Pré-publicação: "Voo Final"
Por:Sofia da Palma Rodrigues
3 ABRIL 2009
Leia em exclusivo na SÁBADO ONLINE o primeiro capítulo do mais recente livro de Ken Follett, Voo Final, que só será lançado na próxima terça-feira, dia 7. O escritor britânico de thillers e romances históricos já vendeu mais de 100 milhões de exemplares. É um dos escritores mais lidos em todo o mundo.
No último dia de Maio de 1941, aparecera um estranho veículo nas ruas de Morlunde, uma cidade na costa ocidental da Dinamarca.
Era uma motorizada Nimbus de fabrico dinamarquês com um carro lateral. Em si mesma, constituía uma visão invulgar, em virtude de não haver combustível excepto para os médicos e a polícia e, claro, as tropas alemãs que ocupavam o país. Mas esta Nimbus sofrera adaptações. O motor de quatro cilindros a gasolina fora substituído por um motor a vapor retirado de uma lancha fluvial na sucata. O banco do carro lateral havia sido removido para caberem uma caldeira, uma câmara de combustão e uma chaminé. O novo motor era de baixa potência, e a mota atingia uma velocidade máxima de cerca de trinta e cinco quilómetros por hora. Em vez do habitual ruído do escape de uma motorizada, ouvia-se tão-somente o silvo delicado do vapor. O misterioso silêncio e o ritmo lento conferiam ao veículo um ar imponente.
No assento vinha Harald Olufsen, um jovem alto de dezoito anos, com tez clara e cabelo louro penteado para trás numa testa alta. Parecia um viquingue com um casaco de uniforme de colégio. Economizara durante um ano para comprar a Nimbus, que lhe custara seiscentas coroas - depois, no dia seguinte a tê-la comprado, os alemães haviam imposto as restrições aos combustíveis.
Harald ficara furioso. Como se atreviam? Mas fora educado para agir em vez de se lamentar.
Levara outro ano a modificar a mota, trabalhando durante as férias escolares, intercalando-o com as revisões para os exames de acesso à universidade. Naquele dia, tendo regressado a casa do colégio interno para o feriado do Pentecostes, dedicara a manhã à memorização das equações de física e a tarde à colocação na roda traseira de uma roda dentada de uma máquina de cortar relva enferrujada. Naquele momento, com a motorizada a trabalhar na perfeição, dirigia-se a um bar, onde esperava ouvir um pouco de jazz e talvez mesmo conhecer algumas raparigas.
Adorava jazz. Depois da física, era a coisa mais interessante que jamais lhe acontecera. Os músicos americanos eram os melhores, claro, e até os seus imitadores dinamarqueses eram dignos de ser ouvidos. Por vezes, era possível ouvir bom jazz em Morlunde, talvez por ser um porto internacional, visitado por marinheiros de todo o mundo.
Mas quando Harald chegara ao exterior do Club Hot, no coração do bairro portuário, encontrara o estabelecimento encerrado e as janelas com as portadas fechadas.
Ficou intrigado. Eram oito horas de um sábado à noite, e tratava-se do local mais popular na cidade. Deveria fervilhar de animação.
Enquanto olhava para o edifício silencioso, um transeunte parou e olhou para o seu veículo. - Que engenhoca é essa?
- Uma Nimbus com motor a vapor. Sabe o que se passa com este clube?
- Sou o dono. Que combustível usa a mota?
- Tudo o que dê para queimar. Eu uso turfa. — Apontou para o monte no fundo do carro lateral.
- Turfa? - O homem soltou uma gargalhada.
- Por que estão as portas fechadas?
- Os nazis obrigaram-me a encerrar o estabelecimento.
Harald ficou descoroçoado. - Porquê?
- Por contratar músicos negros.
Harald nunca vira um músico negro em carne e osso, mas sabia pelos discos que eles eram os melhores. - Os nazis são uns porcos ignorantes - respondeu, cheio de fúria. Ficara com a noite estragada.
