O Luís Rainha, que há bem pouco tempo achava que o M. de la Palisse era mesmo dado a tautologias, resolveu desta feita explicar-me que não percebe o que eu escrevo. Nada de novo, pensei eu. Não valia a pena ter-se incomodado.
Sucede que, para além disso, alude a "reminiscências febris e imaginações tardias" de que alegadamente padeço, o que me parece um nadinha mais grave. E me faz temer pela saúde do próprio.
Começa o Luís por negar que o 25 de Abril foi uma revolução abrangente, "abrangente qb para albergar até malta como o dilecto Amaro da Costa e, quem sabe, o Ribeiro e Castro". Passando por cima da vulgaridade da expressão, o Luís Rainha trai-se nesse segundo. É que, precisamente, a revolução não só abrangeu o CDS como fez dele um dos quatro partidos fundadores da democracia portuguesa. O Luís Rainha não deu por isso. Mas diz que estava lá.
O problema ou, melhor, um dos problemas, é que o Luís Rainha, apesar de aparentemente estar em todos os sítios certos às horas certas, denota alguma dificuldade em compreender o que lá se passou e, sobretudo, em destrinçar conceitos. O da diferença entre golpe de estado e revolução, por exemplo.
Se se desse a esse trabalho, saberia que as revoluções não se esgotam num dia e que, mesmo esse primeiro dia, o do golpe de estado, foi, de facto, abrangente.
Não para incluir Amaro da Costa ou Sá Carneiro ou Freitas do Amaral ou Álvaro Cunhal ou Mário Soares, que eram civis, mas para abranger - entre MFA e Junta de Salvação Nacional - Spínola, Sanches Osório, Garcia dos Santos, Galvão de Melo, Carlos Azeredo, Jaime Silvério Marques, Diogo Neto, Pinheiro de Azevedo, a que juntaria Francisco Sousa Tavares, para além daqueles que o Luís Rainha preferia que tivessem estado sozinhos no terreno. O LR não deu por estes estarem lá apesar de lá ter estado. Não me surpreende.
Numa coisa concordo com o Luís Rainha: «nostalgias de um país imaginado em rubro monocromatismo apenas ensaiado num período tão curto quanto trágico de delírio colectivo.» é demasiada poesia para uma coisa tão deprimente como o PREC. Mas faz-se o que se pode e eu reconheço humildemente que o realismo soviético não me atrai.
Diz o Luís Rainha, triunfante, como se estivesse a dar-me uma notícia de última hora, que alguns dos conteúdos mais ideológicos do programa do MFA foram expurgados por iniciativa de Spínola e que ainda assim estes continham retórica socializante. Confesso que empalideci com esta novidade alarmante que prova duas coisas: a preponderância de Spínola nos momentos fundadores - portanto também no do golpe de estado - da tal revolução que o Luís Rainha diz que só nasceu canhota e abrangente o suficiente para incluir nela apenas os seus amigalhaços e que esta não descurou a necessidade de uma nova política social.
Por muito que custe ao Luís Rainha, os militares que saíram à rua no dia 25 de Abril de 1974 não eram todos de esquerda e entre eles não havia uma visão unânime acerca do destino a dar ao país, como se viu depois. O Luís Rainha estava lá mas achou que sim, que eram mesmo todos de esquerda e só de esquerda e nada mais do que de esquerda. Nada de novo, mais uma vez.
A fechar, o LR explica-me que esteve mesmo lá e que, ao contrário do que eu afirmei, no dia 25 de Abril de 1974 apenas se deram cravos vermelhos em Lisboa. As minhas fontes dizem que não foi exactamente assim e que a florista que primeiro distribuiu os cravos os tinha de outras cores. Mas o LR só se recorda dos vermelhos.
Não me espanto com isso. Parece ser recorrente no Luís recordar-se dos vermelhos. Sejam cravos ou factos ou pessoas. Não sei se tal se deverá também a "reminiscências febris e imaginações tardias" de que me acusa ou apenas à natureza biliosa que já lhe conheço de outros carnavais.
João Vacas