaço Schengen levado ao extremo, pelo que a ninguém deve admirar que uma pessoa nestas meritórias condições, ao longo dos vastos e bastos anos que carrega de reflexão e amor às ciências e às artes, tenha sido númeras vezes confrontada com a existência de uma entidade autónoma como “curso de escrita criativa”; apesar dessa pontual mas ainda assim frequente exposição, vejo-me forçado a afirmar, a bem da verdade que deve nortear todo aquele que valoriza verdadeiramente a passagem por este mundo, que nunca me dei ao trabalho de tentar perceber as implicações da expressão “curso de escrita criativa”, ou sequer abrir o Google Chrome com o objectivo de contactar com o que outros, no pleno exercício da sua disponibilidade e liberdade de expressão, teriam a dizer sobre o mesmo; em consequência, neste preciso instante em que escrevo estas linhas com base nos ensinamentos prestados por um curso de escrita descritiva que frequentei com frequência de 100% no outro dia no Rogério Alves Institute for the Advancement of the Parlapier, eu não tenha a mais vaga das remotíssimas ideias do que seja ou do que consta um “curso de escrita criativa”.
Conclusão
De repente, ocorre-me dizer que uma coisa será a criatividade, outra a criatividade na escrita. A escrita (e o vocabulário) é um estreitíssimo conjunto de correspondências sonoras/gráficas através das quais tudo o que somos, e por consequência a nossa criatividade, tem que ser traduzida se queremos ter sexo com alguém. Assim, e por um lado, parece-me que ensinar métodos para se ser criativo cheira a receita adequada para limitar ainda mais o espectro de conexões que em dado momento achamos necessários a um determinado texto (e, com isso, as hipóteses de termos sexo); é certo que nem só de diversidade se compõe a criatividade na escrita, mas o problema mantém-se: mesmo que apenas se ensinem técnicas para formatar logicamente um texto com a imaginação que nos calhou em sorte, em algum ponto do processo o método e a técnica terão que nos informar. Mas o que mais me interroga é se um “curso de escrita criativa” tem, como imagino que tem, o propósito explicito e inverso a este: libertar-nos dos limites e esquemas mentais que a nossa prática diária pessoal nos foi enquistando. Mas como é que se tem a certeza que a criatividade não reside, também, na especificidade de um conjunto de escolhos, fronteiras, barreiras e imposições externas que sejam só nossos? Em que raio de livro vem escrito que libertar-nos do nosso quintal mental corresponde a um movimento criativo? Por outro (havia outro lado, não sei se estão recordados;), o Norman Mailer fartava-se de dizer que os cursos de escrita criativa foram um elemento essencial no seu desenvolvimento até um grande escritor. Ultrapassemos, sem nos deter, a questão de saber se um “grande escritor”, como ele foi, é sempre um tipo “muito criativo”; é por demais evidente que é sempre, e que é essencialmente isso que um grande escritor é. O que pretendo sinalizar neste ponto específico é que tudo o que aconteceu a um grande escritor pode ser considerado um elemento essencial para o que ele se tornou; mesmo que assumamos que o Norman Mailor é um tipo moderadamente inteligente, e que até beneficia de um ponto de vista vantajoso para afirmar o que é que foi ou não importante para se tornar num grande artista, a verdade é que o relevante nesta experiência do Norman Mailor não é que os cursos de escrita criativa o ajudaram a ser o que foi, mas porque é que o ajudaram a ele em concreto daquela maneira tão decisiva. Aí reside o mistério do qual gostava de me aproximar, pois até um badameco de merda como eu conseguirá ver a utilidade de um curso de escrita criativa depois de ter frequentado um.
Maradona