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"Porquê a Mim?"

Por:SÁBADO

24 SETEMBRO 2009 (Bernardo Teixeira)

Porquê a Mim? é o nome do livro escrito por Bernardo Teixeira, um ex-aluno da Casa Pia , que conta os abusos que sofreu quando tinha 14 anos.

Leia o primeiro capítulo do livro.

I Capítulo

     Pela primeira vez na minha vida estou a ver a lua aos quadradinhos. É mesmo como nos filmes. Sentado no parapeito da janela, olho para o céu e penso em como tudo podia ter sido tão diferente. Só me apetece chorar. Estou a aguentar as lágrimas desde esta manhã, quando aqui cheguei com a minha tia.
     – Vai ser bom para ti – disse-me ela.

Eu mal conseguia olhar em frente. Tinha os olhos cheios de água. Até que vi ao longe as janelas com grades. Finalmente conseguiram ver-se livres de mim, pensei. Já não vão ter de discutir sobre quem fica comigo. Vão pôr-me numa prisão para crianças. Estava cheio de medo.
     – Mas vai ser bom porquê? – perguntei-lhe. – Vou estar longe de toda a gente.– Não te preocupes com isso agora – respondeu, despachada. – Vais poder visitar-me aos fins-de-semana. O mais importante é que vais deixar de andar de um lado para o outro. Vais morar com outros meninos e ter muitos amigos.
 
     Só me apetecia fugir. Correr o mais depressa que conseguisse. Mas sabia que não ia chegar longe – de certeza que a minha tia era muito mais rápida do que eu. E, depois, correr para onde? Não tinha para onde ir.
     Quando passámos o portão, senti-me enganado. A senhora da Segurança Social tinha dito que eu ia para uma escola, mas não vi meninos nem meninas a correr pelo recreio. Também não havia recreio. Só uns carros estacionados. À minha frente encontrava-se o edifício onde estou agora, comprido e amarelo, com imensas janelas. Pensei que fossem as celas dos miúdos ali deixados pelas famílias. Talvez os tivessem prendido para que não fizessem mal a mais ninguém. Eu não acho que tenha feito alguma coisa assim tão má. Todas as crianças fazem coisas menos bonitas. Não é por isso que vão para a prisão. Eles querem é continuar com as vidas deles, sem terem de se preocupar comigo.
     Ainda por cima, para aqui chegarmos, fartámo-nos de andar. Eu estava cheio de calor, com um casaco grosso de mais para Setembro. O pior foi subir uma rampa que nunca mais acabava. Só de pensar que vou ter de voltar a andar isto tudo cada vez que for visitar a minha tia até me dói a barriga. «Casa Pia de Lisboa – Colégio de Santa Catarina», dizia ao lado da entrada. Afinal, a assistente social não estava a mentir. Lá dentro estava escuro e frio.
    
     – Boa tarde. Posso ajudar? – perguntou uma das senhoras da secretaria.
     Aproximei-me da minha tia até lhe sentir o calor do corpo transpirado. Sabia que ela queria deixar-me ali. Mas se eu não saísse de ao pé dela talvez mudasse de ideias.
     – Boa tarde. Estou aqui com o meu sobrinho. O Bernardo vai ser internado hoje no colégio.
     – Com certeza. Vou chamar a assistente social. Aguarde aí fora, por favor.
     Sentámo-nos num banco de madeira, parecido com os das igrejas. Aliás, tudo o que ali estava parecia ter sido oferecido por uma igreja: os azulejos das paredes, azuis e com desenhos; os mosaicos do chão, frios e sem brilho. Tudo me parecia meio empoeirado e sombrio.

