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Amitav Ghosh foi finalista do Man Booker Prize 2008 e vai lançar, a 5 de Maio, o seu novo livro - Mar das Papoilas - um romance histórico que se desenrola no Norte da Índia em 1838, nas vésperas da primeira Guerra do Ópio. A SÁBADO adianta-lhe em exclusivo o primeiro capítulo
A visão de um navio, de mastro alto, a navegar no oceano, assaltou a mente de Deeti, num dia de resto perfeitamente normal, mas ela soube de imediato que aquela aparição era um sinal do destino, pois jamais vira uma embarcação assim, nem mesmo em sonhos. Afinal de contas, vivia no Norte do estado de Bihar, a seiscentos e cinquenta quilómetros da costa, e a sua aldeia situava-se de tal forma no interior, que o mar lhe parecia tão distante como o mundo dos mortos. Era o abismo da escuridão, onde o sagrado Ganges desaparecia na Kala Pani, ou «Água Negra».
Aconteceu no final do Inverno, num ano em que, estranhamente, as papoilas demoraram a largar as suas pétalas. Quilómetro após quilómetro, de Benares em diante, o Ganges parecia correr no meio de dois glaciares idênticos, com ambas as margens cobertas por uma camada espessa de flores com pétalas brancas. Parecia que a neve dos Himalaias havia descido sobre as planícies, à espera da chegada do festival Holi, com a sua abundância de cores primaveris.
A aldeia onde Deeti vivia ficava nas imediações da cidade de Ghazipur, cerca de oitenta quilómetros a leste de Benares. Como todos os seus vizinhos, Deeti estava preocupada com o atraso da sua plantação de papoilas. Naquele dia, levantou-se cedo e executou as suas tarefas rotineiras, indo buscar um dhoti lavado para o seu marido, Hukam Singh, e preparando o roti e o achar que este comeria por volta do meio-dia. Assim que a refeição do marido ficou pronta e embrulhada, ela dirigiu-se para a sua sala de oração privada; mais tarde, depois de tomar banho e mudar de roupa, Deeti faria uma puja como deve ser, com flores e oferendas. Vestida com o seu sari de noite, limitou-se a ficar à entrada, com as mãos unidas e os joelhos dobrados ligeiramente.
Pouco depois, o chiar de umas rodas anunciou a chegada da carroça de bois que levaria Hukam até à fábrica onde este trabalhava, em Ghazipur, a cinco quilómetros dali. Embora não fosse longe, a distância era demasiado comprida para Hukam Singh ir a pé, porque tinha sofrido um ferimento na perna, quando servira como sipaio no regimento britânico. A sua deficiência não era grave ao ponto de necessitar de muletas, pelo que Hukam Singh se dirigiu para a carroça sem grande dificuldade. Deeti foi logo atrás, com a água e a comida do marido, e entregou-lhe o embrulho de pano depois de ele ter subido.
Kalua, o homem gigante que conduzia a carroça de bois, não se mexeu para ajudar o seu passageiro a subir e teve o cuidado de virar a cara. Pertencia à classe dos trabalhadores do couro, e Hukam Singh, um Rajput de classe alta, acreditava que olhar para o rosto dele seria um mau presságio para o resto do dia. Ao subir para a traseira da carroça, o antigo sipaio sentou-se virado de costas, com o seu embrulho equilibrado no colo, para impedir que entrasse em contacto com os pertences do condutor. E foi assim que eles seguiram, condutor e passageiro, enquanto a carroça chiava ao longo da estrada para Ghazipur, a conversarem amigavelmente, mas sem nunca trocarem olhares.
Também Deeti tivera o cuidado de esconder o seu rosto na presença do condutor. Só quando voltou para dentro de casa, a fim de acordar Kabutri, a sua filha de seis anos, é que deixou a ghungta do seu sari escorregar-lhe da cabeça. Kabutri estava enroscada na sua esteira e, pelas suas expressões faciais, Deeti percebeu que a filha se encontrava a sonhar. Quando estava prestes a acordá-la, parou a mão no ar e deu um passo atrás. No rosto adormecido da filha, via os traços do seu próprio rosto: os mesmos lábios carnudos, o nariz arredondado e o queixo arrebitado. Na criança, aqueles traços eram claramente visíveis, mas em si já eram algo indistintos. Após sete anos de casamento, ela própria era pouco mais do que uma criança, embora já tivessem surgido alguns fios brancos no seu cabelo negro e forte. A pele do seu rosto, seca e escurecida do sol, começava a escamar e a gretar à volta da sua boca e dos seus olhos. Ainda assim, e apesar do carácter vulgar e fatigado da sua aparência, havia algo nela que saltava imediatamente à vista: os seus olhos cinzento-claros, algo bastante invulgar para aquela região do país. A cor dos seus olhos — ou a ausência de cor — era tal, que a fazia parecer cega e clarividente, simultaneamente. Este facto perturbava os mais jovens e reiterava os seus preconceitos e as suas superstições, ao ponto de, às vezes, lhe gritarem insultos — chudaliya, daiwana —, como se ela fosse alguma bruxa. Porém, bastava Deeti virar os olhos na direcção deles, para os fazer fugir em debandada. Apesar de tirar algum prazer do seu poder desconcertante, Deeti estava contente por aquela ser uma característica que não transmitira à sua filha. Adorava os olhos escuros de Kabutri, tão negros como o seu cabelo brilhante. Contemplando o rosto sonhador da filha, Deeti sorriu e tomou a decisão de não a acordar; dali a três ou quatro anos, a menina casaria e sairia de casa. Quando fosse acolhida na residência do seu futuro marido, teria tempo mais do que suficiente para trabalhar. O melhor seria passar os anos que lhe restavam a descansar.
Depois de ter dado uma dentada num roti, Deeti saiu para o exterior, para o pátio de terra batida que dividia a habitação, feita de lama, dos campos de papoilas. À luz do sol-nascente, ela viu, para grande alívio seu, que algumas flores haviam começado a largar as suas pétalas. No campo imediatamente ao lado, o irmão mais novo do seu marido, Chandan Singh, já se encontrava na rua, com a sua nukha de oito lâminas em riste. Ele usava os pequenos dentes da ferramenta para fazer uns furos nas cápsulas expostas; se a resina escorresse livremente durante a noite, no dia seguinte traria a família para sangrar as flores. O timing tinha de ser perfeito, porque a preciosa resina só fluía durante um breve período da vida da planta. Um dia a mais ou a menos, e as suas cápsulas passavam a ter tanto valor como as ervas daninhas.
Chandan Singh, que também a avistara, não era o tipo de pessoa para deixar alguém passar por ele sem lhe dizer nada. Um jovem de queixo descaído, com uma prole de cinco filhos, jamais perdia uma oportunidade para recordar a Deeti a sua escassez de rebentos.