O dono do clube olhou para um lado e o outro da rua para se certificar de que ninguém ouvira. A potência ocupante dominava a Dinamarca com mão leve mas, mesmo assim, poucas pessoas insultavam abertamente os nazis. No entanto, não se via mais ninguém. Volveu o olhar para a motorizada. - Funciona?
- Claro que sim.
- Quem fez a adaptação?
- Fui eu mesmo.
O divertimento do homem estava a transformar-se em admiração. - Foi muito inteligente.
- Obrigado. - Harald abriu a válvula de admissão de vapor para o motor. - Lamento pelo seu clube.
- Espero que mo deixem reabrir dentro de semanas. Mas terei de prometer só contratar músicos brancos.
- Jazz sem negros? - Harald abanou a cabeça, indignado. - É o mesmo que expulsar os cozinheiros franceses dos restaurantes. - Tirou o pé do travão e a mota afastou-se lentamente. Pensou dirigir-se ao centro da cidade, para ver se encontrava algum conhecido nos cafés e bares à volta da praça, mas ficara tão desapontado com o clube de jazz que decidiu que seria deprimente deter-se por ali. Harald virou para o porto.
O pai era pastor da igreja de Sande, uma pequena ilha a pouco mais de duas milhas da costa. O pequeno ferry que fazia a ligação de e para a ilha encontrava-se acostado, e entrou directamente. Havia um animado grupo de pescadores que tinha ido assistir a um desafio de futebol e bebera uns copos depois; duas mulheres abastadas de chapéus e luvas com um pónei e um carro de duas rodas e um monte de compras; e uma família que viera visitar parentes à cidade. Um casal bem vestido que não reconheceu iria provavelmente jantar ao hotel da ilha, que tinha um restaurante de luxo. A sua motorizada despertou o interesse de todos e teve de explicar novamente o motor a vapor.
Mesmo em cima da hora, entrou um Ford de quatro lugares de fabrico alemão. Harald conhecia o carro: pertencia a Axel Flemming, proprietário do hotel da ilha. Os Flemming eram inimigos da família de Harald. Axel Flemming achava-se o líder natural da comunidade insular, funções que o pastor Olufsen acreditava pertencerem-lhe, e o atrito entre os patriarcas rivais afectava todos os outros membros da família. Harald perguntou a si mesmo como conseguia Flemming arranjar combustível para o seu carro. Calculou que para os ricos tudo fosse possível.
O mar estava agitado e havia nuvens escuras no céu a oeste. Vinha lá uma tempestade, mas os pescadores diziam que teriam tempo de chegar a casa antes mesmo que ela se abatesse. Harald pegou num jornal que recolhera na cidade. Intitulado Realidade, era uma publicação ilegal, impressa para desafiar a potência ocupante e distribuída gratuitamente. A polícia dinamarquesa não tentara reprimi-lo e os alemães pareciam considerá-lo indigno de atenção. Em Copenhaga, as pessoas liam-no abertamente nos comboios e eléctricos. Aqui, eram mais discretas, e Harald dobrou-o para esconder o cabeçalho enquanto lia uma notícia sobre a escassez de manteiga. A Dinamarca produzia anualmente milhões de quilos de manteiga, mas esta era agora enviada na quase totalidade para a Alemanha, e os dinamarqueses tinham dificuldade em arranjá-la. Era o tipo de história que nunca aparecia na imprensa oficial censurada.
A forma plana e familiar da ilha ficou mais próxima. Tinha dezanove quilómetros de comprimento e um quilómetro e meio de largura, com uma aldeia em cada extremo. As cabanas dos pescadores, e a igreja com o seu presbitério, constituíam a aldeia mais antiga na ponta sul. Também aqui, uma escola de navegação, há muito abandonada, fora ocupada pelos alemães e transformada numa base militar. O hotel e as casas maiores ficavam na ponta norte. No meio, a ilha era constituída principalmente por dunas de areia e vegetação rasteira com algumas árvores e nenhumas colinas, mas ao longo do lado virado para o mar havia uma magnífica praia com dezasseis quilómetros de extensão.