     Sentia calafrios pela espinha ao pensar que ia ficar ali para sempre. No pátio havia uma estátua encostada a uma das paredes. Foi de lá que veio a assistente social. Não tinha o ar de má que eu esperava; só cara de fumo. Era magra e muito alta. Quando se aproximou para apertar a mão à minha tia, o cheiro era tão forte que parecia que tinha estado a fumar uns dez cigarros seguidos. A mim não me cumprimentou. Só me acenou com a cabeça e disse:
     – Vamos até ao gabinete da psicóloga do colégio. Assim podemos conversar melhor.
     Eu não tinha nada para conversar. Decidi que se me perguntassem alguma coisa não ia responder. Não me tinham ouvido quando pedi para ficar em casa; também não iam ouvir mais nada. Entrámos no gabinete e quando vi a psicóloga não queria acreditar: tinha o ar mais carinhoso do mundo, pequenina e concentrada, o oposto da assistente social.
     Sentámo-nos à volta de uma mesa redonda, ao lado da secretária dela. A assistente social foi a única pessoa a falar. Falava, falava, falava. Eu não conseguia concentrar-me no que dizia. Sentia-me desconfortável naquele sítio. Só a psicóloga é que parecia reparar em mim e tentava ser simpática. Podia estar calada, mas não parava de sorrir para mim. Se calhar achava que por causa disso eu ia decidir que queria ficar.
     Preparei a resposta para quando me pedissem a opinião: «Sei que é bom não ter de andar sempre a mudar de casa, mas prefiro ir embora com a minha tia.»
Só que ninguém me perguntou nada. Enquanto a minha tia estava concentrada a preencher uns papéis, vi um ficheiro pousado em cima da mesa com o meu nome e idade: «Bernardo Teixeira, 11 anos». Como estava de pernas para o ar, só consegui decifrar uma frase sublinhada: «O menor apresenta muitas marcas de sofrimento e abandono.»
     Nem tive tempo para pensar no que tinha lido. Mal acabou de escrever os contactos dela, a minha tia disse que se ia embora. Senti um aperto no peito, como se alguém tivesse batido com uma porta com muita força. Num instante toda a esperança de que ela se arrependesse desapareceu. Nem há meia hora tínhamos chegado.
     – Bernardo, vou deixar as tuas malas na secretaria – disse, com naturalidade. Levantou-se e deu-me dois beijos. Deve ter reparado na minha cara de pânico, porque voltou a dizer de forma suave que ia correr tudo bem.
     – Vemo-nos no fim-de-semana.
 
     Comecei a sentir a cabeça a andar à roda. A assistente social também se foi embora, sem sequer se despedir. Tinha «de ir tratar de um assunto». Logo a seguir, a psicóloga pediu-me para esperar pelo educador fora do gabinete e fechou a porta. Fiquei sozinho num corredor comprido e cheio de portas. Sentia-me tão abandonado que só queria chorar, mas tinha medo que aparecesse alguém. Até que tive uma ideia: pedir a todos os anjinhos que me ajudassem e protegessem.
     – Por favor, não me deixem ficar aqui. Prometo que não volto a portar-me mal – pensei com muita força. Estava cheio de medo. Fiquei ali à espera durante imenso tempo. Quando finalmente a porta ao fundo do corredor se abriu, saíram de lá dois homens e uma mulher. Um deles veio ter comigo e deu-me um aperto de mão. Gostei logo dele. Tinha um ar simples e simpático. Vestia umas calças de ganga e uma camisa aos quadrados. Não me parecia muito velho. Talvez tivesse uns 30 anos.
     – Olá, Bernardo. O meu nome é Pedro Matos e vou ser o teu educador. Queres vir conhecer o sítio onde vais viver?
    
     Ao ouvir estas palavras, o meu coração ficou ainda mais pequenino. Não quero viver aqui. Já tenho saudades da casa da minha tia. Porque é que todos me estão a fazer isto? Levantei-me e as minhas pernas tremiam. Começámos a andar pelo corredor. O frio entrava-me pelo casaco. Que sítio gelado. Fui percebendo o que estava por trás de cada porta: os gabinetes dos directores do colégio, a biblioteca, a enfermaria, a despensa.
     – No colégio há meninos internos e semi-internos – explicou-me ele, já no pátio, enquanto mostrava a capela, o ginásio e a sala de estudo. – Os internos são meninos que tal como tu ficam cá a morar; os semi-internos vêm ao colégio só para estudar e ao final da tarde vão para casa.
     Pensei logo que preferia ser um aluno semi-interno. O colégio parecia tão pouco acolhedor. Cada vez que ele virava as costas, eu pensava em fugir. Faltou-me a coragem. Sou mesmo um medricas como me diziam na escola. A visita nunca mais acabava. No colégio há escadas para cima e para baixo por todo o lado. A certa altura, chegámos a um outro pátio, onde havia um cesto de basquetebol meio podre. No chão, uma bola furada e uma lata de coca-cola amachucada serviam de baliza. Tudo indicava que havia miúdos por ali, mas não se via ninguém. Estava tudo deserto e com ar abandonado. Por fim, voltámos ao corredor e passámos pela cozinha. Era a maior que eu já tinha visto, com fogões e panelas gigantes, algumas maiores do que eu.

