A Palmira F Silva, mais conhecida por ser o agente catalizador que mais conversões ao criacionismo tem registado, terá ido à Almedina de Gaia discutir o estado do diálogo entre o criacionismo e o evolucionismo. Dá-nos conta do sucedido num texto fantasticamente intitulado "Sono da Razão: o lado negro das redes sociais", e nós, 19 cafés depois, conseguimos ler o seu curto texto e aqui nos apresentamos para o comentar, ainda que um pouco hipertensos.
A primeira dúvida que nos assalta o espírito devidamente racionalizado é tentar pensar o que é que vai na cabeça da professora doutora Palmira F Silva para estar tão especificamente preocupada com o "sono da razão" nas "redes sociais"; porque é que não está preocupada com o “sono da razão” nos cafés, nos transportes do públicos, nos programas da tarde da TVI, nos agregados familiares ou nos estádios de futebol; dá a entender que professora doutora pensa que a racionalidade é um exercicio que se dá menos bem em determinados locais, que existem terrenos que lhe são pouco favoráveis, uma opinião, diga-se, muito pouco abonatória para o exclusivo grupe de cidadãos e cidadãs que pretende fazer uso da razão no seu dia a dia.
Por outro lado, é para mim intrigante que a própria Palmira F Silva se pense tão especialmente imune ao "sono da razão", ao ponto de comentar o “sono” dos outros sem sequer se dar à modéstia (se não a esta, dever-se-ia dar pelo menos ao método) de comentar e explicar a sua própria luta para ser penetrada pela racionalidade, o que se constituiria como algo muito mais interessante de comunicar (digo eu, mas eu, para além dos desgraçados que são avaliados por ela, devo ser o seu único leitor). Assim, ao longo do texto que escreveu unicamente para mim a professora doutora Palmira F Silva coloca-se num pedestal que estou mais habituado a ver ocupado pelos homens de Fé quando oram em defesa dos seus sistemas, mas que, no meu entender, deveria ser deixado vago quando alguém se adianta para defender a razão, os métodos e herança da maneira de pensar científica.
Veja-se que a professora doutora chega ao extremo e trabalheira de esclarecer que Hitler afinal seria um criacionista convicto (parece que o interlocutor da Palmira F Silva disse que ele seria evolucionista), um momento em que a professora doutora racionalista dá sinais preocupantes de alinhar por aqueles que acreditam que a maldade humana se decide numa partida introspectiva entre a razão e a superstição, o exacto equivalente do fanatismo e xenofobia religiosas contra a qual ela pensa que está a lutar. Acreditaria a doutora Palmira que se o Hitler tivesse sido de facto Evolucionista a teoria sairia enfraquecida? Acredita a professora Palmira que lá pelo facto de o Hitler ser um Criacionista não se pode ser uma pessoa decente sendo-o? O que quer que tenha levado Hitler a ser o que foi, esteve sempre vastamente acompanhado, e, dado eu ser uma pessoa que gosta muito de ler, estou em condições de adiantar que no Nazismo há frutos de todas as árvores e arbustos. Adiante.
Mas o que mais me intriga neste texto da Palmira é a frase seguinte:
"Mas a resposta urge num mundo cada vez mais contaminado pelo adormecimento da razão crítica, numa sociedade cada vez mais anti-intelectual, cada vez mais, como o confirma o que se passa no nosso cantinho, «em que tudo o que se diga três vezes é verdade e não se olha para os factos»... "
Vamos tentar abstermo-nos de comentar as reticências finais. Como é que a Palmira F Silva sabe que o mundo está “cada vez mais” contaminado pelo adormecimento da razão crítica? Como é que sabe que estamos “cada vez” mais anti-intelectuais? Eu tenho a minha teoria, que é que a Palmira F Silva não gosta de ler, e que, portanto, assume como movimento aquilo que ela só agora descobriu que existia. Eu, que leio muito, palpita-me que estes “cada vez mais” da Professora Doutora não passam de impressões acríticas de quem meteu na cabeça que o estandarte do método científico é melhor defendido evangelizando, do que fazendo ciência decentemente ou explicando-a condignamente.