Harald sentiu algumas gotas de chuva quando o ferry se aproximou do cais no extremo norte da ilha. O táxi do hotel, puxado por cavalos, aguardava o casal bem vestido. Os pescadores foram recebidos pela mulher de um deles que conduzia uma carroça e um cavalo. Harald decidiu atravessar a ilha e seguir para casa pela praia, que era de areia compacta — na verdade, fora usada para testes de velocidade de carros de corrida.
Ia a meio do cais antes do hotel quando se lhe acabou o vapor.
Estava a usar o depósito de combustível da mota como reserva de água e apercebia-se naquele momento de que não era suficientemente grande. Teria de arranjar um bidão de vinte e dois litros e meio e colocá-lo no carro lateral. Entretanto, precisava de água para conseguir chegar a casa.
Só se avistava uma casa e, infelizmente, era a de Axel Flemming. Não obstante a sua rivalidade, os Olufsen e os Flemming não estavam de relações cortadas: todos os membros da família Flemming iam à igreja aos domingos e sentavam-se na frente. Axel era até diácono. Mesmo assim, não agradava a Harald a ideia de pedir ajuda aos antagónicos Flemming. Ainda ponderou percorrer a pé os quatrocentos metros até à casa mais próxima, depois achou que seria absurdo. Suspirando, começou a subir o longo acesso.
Em vez de bater à porta da frente, contornou a lateral da casa até aos estábulos. Ficou satisfeito ao ver um criado guardar o Ford na garagem. - Olá, Gunnar - saudou Harald. - Posso tirar um pouco de água?
O homem foi simpático. - Sirva-se - disse. - Há uma torneira no pátio.
Harald encontrou um balde ao lado da torneira e encheu-o. Voltou à estrada e despejou a água no depósito. Talvez conseguisse evitar um encontro com alguém da família. Mas quando regressou ao pátio para devolver o balde, Peter Flemming estava lá.
Alto e arrogante, de trinta anos, com um fato de bom corte em tweed cor de aveia, Peter era filho de Axel. Antes da discussão entre as famílias, fora o melhor amigo do irmão de Harald, Arne, e na adolescência eram uns autênticos arrasa-corações, Arne seduzindo as raparigas com o seu encanto malandro e Peter com a sua tranquila sofisticação. Peter vivia agora em Copenhaga mas viera passar o fim-de-semana prolongado a casa, calculou Harald.
Peter estava a ler o Realidade. Levantou a cabeça do jornal ao ver Harald. - O que fazes aqui? - indagou.
- Olá, Peter, vim buscar um pouco de água.
- Presumo que esta porcaria seja tua?
Harald levou a mão ao bolso e apercebeu-se com consternação de que o jornal devia ter caído quando se baixara para pegar no balde.
Peter reparou no gesto e compreendeu o seu significado. - Obviamente que é - comentou. - E tens consciência de que podias ir para a prisão só por o teres na tua posse?
A menção à prisão não era uma ameaça vã: Peter era detective da polícia. Harald retorquiu: - Toda a gente na cidade o lê. - Procurou falar em tom de desafio, mas na verdade estava ligeiramente assustado: Peter era suficientemente mesquinho para o deter.
- Não estamos em Copenhaga - advertiu Peter em tom solene.
Harald sabia que Peter adoraria a oportunidade de desgraçar um Olufsen. Todavia, hesitava. Harald julgou saber por que razão. - Ficará mal visto se prender um estudante de Sande por algo que metade da população faz abertamente. Em especial sabendo toda a gente que guarda ressentimento contra o meu pai.
Peter estava visivelmente dividido entre o desejo de humilhar Harald e o receio de ser alvo de chacota. - Ninguém tem o direito de infringir a lei - afirmou.
- A lei de quem? A nossa ou a dos Alemães?
- A lei é a lei.
Harald sentiu-se mais confiante. Peter não estaria a argumentar de uma forma tão defensiva se tencionasse efectuar uma detenção. - Só o diz porque o seu pai ganha imenso dinheiro a proporcionar bons momentos de diversão aos nazis no hotel dele.