— Ka bhaíl? — gritou-lhe ele, lambendo uma gota de resina fresca da ponta da sua nukha. — Então, outra vez a trabalhar sozinha? Não podes continuar assim. Precisas de um filho para te ajudar. Não é como se fosses infértil...
Acostumada aos modos do cunhado, Deeti não teve qualquer dificuldade em ignorá-lo. Voltou-lhe as costas e dirigiu-se para o seu próprio campo, com um cesto de verga largo à cintura. Entre as fileiras de flores, o chão achava-se coberto de pétalas tão finas como o papel, e ela apanhou-as às mãos cheias, colocando-as no interior do seu cesto. Uma ou duas semanas antes, teria tido o cuidado de caminhar de lado, de forma a não roçar nas flores, mas hoje avançava nervosa e agitadamente, sem se incomodar com o facto de o seu sari arrancar molhos de pétalas das cápsulas em maturação. Quando o seu cesto ficou cheio, levou-o de volta e esvaziou-o junto ao choola exterior onde confeccionava a maior parte das refeições. Aquela parte da entrada da casa ficava à sombra de duas mangueiras enormes, que haviam começado a desenvolver os rebentos que mais tarde se transformariam nos primeiros botões da Primavera. Aliviada por estar à sombra, Deeti agachou-se junto ao fogão e colocou uma pilha de lenha por cima das brasas da noite anterior, que continuavam incandescentes, no meio das cinzas.
Kabutri estava acordada e, quando o seu pequeno rosto espreitou na ombreira da porta, a mãe já perdera a sua disposição tolerante.
— Tão tarde? — ralhou-lhe ela. — Onde estiveste? Kám-o-káj na hoi? Julgas que não há trabalho para fazer?
Deeti mandou a filha fazer um monte com as pétalas de papoila, enquanto ela alimentava a fornalha e aquecia uma tawa de ferro pesada. Assim que a frigideira ficou bem quente, deitou uma mão-cheia de pétalas para o seu interior, prensando-as com a ajuda de um pano enrolado. À medida que iam aquecendo, as pétalas escureciam e uniam-se umas às outras. Um ou dois minutos mais tarde, estavam idênticas ao roti de farinha de trigo que Deeti preparara para o almoço do marido. «Roti» era também o nome pelo qual aqueles invólucros eram conhecidos, embora servissem um propósito totalmente diferente dos seus homónimos: seriam vendidos à fábrica de ópio Sudder, em Ghazipur, onde seriam utilizados para revestir os recipientes de cerâmica que transportavam o ópio.
Kabutri, entretanto, amassara um pouco de atta e fizera alguns rotis verdadeiros. Deeti cozinhou-os rapidamente, antes de apagar o lume. Os rotis foram postos de lado, para serem comidos mais tarde, com os restos do dia anterior: batatas cozidas, envoltas numa pasta de sementes de papoila. A sua mente concentrou-se novamente na sua sala de oração privada; com a hora da puja do meio-dia a aproximar-se, estava na altura de ir tomar banho ao rio, lá em baixo. Depois de massajar óleo de semente de papoila no cabelo de Kabutri e no seu próprio cabelo, Deeti pendurou o seu outro sari no ombro e conduziu a filha até às águas do rio, do outro lado do campo.
O campo de papoilas terminava num banco de areia que descia até ao Ganges. Demasiado aquecida pelo sol, a areia queimava as solas dos pés descalços de ambas. O peso da compostura maternal escapuliu-se dos ombros vergados de Deeti e esta desatou a correr atrás da filha, que saltitava à sua frente. A uns escassos passos da margem, gritaram uma invocação ao rio — Jai Ganga Mayya ki... — e sustiveram a respiração, antes de se lançarem à água.
Quando vieram à tona, começaram a rir às gargalhadas. Naquela altura do ano, e após o choque inicial, a água era incrivelmente refrescante.
Embora ainda faltassem algumas semanas para o calor intenso do Verão, a corrente do Ganges já começara a diminuir. Virada para Benares, na direcção oeste, Deeti levantou a filha para esta despejar uma mão-cheia de água, numa homenagem à cidade sagrada. Juntamente com a oferenda, uma folha fluiu das mãos colocadas em forma de concha da criança. Ambas se viraram e ficaram a observá-la a correr rio abaixo, rumo à foz de Ghazipur.
As paredes da fábrica de ópio de Ghazipur achavam-se parcialmente escondidas pelas mangueiras e pelas jaqueiras, mas a bandeira britânica era perfeitamente visível acima da folhagem, assim como o campanário da igreja onde os capatazes da fábrica rezavam. No local de junção da fábrica com o Ganges, uma barca pateli, com um único mastro, exibia o estandarte da Companhia das Índias Orientais. Trouxera um carregamento de ópio, proveniente de uma das remotas subagências da firma, e que estava a ser descarregado por uma longa fila de coolies.
— Mãe — perguntou Kabutri, erguendo os olhos para a sua mãe —, para onde vai aquela barca?
Fora aquela pergunta que dera origem à visão de Deeti. A sua mente evocou de imediato a imagem de um navio enorme, com dois mastros altos. Suspensas nos mastros viam-se umas velas colossais, de um branco deslumbrante. A proa do navio terminava numa figura com um longo bico, como uma cegonha ou uma garça. Um homem encontrava-se junto à proa e, embora ela não o visse nitidamente, ele transmitia-lhe a sensação de uma presença diferente e desconhecida.
Deeti sabia que aquela visão não estava materializada à sua frente, como, por exemplo, a barca atracada junto à fábrica. Ela nunca vira o mar, jamais saíra daquele lugar e nunca falara outra língua que não o bhojpuri; contudo, não tinha a menor dúvida de que aquele navio existia algures e que se dirigia na sua direcção. A mera ideia aterrorizava-a; nunca pusera a vista em algo que se assemelhasse àquela aparição, além de que não fazia a menor ideia do que significava.
Kabutri sabia que algo de estranho se passava e esperou um ou dois minutos antes de perguntar:
— Mãe? Para onde estás a olhar? O que foi que viste?
O rosto de Deeti era uma autêntica máscara de medo, e ela respondeu, numa voz trémula:
— Vi um jahaz... Um navio.
— Aquela barca ali?
— Não, um navio como eu nunca vi. Parecia um pássaro gigante, com velas que mais pareciam asas e um bico muito comprido.
Olhando de relance para o rio, Kabutri disse-lhe:
— Consegues desenhar o que viste?