     – Neste momento moram aqui cerca de 40 crianças – disse-me o tal Pedro, tranquilo e bem-disposto. – Estão divididas em três grupos. Eu e a educadora Teresa Fernandes tomamos conta do teu. Agora vais conhecer o teu quarto.
     Por esta altura já me tinha esquecido de metade das coisas que ele me tinha mostrado, mas estas palavras chamaram-me a atenção. Nunca tinha tido um quarto a sério, só para mim. Na minha mãe, dormia numa despensa que ela tinha adaptado, onde só havia uma cama e uma mesa de plástico. Mesmo assim era melhor do que passar as noites no corredor em frente à casa de banho, deitado num colchão de praia, como aconteceu durante os cinco anos em que vivi com a ama. Quando voltei para perto de Lisboa, a minha tia bem queria dar-me melhor, mas não tinha muito espaço e por isso eu dormia no sofá da sala. Pelo menos aqui ia ter um sítio onde estar e esconder-me, onde ia poder chorar à vontade – um mundo só meu.

      Subimos ao primeiro andar e começámos a avançar pelo corredor. Espreitei para dentro dos quartos e fiquei logo desiludido. Alguns tinham três camas, outros mais – quatro. Não me apetecia nada dividir o quarto com miúdos que não conhecia. Na escola, os meus colegas nunca me trataram muito bem. Eu era sempre diferente deles, fosse por não ter pais ou por não vestir roupas de marca.
     – Cá está – disse-me o educador, quando chegámos à oitava porta.
     O quarto ainda era maior do que os outros. Tinha cinco camas. Ou seja, cinco miúdos. Lá dentro, as coisas eram todas iguais, como se tivessem saído de uma fábrica: cinco camas com colchas aos quadrados amarelo-torrado e bordeaux, cinco armários brancos, embutidos na parede, todos sujos de rabiscos de lápis, cinco sapateiras e cinco mesas-de-cabeceira. Achei estranho ver um cesto de piquenique, de verga e com tampa, encostado aos pés de uma cama.
     – Serve para pôr a roupa suja – esclareceu o educador, como se tivesse adivinhado os meus pensamentos.

     O guarda-fatos só tinha três cabides. Mesmo assim não era mau. Na ama nem sequer roupeiro tinha; só um espacinho no aparador da sala. Mas ele explicou-me que aqui também não teria acesso a toda a minha roupa ao mesmo tempo. Por dia só me davam o que era para vestir e o resto ficava sempre na rouparia. Foi então que reparei nas redes gradeadas – as mesmas que tinha visto do lado de fora – e senti um pontapé no estômago: tinha passado a ser um dos meninos presos.
     – Às sete horas da manhã entra de serviço o primeiro educador e acorda-vos. Têm de se vestir, de lavar a cara e os dentes. Todos os dias, um de vocês leva a roupa suja dos outros para a rouparia. Às sete e meia têm de estar no refeitório para tomar o pequeno-almoço. Depois, segue cada um para a sua escola.
     O educador Pedro Matos esteve uns 20 minutos sentado na minha cama a explicar-me o funcionamento do colégio. Estávamos sozinhos no quarto. Entretanto, chegou a mala com toda a minha roupa: quatro pares de calças, três camisas, duas camisolas e umas quantas t-shirts. Grande parte ainda era aquela que a ama tinha ido buscar à igreja. As cuecas e meias estavam num saco mais pequeno, com algumas coisas que eu tinha juntado ao longo dos tempos.
     Não era nada de muito valioso. Só o meu diário, com chave e cadeado, era precioso. De resto, tinha um livro de histórias dado pela minha tia, uma escova de dentes, uma escova para o cabelo e uns berlindes.
 