O hotel era popular entre os oficiais alemães, que tinham mais dinheiro para gastar do que os dinamarqueses. Acusando o toque, Peter corou de raiva. - Enquanto o teu pai faz sermões inflamados - retorquiu. Era verdade: o pastor pregara contra os nazis, sendo o seu tema «Jesus era judeu». Peter prosseguiu: - Será que ele não se apercebe dos sarilhos que pode causar se agitar as pessoas?
- Estou certo que sim. O fundador da religião cristã também tinha o seu quê de agitador.
- Não me fales de religião. Tenho de manter a ordem aqui na terra.
- A ordem que vá para o inferno, fomos invadidos! - A frustração de Harald pela noite estragada veio à tona. - Que direito têm os nazis de nos dizer o que fazer? Deveríamos expulsar toda aquela súcia a pontapé do nosso país!
- Não devias odiar os alemães. São nossos amigos - disse Peter com um ar de hipocrisia devota que enfureceu Harald.
- Eu não odeio os alemães, seu tolo. Tenho primos alemães. - A irmã do pastor casara-se com um jovem dentista bem-sucedido de Hamburgo que viera passar férias a Sande nos anos 20. A filha deles, Monika, fora a primeira rapariga que Harald beijara. - Eles sofreram mais do que nós às mãos dos nazis - acrescentou Harald. O tio Joachim era judeu e, apesar de ser um cristão baptizado e presbítero da sua igreja, os nazis haviam decretado que só poderia tratar judeus, afectando assim a sua clínica. Havia cerca de um ano, fora detido por suspeita de açambarcar ouro e enviado para um tipo de prisão especial, chamado Konzentrazionslager na pequena cidade bávara de Dachau.
- As pessoas é que procuram os problemas - respondeu Peter com um ar de experiência do mundo. - O teu pai não devia ter permitido que a irmã se casasse com um judeu. - Atirou o jornal para o chão e afastou-se.
A princípio, Harald ficou demasiado abalado para replicar. Curvou-se e apanhou o jornal. Depois disse nas costas de Peter, que se afastava: - Começa a parecer-se com um nazi.
Ignorando-o, Peter enfiou-se por uma entrada da cozinha e bateu com a porta.
Harald sentiu que perdera a razão, o que o enfureceu, pois sabia que o que Peter acabara de dizer era ultrajante.
Começara a chover com intensidade quando regressou à estrada. Ao chegar perto da mota, apercebeu-se de que o fogo por debaixo da caldeira se apagara.
Tentou reacendê-lo. Amachucou o seu exemplar do Realidade para fazer de lenha, e tinha no bolso uma caixa com fósforos de madeira de boa qualidade, mas não trouxera consigo o fole com que espevitava o fogo. Após vinte frustrantes minutos à chuva debruçado sobre a câmara de combustão, desistiu. Iria a pé para casa.
Levantou a gola do casaco.
Empurrou a mota pelos oitocentos metros até ao hotel e deixou-a no pequeno parque de estacionamento, seguindo depois ao longo da praia. Naquela altura do ano, a três semanas do solstício de Verão, o entardecer escandinavo durava até às onze horas; mas naquela noite as nuvens escureciam o céu e a chuva que caía limitava ainda mais a visibilidade. Harald seguiu pela orla das dunas, orientando-se pelo tactear do solo sob os pés e o som do mar no ouvido direito. Não tardou a ficar com as roupas tão encharcadas que, se tivesse vindo a nado, não estaria mais molhado.
Era um homem jovem e forte, e são como um pêro, mas duas horas depois sentiu-se cansado, gelado e infeliz quando se lhe deparou a vedação à volta da nova base alemã e se apercebeu de que teria de percorrer mais de três quilómetros contornando-a para chegar à sua casa, que ficava a algumas centenas de metros.
Se a maré estivesse vazia, teria podido continuar pela praia pois, apesar de a extensão de areia ficar oficialmente dentro da área interdita, os guardas não teriam conseguido vê-lo com aquele tempo. No entanto, a maré estava cheia e a vedação chegava à água. Ainda pensou atravessar a nado a última porção, mas desistiu imediatamente da ideia. À semelhança das outras pessoas daquela comunidade piscatória, Harald tinha um enorme respeito pelo mar, e seria perigoso nadar à noite com aquele tempo quando já se sentia exausto.