Deeti acenou com a cabeça e ambas saíram da água. Trocaram rapidamente de roupa e encheram um cântaro com água do Ganges, para a puja. Quando regressaram a casa, Deeti acendeu uma lamparina e conduziu Kabutri até à sala de oração. A divisão era um tanto escura, com as paredes escurecidas da fuligem, e cheirava imenso a óleo e a incenso. Havia um pequeno altar, com umas estatuetas de Shivji e de Bhagwan Ganesh, assim como umas imagens emolduradas de Ma Durga e de Shri Krishna. Porém, a sala era um santuário não só dedicado aos deuses, mas também ao panteão pessoal de Deeti, pelo que continha várias lembranças da sua família e dos seus antepassados: relíquias como os tamancos de madeira do seu pai; um colar de contas rudraksha que a sua mãe lhe deixara; e umas impressões desbotadas dos pés dos seus avós, tiradas nas suas piras fúnebres. As paredes em redor do altar achavam-se repletas de desenhos feitos pela própria Deeti, esboços desenhados em rodelas de pétalas de papoila: os retratos, a carvão, de dois irmãos e de uma irmã, todos falecidos em criança. Também havia imagens de familiares vivos, mas não passavam de esboços feitos em folhas de mangueira. Deeti acreditava que dava azar desenhar retratos realistas de pessoas que ainda não haviam deixado este mundo. Como tal, o seu querido irmão mais velho, Kesri Singh, estava retratado por meia dúzia de traços, representativos da sua carabina de sipaio e do seu bigode com as pontas reviradas.
Ao entrar na sua sala de oração privada, Deeti pegou numa folha de mangueira verde, mergulhou a ponta do dedo num recipiente com sindoor e desenhou, com meia dúzia de traços, dois triângulos semelhantes a umas asas, suspensos numa armação curva e comprida que terminava num bico curvado. Podia tratar-se de um pássaro em pleno voo, mas Kabutri reconheceu a imagem de imediato: uma embarcação com dois mastros e as velas desfraldadas. A rapariga estava admirada por a mãe ter desenhado aquilo como se se tratasse de um ser vivo.
— Vais pô-lo na sala de puja? — perguntou-lhe ela.
— Sim — respondeu Deeti.
A criança não compreendia por que razão o navio tinha um lugar no panteão da família.
— Mas porquê? — inquiriu.
— Não sei — retorquiu Deeti, também ela surpreendida com a certeza das suas palavras. — Só sei que pertence lá, não apenas o navio, mas todos os que se encontram no seu interior. Também eles têm um lugar nas paredes na nossa sala de puja.
— Mas quem são eles? — insistiu a criança, admirada.
— Ainda não sei — respondeu-lhe a mãe. — Mas, quando os vir, saberei.
* * *
A escultura da cabeça de um pássaro montada no gurupés do Ibis era invulgar o suficiente para servir de prova, a quem dela necessitasse, de que se tratava do navio que Deeti vira na sua mente, quando se achava meio submersa nas águas do Ganges. Mais tarde, até os marinheiros mais experientes acabariam por admitir que o desenho dela era uma interpretação incrivelmente evocativa da embarcação, em especial porque fora elaborado por uma pessoa que jamais pusera os olhos numa escuna, nem noutro navio qualquer.
A seu tempo, e entre as multidões de gente que passariam a considerar o Ibis o seu antepassado, ficaria assente que tinha sido o próprio rio a facultar aquela visão a Deeti, e que a imagem do Ibis havia sido transportada rio acima, qual corrente eléctrica, logo que a embarcação tinha entrado em contacto com as águas sagradas. Isso aconteceu, mais precisamente, na segunda semana de Março de 1838, pois foi nessa altura que o Ibis ancorou ao largo da ilha Ganga-Sagar, onde o rio sagrado ia desembocar na baía de Bengala. Naquele lugar, enquanto o Ibis esperava por um piloto para o levar até Calcutá, Zachary Reid teve o seu primeiro contacto com a Índia: uma mata cerrada de manguezais e um banco de lama que parecia desabitado até começar a expelir os seus barcos de mercadorias, uma pequena frota de canoas e barcos a remos, destinados à venda de fruta, de peixe e de vegetais, aos marinheiros recém-chegados.
Zachary Reid era um homem robusto e de estatura mediana, com a pele cor do marfim e os cabelos negros muito brilhantes e encaracolados, que lhe caíam sobre os olhos. As suas pupilas eram tão negras como a sua melena, embora fossem salpicadas de cor de avelã. Em criança, os estranhos diziam-lhe que os seus olhos podiam ser vendidos, como se fossem diamantes, a uma duquesa qualquer (mais tarde, quando chegou a vez de ele ser incluído no altar de Deeti, muito se diria sobre a intensidade do seu olhar). Porque ele ria com facilidade e revelava uma atitude descontraída, as pessoas davam-lhe menos idade, mas Zachary apressava-se logo a corrigi-las. Filho de uma antiga escrava de Maryland, orgulhava-se de saber a sua idade correcta, assim como a sua data de nascimento. Como tal, respondia-lhes que tinha vinte anos, nem mais e nem menos.
Todos os dias, Zachary tinha o hábito de pensar em, pelo menos, cinco coisas dignas de louvor, um costume que lhe fora incutido pela mãe, como uma forma de corrigir uma língua que, por vezes, era demasiado afiada. Desde que ele deixara a América, o próprio Ibis figurava no seu registo diário de coisas louváveis. Não que o navio fosse particularmente elegante ou veloz; pelo contrário, o Ibis era uma escuna com um aspecto antiquado, nada esguia nem esplendorosa, ao contrário dos veleiros pelos quais a cidade de Baltimore era conhecida. Possuía um tombadilho estreito, um castelo de proa elevado, com um pequeno convés junto à proa, e uma cabina de través, que servia de cozinha e de cabina para os mestres de bordo e os camareiros. Com o seu convés principal desordenado e a sua boca larga, o Ibis era frequentemente confundido com uma barca aparelhada como uma escuna pelos marinheiros mais antigos. Se havia alguma verdade nisso ou não, Zachary desconhecia; contudo, nunca o vira senão como a escuna que ele era, quando se inscrevera para fazer parte da sua tripulação. Aos olhos de Zachary, a mastreação do Ibis era invulgarmente graciosa, com as suas velas alinhadas a todo o comprimento do navio, em vez de transversais à linha do casco. Ele compreendia por que motivo aquela embarcação, com as suas velas dianteiras firmes ao vento, fazia lembrar um pássaro de asas brancas, em pleno voo. Comparativamente, os outros navios de mastros altos, com o seu amontoado de lonas quadradas, eram bastante deselegantes.
Zachary sabia que o Ibis havia sido construído como um navio negreiro, ou seja, para transportar escravos. Aliás, essa era a razão por que a embarcação tinha mudado de dono: desde a abolição formal do comércio de escravos, as embarcações navais britânicas e americanas haviam começado a patrulhar a costa ocidental de África, e o Ibis não era suficientemente veloz para as iludir. Tal como acontecera com muitos outros navios negreiros, o novo proprietário da escuna adquirira-a com o intuito de a utilizar para outro tipo de comércio: a exportação de ópio. Tratava-se de uma firma denominada Burnham Bros, uma companhia de navegação e sociedade comercial, com vastos interesses económicos na Índia e na China.