     – Como sabes, vais tirar o curso de Cozinha e Pastelaria no Colégio D. Maria Pia em Xabregas. Em Santa Catarina só há aulas até à 4.ª classe – continuou o educador. – Na segunda-feira vais com um aluno mais velho para ele te ensinar o caminho. Quando voltares da escola, tomas banho. O jantar é às sete e meia.
     Fiquei espantado. Nunca tinha tomado banho todos os dias. Além disso, a vida no colégio não me parecia assim tão má. Depois do jantar, tinha de fazer os trabalhos de casa, como ele disse a seguir. Se acabasse antes das nove e meia, a hora de ir dormir, ainda podia ir ver televisão. Ao menos não tinha de cumprir penas muito pesadas, como lavar o chão à mão. Sempre pensei que era isso que acontecia às crianças presas em colégios.
     Ele acabou de falar e fomos conhecer os outros três educadores à sala pequenina onde eles se reuniam, ao fundo do corredor. Nenhum parecia perceber o que eu estava a sentir, mas foram simpáticos. Do lado de fora era a sala de televisão. O Pedro apresentou-me aos meninos que estavam deitados nos três sofás azuis-escuros e deixou-me lá. Nenhum deles falou comigo. Uns ainda olharam, mas pareciam mais interessados na telenovela que estava a dar.

     Não me apetecia ver televisão, nem sequer estar ali. Não pertencia àquele sítio. Ainda me aguentei uns minutos, mas depois voltei para o quarto, sentei-me na cama e fiquei ali sozinho a desejar que tudo aquilo não passasse de um sonho mau. O nó que sentia na garganta apertava cada vez mais. Tive mesmo de me controlar para não chorar.
     Pouco depois, começaram a chegar alguns rapazes para apanharem as coisas do banho. Imitei-os. Respirei de alívio ao ver que os duches eram todos separados, em cubículos. Havia seis compartimentos, todos brancos, tal como o resto da casa de banho. Depois, vesti-me lá dentro e tudo. Acho que fui o único. Uma coisa um bocado estranha foi que uma das educadoras entrou lá dentro para me dar champô. Fiquei cheio de vergonha. Os outros miúdos explicaram-me depois que eles faziam sempre isso para não gastarmos o champô todo de uma vez.
     De volta ao quarto, vi um rapaz esconder um pacote de bolachas debaixo do colchão. Ele olhou para mim e, com um dedo à frente dos lábios, faz-me sinal para não contar a ninguém. Será que aqui não há comida que chegue? Devia ter aceitado o pacote de bolachas que a minha tia me queria dar para trazer. Mas na altura nem conseguia pensar em comer.

     De repente, ouvi alguém chamar. Um dos rapazes disse-me que era hora de jantar. Desci para o refeitório e senti-me como se estivesse na minha antiga escola. Até as mesas eram iguais, do tamanho de autocarros. Às cabeceiras sentaram-se os educadores Pedro Matos e Teresa Fernandes. Pela primeira vez vi raparigas. Elas dormiam no segundo andar. O meu grupo era o único com dois responsáveis. Quis logo saber porquê. Será que vim parar à mesa dos malcomportados?
     – Antes os outros grupos também tinham dois. Foram-se embora e não veio ninguém para o lugar deles – respondeu a rapariga que estava ao meu lado.
     O jantar foi sopa, arroz empapado com carne (só consegui comer o arroz; deixei a carne de lado) e, para sobremesa, maçã. No fim, passei pela cozinha para deixar o meu prato num lava-loiça tão grande que parecia um tanque cheio de água suja. Uma das alunas do meu grupo estava a lavar aquilo tudo sozinha enquanto a cozinheira imensamente gorda lavava o fogão. Passou-me um frio pela espinha. Afinal, havia tarefas duras. Só espero que aquela nunca me calhe.





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