Mas podia escalar a vedação.
A chuva abrandara, e aparecia irregularmente um quarto de lua por entre as nuvens que passavam a correr, lançando intermitentemente uma luz incerta sobre a paisagem molhada. Harald conseguia ver a vedação de rede de galinheiro com um metro e oitenta de altura e dois fios de arame farpado no cimo, bastante difícil mas não um obstáculo de maior para uma pessoa determinada e em boa forma física. Cinquenta metros para o interior, ela atravessava uma mata de árvores e arbustos enfezados que a escondiam da vista. Seria o local ideal para passar.
Sabia o que ficava do outro lado da vedação. No Verão anterior, trabalhara como operário na construção. Na altura não sabia que aquilo se destinava a uma base militar. Os construtores, uma empresa de Copenhaga, haviam dito a toda a gente que era um novo posto da guarda costeira. Teriam tido dificuldade em recrutar pessoal se revelassem a verdade - para começar, Harald não teria trabalhado para os nazis com conhecimento de causa. Depois, quando os edifícios ficaram de pé e a vedação foi concluída, todos os Dinamarqueses foram dispensados, e chegaram os alemães para instalar o equipamento. Mas Harald conhecia o traçado. A escola de navegação abandonada fora remodelada e erguidas duas novas construções de cada lado. Todos os edifícios ficavam afastados da praia, pelo que poderia atravessar a base sem ter de se aproximar deles. Para além disso, grande parte do solo naquele ponto do local estava coberto de arbustos baixos que o poderiam ocultar. Só teria de ficar atento à patrulha de guardas.
Encontrou o caminho para a mata, trepou a vedação, passou com cuidado sobre o arame farpado no cimo e saltou para o outro lado, aterrando suavemente nas dunas molhadas. Olhou à sua volta, espreitando no escuro, vendo apenas as formas vagas das árvores. Os edifícios ficavam escondidos, mas conseguia ouvir música ao longe e uma ou outra gargalhada. Era sábado à noite: talvez os soldados estivessem a beber cervejas enquanto os oficiais jantavam no hotel de Axel Flemming.
Atravessou a base, movendo-se o mais rapidamente que podia ao luar incerto, mantendo-se próximo dos arbustos sempre que possível, orientando-se pelas ondas do lado direito e pela música em surdina do lado esquerdo. Passou por uma estrutura alta e reconheceu-a, no escuro, como uma torre de vigia. Toda a área se iluminaria numa emergência, mas de outro modo a base estava às escuras.
Sobressaltou-se com um som súbito à sua esquerda e acocorou-se, com o coração batendo mais célere. Olhou na direcção dos edifícios. Abriu-se uma porta, saindo um jorro de luz. Enquanto observava, saiu um soldado e correu pelo complexo; a seguir abriu-se outra porta num edifício diferente, e o soldado entrou rapidamente.
Os batimentos cardíacos de Harald abrandaram.
Atravessou um pequeno aglomerado de coníferas e desceu uma depressão. Quando chegou ao fundo do declive, viu uma estrutura que se erguia no escuro. Não conseguia distinguir bem, mas não se recordava de ter sido construída alguma coisa naquele local. Aproximando-se mais, viu um muro circular de betão mais ou menos à altura da sua cabeça. Por cima do muro algo se movia, e ouviu um zumbido baixo, como que de um motor eléctrico.
Devia ter sido construído pelos alemães depois de dispensados os operários locais. Estranhou nunca ter visto a estrutura do lado de fora da vedação, mas depois apercebeu-se de que as árvores e a depressão no terreno a ocultariam da maior parte das perspectivas, a não ser talvez da praia — que ficava fora dos limites da base.
