Numa cerimónia acelerada, murcha e com poucas surpresas, o melhor veio mesmo no final: ‘Estado de Guerra’, o relato dinâmico e competente de um grupo de soldados no Iraque, foi o grande vencedor da noite deste domingo, no Kodak Theatre, de Los Angeles. No total foram seis estatuetas douradas, incluindo a de Melhor Filme, deixando para trás o grande rival: o colossal épico a 3D, ‘Avatar’, de James Cameron, que saiu como grande perdedor – recebeu apenas três Óscares técnicos - de um serão conduzido de forma pouco impressionante pelos actores Steve Martin e Alec Baldwin.
Quando se assinala o Dia Internacional da Mulher, Kathryn Bigelow fez história ao ser a primeira das 82 edições dos Óscares a ser agraciada com o prémio de Melhor Realização. A cantora Barbra Streisand, que lhe entregou o galardão, deixou desde logo o aviso assim que abriu o envelope: “Chegou a hora”, exclamou, numa alusão ao pioneirismo conquistado pela ex-mulher de James Cameron. Emocionada, a realizadora de 58 anos deixou uma dedicatória sensível: 'Para os homens e mulheres que arriscam todos os dias a sua vida no cenário de guerra, seja no Iraque, no Afeganistão ou em outras partes do Mundo. Voltem em segurança', disse Bigelow.
Antes, ‘Estado de Guerra’, que partia com nove nomeações tal como ‘Avatar’, já tinha conquistado outras quatro estatuetas douradas: Melhor Argumento Original (de Mark Boal), Montagem, Som e Efeitos Sonoros. Um sinal de que as polémicas que envolveram o filme nos últimos dias – um produtor ao apelar ao voto por e-mail chegou a ser banido da cerimónia! – não surtiram efeito. A mensagem passou: um filme de guerra veio como sinal de paz.
A meio da cerimónia, ‘Avatar’ ainda chegou a estar empatado, mas a partir do Óscar de Efeitos Especiais, perdeu todo o gás. Resta-lhe ainda as distinções na Fotografia e Direcção Artística. James Cameron “afundou-se”.
BULLOCK PASSA DO PIOR PARA O MELHOR EM 24 HORAS
Caso de maior elasticidade artística não há: apenas 24 horas depois de ter sido eleita a Pior Actriz do ano nos Razzies, com a comédia ‘All About Steve’, Sandra Bullock ganhou o Óscar de Melhor Actriz e protagonizou o choro sincero da noite. “Mereço mesmo isto?', começou por dizer. Agradeceu ainda às mães que cuidam dos seus filhos de onde quer que eles venham e lembrou: “Todos precisamos de amor.”
Também sem surpresas, o veterano Jeff Bridges ganhou o Óscar por ‘Crazy Heart’, ainda por estrear. Na pele de um cantor folk no filme, Bridges desfez-se no palco em elogios aos pais já falecidos, Lloyd e Dorothy Dean Bridges. “Obrigado pai e mãe por me terem conduzido para esta profissão. Eles amavam o showbiz”, recordou. ‘Crazy Heart’ sai desta gala com dois prémios (o outro foi para o tema musical ‘The Weary Kind’), tal como ‘Precious’ (Melhor Actriz Secundária foi Mo’Nique e Melhor Argumento Adaptado) e ‘Up – Altamente! (Melhor Filme de Animação e Melhor Banda Sonora).
Outro grande derrotado da noite? Quentin Tarantino e o seu ‘Sacanas Sem Lei’, que estava indicado para oito Óscares. Apenas venceu um: Melhor Actor Secundário, Christoph Waltz. Premiados também com uma estatueta estiveram ainda ‘A Jovem Vitória’ (Melhor Guarda-Roupa) e ‘Star Trek’ (Melhor Maquilhagem). Antes deste conseguir o seu galardão, houve tempo para um dos raros momentos mesmo cómicos da noite: o actor Ben Stiller surgiu azul, praticamente irreconhecível, como uma personagem do planeta Na’vi de ‘Avatar’. Além de algum desconforto com a sua imagem Stiller aproveitou para provocar o realizador James Cameron, pedindo-lhe para este lhe morder a cauda.
Na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, o argentino Juan José Campanella levou a melhor com ‘El Secreto de Sus Ojos’, deixando o favorito ‘O Laço Branco’ de Michael Haneke para trás. Aqui houve nova provocação para Cameron: : “Quero agradecer à Academia por não entender Na'vi como uma língua estrangeira”, disse Campanella, algo atrapalhado com o seu inglês.
ALEC BALDWIN E STEVE MARTIN NA CAMA
Mais curto do que é costume, o espectáculo teve na dupla Steve Martin e Alec Baldwin uma interacção muito morna. Se as piadas iniciais deixam pouca memória (com excepção da alusão aos “judeus” presentes na plateia), só mesmo a homenagem aos filmes de terror fica para mais tarde recordar: numa paródia ao sucesso da pequena obra ‘Actividade Paranormal’, Steve Martin e Alec Baldwin apareceram numa ‘suposta’ gravação caseira, onde estão a dormir na mesma cama. Logo a seguir, viu-se os dois veteranos em cenas hilariantes, quase em poses sexuais, até que Steve Martin dá uma chapada a Baldwin, que cai da cama. Apesar deste número de comédia física, o resto soube a muito pouco.
A homenagem ao falecido realizador John Hughes foi bem metida – até deu para voltar a ver Macaulay Culkin, outrora o pequeno reguila de ‘Sozinho em Casa’ - , mas tudo o mais (números musicais incluídos) foi revelado sem chama. A vontade de não perder tempo deu a estes Óscares o perigoso cunho da monotonia. Menos para Kathryn Bigelow, que teve uma noite em grande.
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Comentário do realizador António Ferreira