20 FEVEREIRO 2012 - 19.41h
Categoria -
Política
Brás Cubas – herói defunto de Machado de Assis - tinha encontrado uma lei sublime, após ter valsado uma noite com Virgília: a lei da equivalência das janelas. O modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência. Brás Cubas (ainda) amava Virgília, com quem tinha estado, em tempos, para casar. Mas não casou. Virgília casou com Lobo Neves. Lobo Neves venerava Virgília. Para ele, Virgília era a perfeição: amorável, austera, um modelo. Confessava-o, à boca cheia, a Brás Cubas.
Mas Brás Cubas cedo percebeu que Lobo Neves não era um homem feliz. E este acabou por lhe confessar o mal de que padecia: faltava-lhe a glória pública. Curiosa confissão esta, porque Brás Cubas tinha um tio, cónego de prebenda inteira, que lhe costumava dizer que o amor da glória era a perdição das almas. Um outro tio, oficial de infantaria, tinha opinião diversa: o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que havia no homem e, por conseguinte, a sua mais genuína vocação. Seja como for, Lobo Neves sofria, em silêncio, de tédios impossíveis, amarguras engolidas e raivas recalcadas.
Confessou, a Brás Cubas, que o mundo da política era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfídias, interesses e vaidades. Mas então porquê a política? Por equívoco: Lobo Neves vira o teatro pelo lado da plateia - um soberbo cenário, com vida, movimento e graça na representação – e tinha-se inscrito às cegas. Uma vez em palco, a graça deu lugar à ingratidão, o movimento revelou uma inconstância de sentimentos e a vida era tudo menos gloriosa. Lobo Neves vivia, por isso, uma existência infeliz. E Brás Cubas, supõe-se, soluçava com o divertimento.
A política é um assunto demasiado sério para ser entregue a amadores. E, acrescento eu, a senadores estacionados no burguês sofá do «estatuto». Entregue a amadores (ou, como diria o senhor bastonário dos advogados, a «betinhos») ou a eminências pardas, a política tende a resvalar para a «política baixa»: o terreno das escorregadelas para o enfático, dos inenarráveis autos narcísicos quase sempre hilariantes (“eu sou tão boa pessoa que me parece impossível ninguém o perceber”), do insulto gratuito e verboso e, claro está, da clássica liturgia da vitimização.
Como diria o outro, é preciso ter estofo. Ter estofo, em política, é conceder zero graus de latitude à postura tanto do desgraçadinho, como do vaidoso enfastiado (eternamente iluminado mas incompreendido). Para abraçar a causa pública é preciso ser-se suficientemente desassombrado para perceber que não há um inimigo a cada esquina ou em cada palavra escrita ou lançada ao vento. É ter o paciente poder de encaixe para lidar com a crítica mais austera, a farpa mais mordaz ou o reparo mais ou menos eloquente, por mais injustos, imprecisos ou errados que estes possam parecer. É perceber que «dizer mal» é, ainda e sempre, um dos vários exercícios que concorrem para o escrutínio público a que as figuras públicas estão sujeitas (com particular destaque para os políticos ou para quem exerce funções de poder). De «Lobos Neves» estamos todos mais ou menos fartos.
Carlos do Carmo Carapinha