Os representantes da empresa não perderam tempo e solicitaram que a escuna fosse enviada para Calcutá, onde o dono da firma, Benjamin Brightwell Burnham, residia. O Ibis seria readaptado assim que chegasse ao seu destino, e essa era a razão por que Zachary fora aceite a bordo. Tinha trabalhado durante oito anos no estaleiro Gardiner, em Fell’s Point, Baltimore, pelo que era mais do que qualificado para supervisionar as alterações ao antigo navio negreiro; porém, em termos de navegação, percebia tanto de navios como qualquer carpinteiro habituado a trabalhar em terra, sendo aquela a sua primeira viagem sobre o mar. Zachary inscrevera-se com o intuito de aprender o ofício de marinheiro; por isso subira a bordo cheio de entusiasmo, transportando uma saca de lona que continha pouco mais do que uma muda de roupa e uma flauta irlandesa que o pai lhe oferecera, em criança. No entanto, o Ibis proporcionara-lhe uma aprendizagem rápida e severa, uma vez que, do princípio ao fim, a sua viagem fora brindada com uma lista interminável de problemas. O Sr. Burnham tinha tanta pressa para levar a sua nova escuna para a Índia, que esta viera de Baltimore com pouca tripulação, navegando com um total de dezanove pessoas, das quais nove, incluindo Zachary, se achavam registadas como «negras». Para além da falta de mão-de-obra, também as suas provisões eram escassas, em termos de qualidade e de quantidade, e isso dera origem a alguns confrontos entre camareiros e marinheiros, e entre imediatos e proeiros. Posteriormente, a embarcação deparou-se com um mar agitado e o seu costado começou a deixar entrar água. Entretanto, Zachary descobriu que a entrecoberta, o local onde a carga humana da escuna fora sempre acomodada, se encontrava crivada de vigias e de condutas de ar, criadas por várias gerações de prisioneiros africanos. O Ibis transportava um carregamento de algodão, para financiar os custos da viagem, e, após a inundação, os fardos ficaram tão ensopados que tiveram de ser lançados ao mar.
Ao largo da Patagónia, o mau tempo forçou a embarcação a uma mudança de rota, quando a ideia original era atravessar o Pacífico e contornar a ilha de Java. Em vez disso, o Ibis zarpou em direcção ao cabo da Boa Esperança, deparando-se novamente com mau tempo e ficando retido na zona das calmarias equatoriais, durante quinze dias. Com a tripulação alimentada a meias rações, a comer pão cheio de bichos e carne podre, seguiu-se um surto de disenteria. Quando o vento tornou a levantar, três homens já tinham morrido e dois dos tripulantes negros achavam-se acorrentados, por se terem recusado a comer o que lhes havia sido servido. Com a falta de mão-de-obra, Zachary pôs as suas ferramentas de carpinteiro de parte e tornou-se um gajeiro experiente, trepando os enfrechates para envergar a vela de mezena.
Aconteceu que o segundo-imediato, um homem impiedoso e odiado por todos os negros da tripulação, caiu borda fora e afogou-se. Era do conhecimento de todos que a sua queda não tinha sido acidental, porém a tensão na embarcação chegara a um ponto tal que o capitão do navio, um irlandês de Boston com uma língua bastante afiada, deixou a situação passar em branco. Zachary foi o único membro da tripulação a fazer uma oferta quando os objectos pessoais do falecido foram leiloados, ficando assim na posse de um sextante e de um baú cheio de roupa.
Pouco tempo depois, como não fazia parte da tripulação do tombadilho ou do castelo de proa, Zachary passou a ser o elo de ligação entre aquelas duas zonas do navio, exercendo as funções de segundo-imediato. Embora já não fosse o novato do início da viagem, ainda não se sentia à altura das suas novas responsabilidades. Os seus esforços não bastaram para aumentar a moral a bordo e, quando a escuna atracou na Cidade do Cabo, a tripulação desapareceu do dia para a noite, espalhando o boato de que aquela embarcação era um inferno flutuante, com um salário miserável. A reputação do Ibis ficou tão prejudicada que se tornou impossível recrutar um único americano ou europeu, e nem mesmo os piores zaragateiros e beberrões se prestavam a tal. Os únicos marinheiros dispostos a subir a bordo eram os lascarins1.
Era o primeiro contacto de Zachary com aquele tipo de marinheiro. Sempre pensara que os lascarins pertenciam a uma tribo, ou a uma nação, tal como os Cherokees e os Sioux. Descobriu que eles provinham de lugares completamente distintos e que a única coisa que tinham em comum era o oceano Índico. Entre eles achavam-se os chineses e os africanos, os árabes e os malaios, os bengaleses e os goeses, os tâmiles e os povos de Arakan. Chegavam em grupos de dez ou quinze pessoas, com um representante para cada um. Era impossível separar aqueles grupos, tinham de ser contratados por inteiro, e, embora constituíssem uma mão-de-obra barata, tinham as suas próprias ideias sobre a quantidade de trabalho a fazer e a percentagem de homens que partilharia cada tarefa, o que implicava contratar três ou quatro lascarins para tarefas que podiam ser realizadas por um único marinheiro experiente. O capitão comentou que aqueles eram os pretos mais preguiçosos que ele jamais vira, mas, aos olhos de Zachary, eles eram mais ridículos do que propriamente preguiçosos. Para começar, havia a questão das suas indumentárias: andavam sempre descalços e muitos deles pareciam não ter outra roupa senão um bocado de cambraia enrolado à cintura. Uns vestiam uma espécie de fraldas e outros envergavam uns sarongues semelhantes a saiotes, enrodilhados à volta das suas pernas esqueléticas, pelo que, por vezes, o convés parecia a recepção de um bordel. Como é que um homem podia trepar a um mastro descalço e embrulhado num bocado de pano, como se fosse um recém-nascido? Embora fossem tão espertos como qualquer outro marinheiro que Zachary conhecera, ainda assim, ele ficava desconcertado ao vê-los a trabalhar no cordame, pendurados como macacos nos enfrechates. Sempre que os sarongues deles esvoaçavam ao vento, Zachary desviava o olhar, com medo do que pudesse ver.