Quando olhou para cima e tentou distinguir os pormenores, a chuva caiu-lhe no rosto, fazendo-lhe arder os olhos. Mas estava demasiado curioso para seguir caminho. A lua brilhou por um momento. Semicerrando os olhos, voltou a tentar enxergar algum coisa. Por cima do muro circular, distinguiu uma grelha de metal ou arame como um colchão gigante, talvez com dois metros e quarenta de lado. A engenhoca rodava como um carrossel, completando uma volta de tantos em tantos segundos.
Harald ficou fascinado. Era uma máquina de um tipo nunca antes visto, e o engenheiro que havia nele ficou encantado. Qual a sua função? Por que rodava? O som pouco ou nada lhe disse — era apenas um motor a fazer girar aquilo. Teve a certeza de que não era uma metralhadora, pelo menos não do tipo convencional, pois não tinha cano. O seu palpite ia mais para algo relacionado com um rádio.
Ali perto, alguém tossiu.
Harald reagiu instintivamente. Deu um salto, passou os braços pela beira do muro e içou-se. Ficou por um segundo no cimo estreito, sentindo que dava perigosamente nas vistas, depois desceu para o lado de dentro. Receou que os seus pés pudessem encontrar maquinaria em movimento, mas teve quase a certeza de que haveria um caminho em torno do mecanismo destinado à intervenção dos técnicos; e, após um momento tenso, tocou no chão de betão. O zumbido era mais forte e sentiu o cheiro a óleo de motor. Notou na língua o travo peculiar da electricidade estática.
Quem tossira? Presumiu que uma sentinela de passagem. Os passos do homem deviam ter-se perdido no vento e na chuva. Felizmente, os mesmos ruídos tinham abafado o som de Harald a trepar o muro. Mas poderia a sentinela tê-lo visto?
Coseu-se com o interior curvo do muro, respirando ofegantemente, à espera de que o feixe luminoso de um holofote potente o denunciasse. Perguntou-se o que sucederia se fosse apanhado. Os alemães eram amistosos ali no campo: a maior parte deles não se pavoneava com ar de conquistadores, parecendo quase embaraçados por estarem em posição de superioridade. Provavelmente entregá-lo-iam à polícia dinamarquesa. Não sabia muito bem qual a linha seguida pelos polícias. Se Peter Flemming fizesse parte da força local, certificar-se-ia de que Harald sofresse o máximo possível; mas, felizmente, estava destacado em Copenhaga. O que Harald temia, mais do que qualquer castigo oficial, era a ira do pai. Parecia até ouvir já o interrogatório sarcástico do pastor: «Trepaste a vedação? E entraste no complexo militar secreto? De noite? E usaste-o como atalho para vires para casa? Só porque estava a chover?»
Mas não incidiu nenhuma luz sobre Harald. Aguardou e olhou para o volume escuro do aparelho à sua frente. Julgou conseguir distinguir pesados cabos que vinham da extremidade inferior da grelha e desapareciam no escuro do outro lado do poço. Tinha de constituir um meio de enviar sinais de rádio, ou de os receber, pensou.
Decorridos alguns minutos lentos, teve a certeza de que o guarda seguira caminho. Escalou até ao cimo do muro e tentou ver através da chuva. Distinguiu duas formas escuras mais pequenas de cada lado da estrutura, mas não se moviam, e decidiu que deviam fazer parte da maquinaria. Não se via nenhuma sentinela. Deslizou para o lado de fora do muro e voltou a atravessar as dunas.
Num momento de escuridão, quando a Lua se encontrava por detrás de uma nuvem espessa, foi de encontro a uma parede de madeira. Em choque e momentaneamente assustado, soltou uma imprecação abafada. Um segundo depois apercebeu-se de que chocara com um velho alpendre de barcos usado pela escola de navegação. Estava abandonado, e os alemães não o tinham reparado, não vendo aparentemente qualquer uso para ele. Permaneceu imóvel por um momento, mas só ouvia o bater do seu coração. Prosseguiu a marcha.
Chegou ao outro lado da vedação sem mais percalços. Trepou-a e dirigiu-se para casa.
Chegou primeiro à igreja. Viu luz através da longa fila de janelas baixas quadradas na parede virada para o mar. Surpreendido por ainda se encontrar alguém no edifício àquela hora num sábado à noite, resolveu ir espreitar.
