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Ontem foi dia de S. João. No dia de S. João eu sou uma espécie de telemóvel que é posto a recarregar após a noite de S. João. Tudo acontece na minha vida de uma forma mais lenta, previsível, alheia a qualquer alteração vertiginosa do estado de alma. O dia é para se ir fazendo. Foi com este espírito que acordei, pouco passava do meio-dia. Afortunadamente estava a poucos metros da praia de maneira que, programei para as horas que se seguiam algo que envolvesse sol, uma bola e alguma areia pelo corpo. Para o culminar da tarde, nada melhor do que ver mais um jogo do europeu de futebol – é incrível e porventura absurdo o prazer que me dá ver um jogo na televisão ao fim de um serão vespertino de praia. No caso, um Inglaterra-Itália, seleções que como se sabe, têm de uma tradição enorme no desporto rei.Conhecendo as equipas sabia que, atendendo à fama dos dois coletivos e ao estado letárgico em que me encontrava, havia sérias possibilidades da minha concentração no desafio se perdesse algures pela força incomensurável da preguiça. Até porque já gostei mais quer de uma, quer de outra equipa. Na Inglaterra tenho saudades dos tempos do Chris Wadle, do John Barnes, Gary Lineker, ou do grande maluco Gazza – Paul Gascoine. Na Itália jogadores como Roberto Baggio, Roberto Donadoni, Gianluca Vialli ou Giuseppe Giannini encantavam-me muito mais do que os atuais. No entanto, tal não significava que, para quem gosta de futebol como eu, pudesse ignorar um jogo com a magnitude deste dos quartos-de-final do Campeonato da Europa. Além disso, tanto a Inglaterra como a Itália têm dois dos hinos que mais aprecio no panorama mundial. Também por isso iniciei-me a ver o jogo sem torcer por nenhuma das seleções em especial. Poucos minutos depois, esta minha imparcialidade começou desde logo a ser posta em causa. Motivo: Andrea Pirlo.Aos 33 anos e com uma vasta experiência ao nível de clubes e seleção Andrea Pirlo não é, obviamente, um nome novo para mim. Todavia, por variadíssimas razões, a maior das quais, porventura, o pouco interesse que o futebol italiano tem despertado nos últimos tempos aqui no burgo, Pirlo tem sido algo esquecido da minha parte. Aliás, quando ele saiu esta época do Milan, cheguei mesmo a imaginá-lo já gasto e sem mais nenhum motivo de interesse, para além de um passado rico em conquistas. Só voltei a ouvir falar de Pirlo bem no final desta época, após ter sido, segundo o que fui lendo, um dos obreiros da reconquista do título italiano da Juventus. Este título terá servido para Pirlo como uma lufada de ar fresco na sua relação de sempre, a relação com a bola. Após umas temporadas em que o romance parecia ter esfriado e sem sinais de voltar a ser o que já tinha sido, eis que, em pleno Campeonato Europeu de Seleções, Pirlo diz ao mundo que continua apaixonado pela bola e a bola por ele. Um amor que agora se sabe, é para a vida.Depois do jogo com a Espanha e Croácia em grande estilo, Andrea Pirlo deixou o perfume em casa com a Irlanda (usou somente um desodorizante, ainda que dos bons) e voltou a galantear-nos com a sua melhor fragância contra a Inglaterra. Ontem voltou a ser absolutamente delicioso ver o médio italiano dominar o meio-campo com uma leveza poética em plena comunhão com o esférico, centro de todo o jogo. Os jogadores ingleses perceberam com o passar dos minutos que importunar Pirlo seria estragar uma história de amor. Uma história que nenhum deles tinha o direito de se intrometer. Fosse Rooney, fosse Gerrard, fosse Ashley Young. Muito menos um qualquer Welbeck, um qualquer Milner ou um qualquer Parker…Pirlo, apesar do corpo franzino não disfarçou uma altivez de quem sabe que a bola o ama mais a ele do que à maioria. Então ele pegou na bola, acariciou-a, beijou-a e começou a dançar uma valsa que só a eles lhes pertence. O futebol voltou a ser aquela coisa iluminada que não tem altura, nem velocidade, nem músculo. O futebol voltou a ser pura arte renascentista. Um renascimento que só ao futebol diz respeito. Mesmo quando Pirlo errou um passe, deu a sensação que o erro nunca esteve nele nem na bola. O erro esteve na relva, no vento, na humidade, no colega que não correu o suficiente ou dominou mal o esférico, mas nunca em Andrea Pirlo. O médio italiano, feito senhor nobre não saltou para ganhar bolas de cabeça com Andy Carroll, não fez carrinhos, nem deu sprintes estonteantes atrás da bola, não se despenteou, nem sequer fez um grande remate à baliza mas foi claramente o melhor jogador da partida. Tudo porque, no futebol como na vida há um lado romântico, incrivelmente simples, que faz com que as pessoas sejam felizes sem que o seja evidente ou concretizável em números. A felicidade está lá no toque que é diferente de todos os outros toques. É este tipo de sentimento que dignifica o homem e o distancia dos restantes animais. No futebol, Pirlo transporta estas emoções para o campo. Faz-nos acreditar nas coisas belas e simples. Marca penalties à Panenka e por momentos achamos que aquele penalti nunca foi marcado daquela forma por mais ninguém.Foram estas as razões que fizeram com que a minha razão pendesse para o lado dos italianos e que, no final, ficasse feliz com o resultado do desempate nas grandes penalidades. Pena para os ingleses, eliminados pela sexta vez consecutiva de um grande torneio neste tipo de desempate.Caso para dizer, God save the football, God save Pirlo!