Com alguma relutância, o capitão decidiu contratar uma unidade de lascarins chefiada por um tal de Serang Ali. Tratava-se de um indivíduo com uma aparência absolutamente incrível, cujo rosto era digno da inveja de Genghis Khan: magro, estreito e comprido, com os olhos pretos muito atentos, encaixados nas maçãs do rosto salientes. O bigode, duas mechas leves como plumas, pendia-lhe até ao queixo, emoldurando-lhe a boca irrequieta, cujos cantos estavam manchados de vermelho-vivo. Era como se ele desse estalidos com os lábios, após beber directamente das veias de uma égua, qual tártaro sedento de sangue. A descoberta de que a substância que tingia a boca do serang era de origem vegetal, em nada tranquilizou Zachary. Certo dia, quando viu o Serang Ali a cuspir um líquido vermelho para o mar, reparou na quantidade de barbatanas de tubarão que se acercaram do navio. Quão inofensivo seria aquela planta, se até um tubarão a confundia com sangue?
A ideia de viajar até à Índia, na companhia daquela tripulação, era tão desagradável que o primeiro-imediato decidiu desaparecer também, abandonando o navio com tanta pressa que deixou um saco cheio de roupa para trás. Quando foi informado de que o imediato deixara a embarcação, o capitão resmungou: «Foi-se embora? Não me admira. Eu também me punha a mexer, se já me tivessem pago.»
O porto de escala seguinte eram as ilhas Maurícias, onde o Ibis deveria trocar a sua carga de sementes por um carregamento de ébano e de madeira. Como não apareceu outro oficial antes da partida da escuna, Zachary fez as vezes do primeiro-imediato; e foi assim que, no decorrer da única viagem, por virtude das deserções e das mortes, ele passou de um simples marinheiro novato à posição de primeiro-marinheiro, e depois de carpinteiro a segundo-imediato, com uma cabina própria. O que mais lhe custou na transição do castelo de proa para a cabina foi o desaparecimento da sua flauta irlandesa algures aquando da mudança, que ele acabou por dar como perdida.
Anteriormente, o capitão ordenara a Zachary para comer as suas refeições na entrecoberta — «Não quero misturas à mesa, mesmo que sejas só um mestiço clarinho» —, mas agora, em vez de comer sozinho, ele insistia para que Zachary se sentasse à sua mesa, onde ambos eram servidos por uma série de grumetes lascarins, um grupo desordenado de laundas e de chuckaroos.
Assim que o navio zarpou, Zachary foi forçado a mais uma aprendizagem, não em termos náuticos, mas em relação aos hábitos da nova tripulação. Em vez dos habituais jogos de cartas dos marinheiros, ouvia-se o ruído seco dos dados, nos jogos de pachcheesi jogados em tabuleiros de xadrez, feitos de corda. O som alegre das canções de bordo deu lugar a novas melodias, estranhas e dissonantes, e o próprio cheiro do barco começou a mudar, com o odor a especiarias a começar a impregnar-se nas madeiras. Responsável pelas provisões do navio, Zachary teve de se familiarizar com os novos mantimentos, totalmente distintos do pão e da carne salgada habituais. Aprendeu a dizer resum, em vez de «rações» e viu-se aflito para proferir palavras como dal, masala e achar. Habituou-se à expressão malum para «imediato», serang para «mestre», tindal para «contramestre» e seacunny para «timoneiro». Viu-se obrigado a memorizar um novo vocabulário de navegação, que soava levemente como a língua inglesa, mas, ao mesmo tempo, não: o cordame passou a ser ringeen, a expressão «alto» era bas, e o grito da ronda do meio-dia passou de «tudo em ordem» para alzbel. O convés era tootuk, e os mastros eram dols; uma ordem passou a ser uma hookum e, em vez de estibordo e bombordo, de proa e popa, Zachary tinha de dizer jamna e dawa, agil e peechil.
Uma coisa que se mantinha inalterável era a divisão da tripulação em duas rondas, cada uma chefiada por um tindal. A maior parte dos assuntos do navio era da responsabilidade dos dois tindals, pelo que pouco se viu do Serang Ali nos primeiros dois dias. Todavia, no terceiro dia, Zachary subiu ao convés, de madrugada, e foi recebido com jovialidade.
— Olá, Malum Zikri! Já comer?
Embora tivesse ficado surpreendido, Zachary deu consigo a falar com o serang com uma descontracção invulgar; parecia que o dialecto daquele homem tinha soltado a sua própria língua.
— De onde és, Serang Ali? — perguntou-lhe.
— Serang Ali ser Rohingya, do lado de Arakan.
— E onde aprendeste a falar dessa maneira?
— Barcos ópio — foi a resposta. — Do lado China, senhor americano falar assim. Asp’rante marinha como Malum Zikri.
— Não sou nenhum aspirante — corrigiu-o Zachary. — Alistei-me como carpinteiro deste navio.
— Ce’to — respondeu o serang, num tom algo paternalista. — Ce’to, tudo mesma coisa. Malum Zikri ser senhor em breve. Não ter mulher?
— Não — replicou Zachary, dando uma gargalhada. — E tu? Serang Ali ter mulher?
— Mulher Serang Ali morrer — respondeu-lhe ele. — Bater bota, ir Céu. Talvez Serang Ali encontrar outra mulher...
Uma semana mais tarde, o Serang Ali abeirou-se novamente de Zachary:
— Malum Zikri! Capitão muito doente. Precisar méd’co. Não comer nada. Fazer muito chichi. Cabina capitão cheirar muito mal.
Zachary encaminhou-se para a cabina do capitão. Este explicou-lhe que não havia qualquer problema, que apenas estava com uma ligeira diarreia. E que não se tratava de disenteria, pois não havia indícios de sangue. «Eu sei tomar conta de mim. Não é a primeira vez que tenho cólicas e diarreia.»
Contudo, alguns dias mais tarde, como o capitão estava demasiado fraco para sair da cabina, Zachary ficou responsável pelo diário de bordo e pelas cartas de navegação. Tendo frequentado a escola até aos doze anos, Zachary era capaz de fazer uma caligrafia bonita, ainda que demorasse algum tempo, pelo que a actualização do diário de bordo não era um problema. Todavia, no que dizia respeito à navegação, a situação era completamente diferente: apesar de ele ter aprendido aritmética no estaleiro, não se sentia muito à vontade com os números. Ainda assim, durante toda a viagem, fez por observar o capitão e o primeiro-imediato, enquanto estes faziam as suas leituras do meio-dia, tendo, por vezes, colocado algumas questões que recebiam resposta de acordo com a disposição dos oficiais, quer por meio de explicações resumidas, quer com maus modos. Servindo-se do relógio do capitão e do sextante que herdara do imediato falecido, Zachary passava imenso tempo a tentar calcular a posição do navio. As suas primeiras tentativas resultaram num pânico total, com os seus cálculos a colocarem a embarcação várias milhas fora de rota. Todavia, quando proferiu a hookum para a mudança de rota, descobriu que a navegação do navio nunca estivera ao seu cargo.
— Malum Zikri pensar lascarim não saber navegar navio? — disse-lhe o Serang Ali, com indignação. — Lascarim saber muito navegação. Malum Zikri ver.
