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Salazar

Ricardo Espírito Santo e o espião alemão

Por:Pedro Jorge Castro

22 ABRIL 2009

O banqueiro Ricardo Espírito Santo, avô do actual presidente do BES Ricardo Salgado, teve nos anos 40 várias intervenções no universo da espionagem, expressas nas cartas que escreveu a Salazar – as principais são divulgadas pela SÁBADO esta quinta-feira na edição impressa.
A 30 de Dezembro de 1944, já perto do fim da II Guerra Mundial, o banqueiro desejou feliz ano novo ao ditador com um pedido misterioso: “Cumprindo as ordens de Vossa Excelência, junto remeto uma nota com o nome da pessoa que está ausente na sua pátria e cujo regresso conviria impedir”. Um pequeno envelope à parte contém um cartão com o nome Nassenstein, escrito a azul, em maiúsculas e sublinhado.
Cecil Nassenstein era um agente alemão da Gestapo também conhecido por Adolf Nogenstein. Foi colocado em Lisboa em 1942 como diplomata, mas a sua missão era vigiar os espiões americanos e ingleses e decifrar os seus códigos. Sabia falar pelo menos dez línguas (inglês, alemão, francês, português, espanhol, russo, italiano, grego, latim e servo-croata), contou à SÁBADO a neta do espião - Stéphanie Nassenstein, 37 anos, é actualmente uma das responsáveis pelos programas do Forum Económico Mundial, que reúne todos os anos os líderes do Mundo em Davos.
Os relatórios dos serviços secretos britânicos divulgados pelos arquivos nacionais daquele país descrevem-no como um elemento-chave da Gestapo em Portugal. Pode ler uma síntese desses documentos clicando aqui
O pedido de Ricardo Espírito Santo não teve sucesso e o espião conseguiu reentrar em Portugal, onde viveu clandestinamente até 1947, quando foi capturado pela PIDE numa casa da António Augusto Aguiar, em Lisboa.
Estava armado, tal como o agente Herbert Wissmann, que se suicidou com cianeto antes de ser capturado. Nassenstein também tentou matar-se várias vezes, mas foi enviado para Inglaterra durante dois anos, e depois para um campo alemão.
Antes de morrer em 1981, dirigiu uma empresa de plásticos para enchidos e teve um último contacto com o universo da espionagem em 1972: a pedido do governo e com ajuda da Cruz Vermelha, organizou uma  troca de espiões em Berlim: devolveum um russo para receber um alemão, que era seu parente afastado e morreu pouco depois de atravessar a ponte.
 
O banqueiro era um agente alemão para o MI6
 Aquela carta de Ricardo Espírito Santo não foi um acaso. Em Abril de 1945, o banqueiro enviou a Salazar quatro relatórios secretos (dois em inglês e dois em francês) sobre “o problema alemão em Portugal após a guerra”, onde se desvenda a presença de 10 agentes da Gestapo no país, que poderiam liderar um movimento clandestino. Os documentos revelam também os planos alemães para organizar a resistência após a derrota na II Guerra.
No livro “Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial”, Irene Pimentel escreve que o banqueiro era um germanófilo: “O MI6 considerava ‘holy ghost’ (espírito santo, em inglês), um agente alemão”. E há registo de um telegrama do embaixador alemão em Madrid enviado ao ministro dos Estrangeiros, que refere o banqueiro português como confidente dos alemães.
Ricardo Espírito Santo já tinha tido um papel importante em 1940 ao acolher os duques de Windsor a pedido do governo português, numa altura em que os alemães chegaram a preparar uma operação para os raptar da casa do banqueiro no Estoril. O plano não se concretizou e os duques embarcaram para as Bahamas, tal como desejava o líder britânico Winston Churchill.
 
Banco Espírito Santo na lista negra
Durante a II Guerra o Banco Espírito Santo foi  posto na lista negra dos aliados por negociar com os alemães. Já depois do conflito, Ricardo Espírito Santo mandou a Salazar um relatório sobre a importância da radiodifusão na II guerra mundial assinado por Humberto Breisky, um nome muito parecido com o de Hubert Von Breisky, encarregado de negócios da Embaixada da Alemanha em Lisboa. (Hubert Von Breisky era o pai do barão Stephan Von Breisky, que ficou conhecido por aparecer nas revistas sociais ao lado de Elsa Raposo). Seguiram-se vários relatórios, não assinados, sobre o que diziam as várias emissoras internacionais sobre Portugal.
Para ajudar a explicar a quantidade de informações confidenciais a que tinha acesso, fonte próxima da família recorda que Ricardo Espírito Santo era um frequentador assíduo das várias embaixadas e cultivava relações de proximidade com diplomatas de vários países, do lado alemão e do lado dos aliados. Segundo o livro “O banco espírito santo, uma dinastia financeira portuguesa”, de Carlos Alberto Damas e Augusto Ataíde, o banqueiro falava sete línguas e foi até convidado em 1950 para ser embaixador de Portugal no Vaticano, mas recusou.
Na edição impressa desta semana, a SÁBADO desvenda como as famílias mais ricas (Espírito Santo, Mello e Champalimaud) se relacionavam com Salazar e revela várias cartas surpreendentes enviadas ao ditador – que nasceu vai fazer 120 anos na próxima terça-feira, 28 de Abril.


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