A igreja era comprida e de tecto baixo. Em ocasiões especiais, tinha capacidade para a população residente da ilha, em número de quatrocentas almas, mas mesmo à justa. Viam-se filas de bancos virados para uma estante de leitura em madeira. Não havia altar. Nas paredes não havia nada além de alguns textos emoldurados.
Os dinamarqueses não eram nada dogmáticos no tocante à religião, e a maior parte da nação aderira ao luteranismo evangélico. No entanto, a população de pescadores de Sande convertera-se, havia uma centena de anos, a um credo mais austero. Durante os últimos trinta anos, o pai de Harald mantivera viva a fé deles, dando um exemplo de puritanismo inflexível mediante a sua própria vida, fortalecendo a determinação da sua congregação em cáusticos sermões semanais e confrontando pessoalmente os apóstatas com a irresistível santidade dos seus olhos azuis. Apesar do exemplo da sua ardente convicção, o filho não era crente. Harald ia aos serviços sempre que estava em casa, para não ferir os sentimentos do pai, mas no seu íntimo divergia dele. Ainda não se decidira sobre a religião em geral, mas sabia que não acreditava num deus de regras mesquinhas e castigos vingativos.
Quando espreitou pela janela, ouviu música. O seu irmão, Arne, estava ao piano, a tocar uma melodia de jazz com um toque delicado. Harald sorriu de prazer. Arne viera passar o feriado a casa. Era divertido e sofisticado, e animaria o fim-de-semana prolongado no presbitério.
Encaminhou-se para a porta e entrou. Sem se virar, Arne mudou sem interrupções para a melodia de um hino. Harald sorriu. Arne ouvira a porta abrir-se e julgara que pudesse ser o pai a entrar. O pastor reprovava o jazz e certamente não permitiria que fosse tocado na sua igreja. - Sou apenas eu - anunciou Harald.
Arne virou-se. Tinha vestido um uniforme castanho. Dez anos mais velho do que Harald, era instrutor de voo nas Tropas da Aviação Militar sediadas na escola de voo próximo de Copenhaga. Os alemães haviam suspendido toda a actividade militar dinamarquesa, e os aviões ficavam em terra a maior parte do tempo, mas os instrutores podiam dar lições em planadores.
- Quando olhei para ti pelo canto do olho, julguei que eras o velho. - Arne mirou Harald de alto a baixo com carinho. - Estás cada vez mais parecido com ele.
- Isso significa que vou ficar calvo?
- Provavelmente.
- E tu?
- Não me parece. Saio à mãe.
Era verdade. Arne tinha o cabelo espesso e escuro e os olhos cor de avelã da mãe. Harald era louro, tal como o pai de ambos, e herdara também os olhos azuis penetrantes com que o pastor intimidava o seu rebanho. Tanto Harald como o pai eram extremamente altos, fazendo Arne parecer pequeno com o seu metro e setenta e sete e meio.
- Tenho uma coisa para te tocar - disse Harald. Arne levantou-se do banco e Harald sentou-se ao piano. -Tirei isto de um disco que levaram para o colégio. Conheces o Mads Kirke?
- O primo do meu colega Poul.
- Isso mesmo. Ele descobriu este pianista americano chamado Clarence Pine Top Smith. — Harald hesitou. - O que está o velho a fazer neste momento?
- A escrever o sermão de amanhã.
- Óptimo. - Do presbitério, a cinquenta metros de distância, não se conseguia ouvir o piano e era improvável que o pastor fosse interromper os preparativos para ir dar um passeio até à igreja, especialmente com aquele tempo. Harald começou a tocar «Pine Top Boogie-Woogie» e a sala encheu-se das harmonias sensuais sulistas americanas. Era um pianista entusiástico, conquanto a mãe dissesse que tinha a mão pesada. Não conseguia sentar-se quieto quando tocava, de modo que se levantou, deu um pontapé no banco, derrubando-o, e tocou de pé, curvando a sua estatura alta sobre o teclado. Assim cometia mais erros, mas não pareciam importar desde que mantivesse o ritmo compulsivo. Fez soar ruidosamente o último acorde e disse em inglês: «É disto que estou a falar!», tal como fazia Pine Top no disco.