O protesto de Zachary, de que se encontravam cerca de trezentas milhas fora de rota, foi recebido com uma resposta brusca:
— Malum Zikri fazer raio barulho por causa da hookum? Malum Zikri aprender navegar. Não saber navegar. Não ver Serang Ali esperto da cabeça? Levar navio para Por’Li, três dias. Malum Zikri ver.
Precisamente três dias mais tarde, e tal como prometido, as colinas das ilhas Maurícias avistavam-se a jamna, com a cidade de Port Louis aninhada na baía, mais abaixo.
— Homessa! — exclamou Zachary, relutantemente. — Extraordinário. Tens a certeza de que estamos no sítio certo?
— Eu dizer! Serang Ali Número Um navegação!
Posteriormente, Zachary veio a descobrir que o Serang Ali pilotara o navio o tempo todo, utilizando um método de navegação que combinava o cálculo de posição, ou tup ka shoomar, como ele lhe chamava, com a leitura frequente das estrelas.
O capitão achava-se demasiado doente para desembarcar, por isso coube a Zachary tratar dos negócios do proprietário do navio na ilha, incluindo a entrega de uma carta ao dono da plantação, situada a cerca de dez quilómetros de Port Louis. Zachary estava a preparar-se para desembarcar com a carta, quando foi interceptado pelo Serang Ali, que o olhou de cima a baixo, com um ar preocupado.
— Malum Zikri ter problema se ir Por’Li assim.
— Porquê? Não vejo qual é o problema.
— Malum ver. — O Serang Ali deu um passo atrás e examinou Zachary, atentamente. — Que raio roupa ser essa?
Zachary envergava a sua indumentária de trabalho: umas calças de lona e a banyan típica dos marinheiros, uma túnica larga, feita de um algodão grosseiro e pesado, algo desbotada. Após várias semanas no mar, tinha a barba por fazer e o seu cabelo encaracolado estava sujo de óleo, de alcatrão e de sal. Porém, nada daquilo lhe parecia inconveniente; afinal de contas, apenas ia entregar uma carta. Encolheu os ombros e disse:
— O que tem?
— Malum Zikri ir assim Por’Li, já não voltar — avisou o Serang Ali. — Muitos emissários recrutadores em Por’Li. Muito negreiros querer escravos. Malum ser apanhado, ser escravo, levar muitas tareias. Nada bom.
As palavras do serang deram-lhe que pensar. Zachary regressou à sua cabina e examinou as coisas que acumulara aquando da morte e da deserção dos dois imediatos do navio. Um deles era muito vaidoso, e tinha tanta roupa dentro do baú que Zachary se sentiu intimidado. O que é que combinava com o quê? O que vestir a cada altura do dia? Uma coisa era olhar para aquelas peças vistosas nos outros, e outra coisa era vesti-las.
Mais uma vez, o Serang Ali veio em seu auxílio. Entre os lascarins, havia gente com outras capacidades para além da navegação, nomeadamente um kussab que havia trabalhado como criado pessoal do dono de um navio; um camareiro que era também um darzee, e que ganhava algum dinheiro extra a costurar e a remendar peças de vestuário; e um topas que aprendera a arte de barbear e que era o balwar da tripulação. Sob as orientações do Serang Ali, a equipa pôs as mãos ao trabalho, assaltando os sacos e os baús de Zachary, escolhendo roupa, tirando medidas, dobrando e cortando. Enquanto o camareiro-alfaiate e os seus chuckaroos se entretinham com as bainhas e os punhos, o topas-barbeiro conduziu Zachary até aos embornais situados a sotavento e, com a ajuda de alguns laundas, sujeitou-o a uma valente esfrega. Zachary não ofereceu qualquer resistência, até os topas aparecerem com um líquido escuro e perfumado, com a intenção de o despejarem no seu cabelo.
— Eh! O que é isso?!
— Champô — respondeu-lhe o barbeiro, fazendo o gesto de esfregar com as mãos. — Champoar ser muito bom...
— Champô? — Zachary jamais ouvira falar daquela substância. Embora estivesse avesso à ideia, acabou por ceder e, para sua surpresa, não se arrependeu, pois nunca sentira a cabeça tão leve e o seu cabelo nunca cheirara tão bem.
Algumas horas mais tarde, Zachary fitava a sua imagem quase irreconhecível no espelho, vestido com uma camisa de linho branca, umas calças curtas de montar, uma jaqueta assertoada de Verão e um lenço branco impecavelmente atado no pescoço. O cabelo, cortado, penteado e preso com uma fita azul que lhe caía sob as costas, achava-se coberto com um chapéu preto e lustroso. Aos seus olhos, não lhe faltava nada; porém, o Serang Ali ainda não estava satisfeito.
— Não ter relógio? Tiquetique?
— O quê?
— Relógio. — O serang enfiou a mão no seu colete, como se estivesse à procura de um relógio de bolso.
A ideia de ele ter dinheiro para comprar um relógio deu-lhe vontade de rir.
— Não — respondeu-lhe Zachary —, não tenho relógio.
— Ce’to. Malum Zikri esperar um minuto.
O serang expulsou os outros lascarins da cabina e desapareceu durante dez minutos. Quando regressou, trazia algo escondido nas dobras do seu sarongue. Fechou a porta atrás dele, desapertou o nó da cintura e entregou um relógio de prata reluzente a Zachary.
— Com a breca! — A boca de Zachary escancarou-se, ao olhar para aquele relógio, pousado na palma da sua mão, qual ostra resplandecente. As faces revelavam uns desenhos complexos em filigrana e a corrente era composta por três fios de prata, cuidadosamente entrelaçados. Ao abrir a tampa, ele contemplou, incrédulo, os ponteiros em movimento e os dentes da engrenagem.
— É lindíssimo! — Zachary reparou que, no interior da tampa, havia um nome gravado em letras pequenas. Leu-o em voz alta: — Adam T. Danby. Quem era ele? Conhecia-o, Serang Ali?
O serang hesitou por uns instantes e depois abanou a cabeça:
— Não, não. Comprar relógio casa penhores, na Cidade do Cabo. Agora pertencer a Malum Zikri.
— Não posso aceitar, Serang Ali.
— Tudo bem, Malum Zikri — disse o serang, esboçando um raro sorriso. — Não fazer mal.
Zachary estava sensibilizado com aquele gesto.
— Obrigado, Serang Ali. Nunca ninguém me deu nada assim. — Posicionou-se em frente ao espelho, com o relógio na mão e o chapéu na cabeça, e desatou a rir. — Eh! Aposto que vão fazer de mim presidente de câmara.
O Serang Ali acenou afirmativamente.
— Malum Zikri agora ser sahib importante. Muito fino. Se dono plantação tentar recrutar, fazer dumcao.
— Dumcao? — exclamou Zachary. — O que é isso?