Arne soltou uma gargalhada. - Nada mal!
- Devias ouvir o original.
- Vem sentar-te no alpendre. Quero fumar.
Harald endireitou-se. - O velho não vai gostar disso.
----------- Tenho vinte e oito anos - respondeu Arne. - Já sou velho de mais para receber ordens do pai.
- Concordo. Mas será que ele é da mesma opinião?
- Tens medo dele?
- Claro. E a mãe também, e praticamente toda a gente nesta ilha, até tu.
Arne fez um esgar. - Está bem, talvez só um bocadinho.
Estavam à porta da igreja, do lado de fora, abrigados da chuva por um pequeno pórtico. No outro extremo de uma extensão de solo arenoso viam a forma escura do presbitério. A luz saía pela janela em forma de losango na porta da cozinha. Arne tirou os cigarros.
- Tiveste notícias da Hermia? - perguntou-lhe Harald. Arne estava noivo de uma rapariga inglesa que não via há mais de um ano, desde que os alemães haviam ocupado a Dinamarca.
Arne abanou a cabeça. - Tentei escrever-lhe. Descobri a morada do Consulado Britânico em Gotemburgo. - Os dinamarqueses podiam enviar cartas para a Suécia, que era neutra. - Enderecei-lha para aquela morada, sem mencionar o consulado no envelope. Julguei que tivesse sido esperto o suficiente, mas os censores não se deixam enganar tão facilmente. O meu oficial de comando trouxe-me a carta e disse que, se eu voltasse a fazer algo semelhante, seria julgado num tribunal de guerra.
Harald gostava de Hermia. Algumas das namoradas de Arne tinham sido, enfim, louras estúpidas, mas Hermia era inteligente e corajosa. Metera-lhe um certo medo quando a conhecera, com o seu ar dramático e sombrio e o seu modo directo de falar; mas cativara Harald tratando-o como um homem, não apenas como o irmão mais novo de alguém. E ficava sensacionalmente voluptuosa em fato de banho. - Ainda queres casar com ela?
- Por Deus, sim. Se ela estiver viva. Pode ter sido morta por uma bomba em Londres.
- Deve ser difícil para ti não o saberes.
Arne anuiu, depois perguntou: - E tu? Alguma acção?
Harald encolheu os ombros. - As raparigas da minha idade não estão interessadas em alunos. - Falou em tom ligeiro, mas escondia um ressentimento genuíno. Sofrera algumas rejeições que o tinham magoado.
- Acho que preferem sair com um tipo que possa gastar algum dinheiro com elas.
- Precisamente. E raparigas mais novas... conheci uma na Páscoa, Birgit Claussen.
- Claussen? A família de armadores em Morlunde?
- Sim. É bonita, mas só tem dezasseis anos, e uma conversa muito enfadonha.
- Pois ainda bem. A família é católica. O velho não aprovaria.
- Eu sei. - Harald ficou carrancudo.- Mas olha que ele anda estranho. Na Páscoa pregou sobre a tolerância.
- Logo ele que é tão tolerante quanto Vlad, o Empalador.* - Arne arremessou a beata.- Vamos entrar e falar com o velho tirano.
- Antes de entrarmos...
- O que foi?
- Como estão as coisas na base?
- Feias. Não podemos defender o nosso país, e a maior parte do tempo não estou autorizado a voar.
- Por quanto tempo se poderá prolongar esta situação?
- Sabe-se lá. Talvez para sempre. Os nazis conquistaram tudo. Só há oposição dos britânicos, e eles estão por um fio.
Harald baixou a voz, apesar de não haver ninguém que pudesse escutar. - Decerto alguém estará a preparar um movimento de Resistência em Copenhaga, não?
Arne encolheu os ombros. - Se estivessem, e eu tivesse conhecimento, não te poderia contar, pois não? -Depois, antes que Harald falasse mais, Arne correu pela chuva em direcção à luz acesa na cozinha.