— Fazer muito barulho, gritaria. «Dono plantação sacana, fornicador irmã. Eu ser sahib pucka, não me poder recrutar.» Malum Zikri levar pistola. Se sacana tentar prender, disparar cara dele.
Zachary enfiou a pistola no bolso e desembarcou com algum nervosismo. Mas assim que alcançou o cais, apercebeu-se de que ninguém lhe prestava grande atenção. Dirigiu-se para um estábulo, a fim de alugar um cavalo, e o proprietário francês fez-lhe uma vénia, tratando-o por «senhor» e fazendo os possíveis para lhe agradar. Zachary saiu montado a cavalo, com o moço da estrebaria a correr atrás dele, para lhe indicar o caminho.
A cidade era pequena, composta por meia dúzia de casas que se perdiam num amontoado de barracas e de outras habitações semelhantes a cabanas. Do outro lado, o caminho enveredava por entre zonas de floresta densa e canas-de-açúcar altas e emaranhadas. As colinas e os penhascos circundantes tinham uns formatos estranhos e disformes, situados acima das planícies, como se um bestiário de animais gigantescos tivesse sido imobilizado ao tentar escapar das garras da Terra. De vez em quando, ao atravessar os inúmeros campos de canas-de-açúcar, deparava-se com grupos de homens que baixavam as suas gadanhas para o ver passar. Os capatazes inclinavam a cabeça e levavam os chicotes à aba dos seus chapéus, em sinal de respeito, ao mesmo tempo que os trabalhadores o fitavam num silêncio inexpressivo, fazendo-o sentir-se aliviado por ter uma arma no bolso. Ainda Zachary se encontrava a uma longa distância, já a casa da plantação surgia no horizonte, por entre uma avenida de árvores que começavam a perder a sua casca em tons de mel. Ele esperava ver uma mansão, como nas plantações em Delaware e em Maryland, mas aquela casa não possuía pilares majestosos, nem grandes frontões; tratava-se de uma casa de madeira térrea, com uma enorme varanda a toda a volta. O proprietário, Monsieur d’Epinay, encontrava-se sentado na varanda, vestido unicamente com ceroulas e suspensórios. Zachary não deu muita atenção a esse facto, pelo que ficou bastante surpreendido quando o dono da casa se desculpou pela falta de indumentária, explicando, num inglês hesitante, que não esperava a visita de cavalheiros àquela hora do dia. Deixando o seu convidado entregue aos cuidados de uma criada africana, Monsieur d’Epinay entrou em casa e apareceu meia hora depois, completamente vestido, para presentear Zachary com uma refeição composta por vários pratos, todos acompanhados de excelentes vinhos.
Mais tarde, foi com alguma relutância que Zachary olhou para o seu relógio de bolso e anunciou que estava na hora de partir. Ao caminharem para o exterior, Monsieur d’Epinay deu-lhe uma carta que deveria ser entregue ao Sr. Benjamin Burnham, em Calcutá.
— As minhas canas-de-açúcar estão a apodrecer nos campos, senhor Reid — explicou-lhe o plantador. — Diga ao senhor Burnham que preciso de mais homens. Agora que já não podemos ter escravos nas ilhas Maurícias, preciso de coolies, senão estou condenado. Dê-lhe uma palavrinha por mim, está bem?
Juntamente com o aperto de mão de despedida, Monsieur d’Epinay ofereceu-lhe um aviso:
— Tenha cuidado, senhor Reid, esses olhos sempre abertos. As montanhas estão cheias de escurinhos, de bandidos e de escravos em fuga. Um cavalheiro sozinho tem de ter imensa cautela. Nunca largue a sua arma.
Zachary saiu a trote da plantação, com um sorriso nos lábios e a palavra «cavalheiro» a zunir-lhe nos ouvidos. Havia imensas vantagens em ser apelidado daquela forma, vantagens que se tornariam por de mais evidentes quando ele chegasse às docas de Port Louis. Com o cair da noite, as vias estreitas em torno do bazar lascarim encheram-se de mulheres, e a figura de Zachary, envergando a sua jaqueta e o seu chapéu, tinha um efeito electrizante nelas. Como tal, as roupas passaram rapidamente a figurar na sua lista de coisas dignas de louvor. Graças à magia delas, ele, Zachary Reid, quase sempre ignorado pelas prostitutas de Fell’s Point, tinha agora várias mulheres agarradas aos seus braços; elas enfiavam os dedos por entre os seus cabelos, premiam as ancas de encontro ao seu corpo, e brincavam distraidamente com os botões feitos de corno das suas calças de seda. Uma dessas mulheres, que dava pelo nome de Madagascar Rose, era a rapariga mais bonita que ele alguma vez vira, com flores atrás das orelhas e os lábios pintados de vermelho. Após dez meses seguidos no mar, Zachary queria ser arrastado para o quarto dela, enfiar o nariz entre os seus seios cor de jasmim e passar a língua sobre os seus lábios cor de baunilha. Porém, de repente, apareceu o Serang Ali, vestido com o seu sarongue, a bloquear-lhe a passagem, com o rosto esguio e aquilino comprimido num esgar de reprovação. Assim que o avistou, a rosa de Madagáscar murchou e foi-se embora.
— Malum Zikri não ter raio cérebro? — perguntou-lhe o serang, com as mãos na cintura. — Ter água na cabeça? Querer mulher-flor? Não ser um sahib importante agora?
Zachary não estava com disposição para ouvir lições de moral.
— Não me chateies, Serang Ali! Não sabes que nunca se arranca um marinheiro prestes a entrar numa gruta?
— Porquê Malum Zikri pagar por cambalhotas? — inquiriu o serang. — Porquê não ver exemplo polvo? Ser peixe muito feliz.
Aquela observação deixou Zachary completamente atónito.
— O polvo? — perguntou-lhe. — Mas o que é que o polvo tem a ver para o caso?
— Não ver? — replicou o Serang Ali. — O senhor Polvo ter oito mãos. Ser muito feliz. Sempre sorriso. Porquê Malum não fazer igual? Dez dedos não chegar?
Zachary atirou os braços no ar, num gesto de resignação, e deixou-se levar daquele lugar. No caminho de regresso ao navio, o Serang Ali passou o tempo a sacudir-lhe o pó das roupas, a compor-lhe o lenço e a pentear-lhe o cabelo. Era como se Zachary fosse uma propriedade sua, por tê-lo ajudado a transformar-se num sahib. Por muito que Zachary barafustasse e lhe batesse nas mãos, o serang não parava quieto, como se estivesse perante uma figura da nobreza, equipada com tudo o que era preciso para ser bem-sucedida na vida. Ocorreu a Zachary que esse deveria ser o motivo por que o Serang Ali quisera afastá-lo das mulheres fáceis do bazar; também o seu acasalamento teria de ser combinado e supervisionado. Pois estava redondamente enganado.
O capitão, ainda enfermo, estava ansioso para chegar a Calcutá, e queria içar a âncora o mais depressa possível. Ao tomar conhecimento da decisão do capitão, o Serang Ali apressou-se a discordar:
— Capitão muito doente — disse ele. — Se não chamar méd’co, ele morrer. Bater bota depressa.
Zachary estava disposto a ir procurar um médico, mas o capitão não o deixava.
— Não quero cá nenhuma sanguessuga a enfiar-me o dedo pelo balaústre acima. Eu estou bem, é só uma diarreia. Assim que zarparmos, recuperarei as minhas forças.
No dia seguinte, a brisa aumentou e o Ibis fez-se ao mar. O capitão conseguiu arrastar-se até ao tombadilho e declarou sentir-se a toda a vela, mas o Serang Ali não era da mesma opinião.
— Capitão ter cólera. Malum Zikri ver... Língua dele ser preta. Melhor Malum Zikri não chegar perto capitão. — Mais tarde, o serang deu a Zachary uma decocção malcheirosa, feita de raízes e de ervas. — Malum Zikri beber para não ficar doente. Cólera muito terrível.
Seguindo os conselhos do serang, Zachary mudou de dieta, trocando os guisados típicos dos marinheiros, à base de vegetais, de pão e de carne seca, por um cardápio lascarim de karibat e de kedgeree, uns pratos picantes feitos com arroz, lentilhas e picles, e servidos com pedaços de peixe, fresco ou seco. No início, Zachary teve alguma dificuldade em habituar-se àqueles sabores tão condimentados, mas apercebeu-se rapidamente de que as especiarias lhe estavam a fazer bem, purgando-lhe as entranhas, pelo que depressa se habituou àqueles paladares pouco familiares.
Doze dias mais tarde, tal como o Serang Ali previra, o capitão morreu. No caso dele, os pertences não foram leiloados, mas atirados borda fora, e a cabina principal foi lavada e arejada, para ser cauterizada pelo ar salgado.
Quando o corpo foi deitado ao mar, Zachary leu uma passagem da Bíblia, e fê-lo com uma emoção tal que recebeu um elogio por parte do Serang Ali.
— Malum Zikri parecer padre importante. Porque não cantar canção igreja?
— Não sei — respondeu-lhe Zachary. — Nunca soube cantar.
— Ce’to — disse o Serang Ali. — Eu ter amigo cantor. — Fez sinal a um grumete alto e esquelético chamado Rajoo. — Este launda pertencer missão. Padre ensinar samo.
— Salmo? — perguntou Zachary, surpreso. — Qual deles?
Em jeito de resposta, o jovem lascarim começou a cantar: «Porque é que os pagãos se enraivecem...»
Com receio que o sentido do salmo passasse despercebido a Zachary, o serang teve o cuidado de fazer a tradução:
— Aquilo querer dizer — sussurrou ele ao ouvido de Zachary —, porquê pagãos fazer tanto barulho? Não ter trabalho para fazer?
Zachary soltou um suspiro.
— Parece-me que está tudo dito.
* * *
Quando o Ibis lançou ferro na foz do rio Hooghly, haviam passado onze meses desde a sua partida de Baltimore, e os únicos membros da tripulação original que restavam eram Zachary e Crabbie, o gato de cor ruiva.
Com Calcutá a dois ou três dias de distância, Zachary estava mais do que ansioso por se pôr a caminho. Vários dias passaram, enquanto a tripulação esperava impacientemente pela chegada de um piloto. Zachary estava a dormir na sua cabina, vestido apenas com um sarongue, quando o Serang Ali entrou de rompante e lhe disse que um barco bandar havia atracado junto a eles.
— Chegou o s’nhor Dumcao.
— O senhor quem?
— Piloto. Fazer muita gritaria — explicou-lhe o serang. — Malum Zikri vai ouvir.
Zachary inclinou ligeiramente a cabeça e escutou uma voz que ecoava no portaló:
— Eu seja cego s’alguma vez vi um grupo de sacanas tão miserável com’este! Merecem é um valente pontapé nesses cus, seus preguiçosos! Do qu’é que estão à espera, vestidos com esses farrapos e c’os penduricalhos à bolina, comigo especado aqui ao sol?!
Vestindo uma camisola interior e umas calças, Zachary saiu da sua cabina e viu um inglês robusto e com um ar irritado a percorrer o convés, com uma bengala feita de junco de Malaca. Achava-se vestido de uma forma extravagantemente antiquada, com o colarinho da camisa subido, um casaco de abas e uma faixa à cintura. O seu rosto, com uma tonalidade suína, as patilhas de carneiro2, as bochechas carnudas e os lábios cor de fígado, parecia ter sido «montado» na bancada de um talho. Atrás dele, via-se um grupo de carregadores e de lascarins, carregados com recipientes, malas de couro grandes e outra bagagem.
— Mas vocês são todos débeis mentais ou quê?! — As veias das fontes do piloto estavam salientes, enquanto ele gritava para a tripulação que não se mexia. — Onde está o imediato? Já lhe deram a kubber de qu’o meu barco chegou? Não fiquem aí especados, toc’à mexer, antes qu’eu vos dê c’a minha bengala, sua cambada de labregos! Ponho-vos a cantar qu’é um instante!
— Peço desculpa, senhor — disse Zachary, dando um passo em frente. — Peço desculpa por tê-lo feito esperar.
O piloto semicerrou os olhos, em jeito de desagrado, fitando as roupas engelhadas e os pés descalços de Zachary.
— Com a breca, homem! — exclamou ele. — Desleixou-se um bocado, não? Não pode ser assim, afinal de contas, é o único sahib a bordo. A não ser que queira ser gozado p’los seus escurinhos.
— Peço desculpa, cavalheiro... Estou só um pouco desalinhado. — Zachary estendeu-lhe a mão. — Sou o segundo-imediato, Zachary Reid.
— Chamo-me James Doughty — replicou o recém-chegado, apertando vigorosamente a mão a Zachary. — Antigo piloto do Bengal River Service e actual arkati principal da Burnham Bros. O Burra Sahib, ou seja, o senhor Ben Burnham, pediu-me pr’assumir o comando deste navio. — Acenou levemente ao lascarim posicionado atrás do leme. — Aquele é o meu timoneiro; sabe exactamente o que fazer. Era capaz de subir o rio Brahmaputra c’os olhos fechados. O que me diz de deixarmos a navegação entregue ao labrego e irmos à procura d’uma pinga de loll-shrub?
— Loll-shrub? — Zachary coçou o queixo. — Lamento, senhor Doughty, mas não faço ideia do que isso é.
— Clarete, meu rapaz — respondeu-lhe o piloto. — Por acaso não tem uma pinguinha disso a bordo? Senão, um copo de brande também serve.