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Parte 2
Capítulo 21
Amsterdão, Países Baixos
19:30
Stephanie Nelle saiu do táxi e puxou rapidamente para cima o
capuz da gabardina. Caía uma chuva de Abril e a água acumulava-se
entre as pedras da calçada, a correr furiosamente em direcção aos
canais da cidade. A origem de toda aquela água, uma tempestade
desagradável que chegara do mar do Norte, estava agora escondida
por nuvens índigo mas um chuviscar permanente era visível entre a
penumbra dos candeeiros de rua.
Impeliu-se por entre a chuva, a enfiar as mãos nuas nos bolsos do
casaco. Atravessou uma ponte pedestre arqueada, entrou na Rembrandtsplein,
e reparou que a tarde fria não fizera diminuir as multidões
em frente dos peep shows, clubes de alterne, bares de gays e clubes
de striptease.
Mais para o interior do bairro de prostituição passou por bordéis,
as suas janelas panorâmicas cheias de raparigas que prometiam satisfação
com couro e rendas. Numa delas, uma mulher asiática vestida
com um fato sadomasoquista justo, estava sentada numa cadeira
almofadada e, indolente, virava as páginas de uma revista.
Tinham dito a Stephanie que o fim de tarde não era o momento
mais ameaçador para visitar o conhecido bairro. O desespero matinal
dos toxicodependentes de passagem e a ansiedade nervosa do início
da noite dos chulos que aguardavam o negócio nocturno era normalmente
mais intenso. Mas tinham-na avisado que a extremidade norte,
junto do Nieumarkt, numa zona mesmo atrás das multidões exsudava
constantemente uma sensação de ameaça. Por isso, manteve-se alerta
ao atravessar aquela linha invisível. Os olhos corriam-lhe de um lado
para o outro, como os de um gato à caça, o seu trajecto a direito em
direcção ao café na ponta mais afastada da rua.
O Jan Heuval ocupava o piso térreo de um armazém de três pisos.
Um café castanho, um entre centenas que salpicavam o Rembrandtsplein.
Empurrou a porta de entrada e reparou imediatamente no
cheiro a cannabis bem como na ausência de um letreiro a dizer NO
DRUGS PLEASE.
O café estava cheio, o ar quente saturado com uma neblina alucinogénia
que cheirava a nylon chamuscado. O cheiro a peixe frito e
castanhas assadas misturava-se com os vapores intoxicantes, e sentiu
os olhos arderem. Puxou o capuz para trás e sacudiu a chuva para os
azulejos já molhados da entrada.
Depois viu Klaus Dyhr. A meio da casa dos trinta, cabelo loiro,
com um rosto pálido e batido pelo tempo – exactamente como lhe
fora descrito.
Não pela primeira vez lembrou-se porque estava ali. A retribuir
um favor. Cassiopeia Vitt pedira-lhe para contactar Dyhr. E como
devia pelo menos um favor à amiga, não podia recusar o seu pedido.
Antes de efectuar o contacto fizera uma investigação e ficara a saber
que Dyhr nascera na Holanda, fora educado na Alemanha e era
químico numa fábrica de plásticos local. A sua obsessão era a numismática
– supostamente possuía uma impressionante colecção –
e uma moeda em particular chamara a atenção da sua amiga
muçulmana.
O holandês encontrava-se sozinho junto de uma mesa que lhe
chegava ao peito a embalar uma cerveja preta e a mastigar peixe frito.
Um cigarro enrolado ardia num cinzeiro, e o fumo verde e denso que
se erguia em espiral não era de tabaco.
– Chamo-me Stephanie Nelle – disse ela em inglês. – A mulher
que lhe ligou.
– Disse que estava interessada em comprar.
Ela captou o tom brusco que dizia, «Diga-me o que quer, pague-
-me, e eu sigo o meu caminho.» Também reparou nos olhos vidrados
do homem, algo que ele não conseguiria evitar. Até ela estava a começar
a sentir um certo atordoamento.
– Tal como disse ao telefone, quero o medalhão do elefante.
Ele engoliu uma golada de cerveja.
– Porquê? Não tem qualquer importância. Tenho muitas outras
moedas muito mais valiosas. A bons preços.
– Tenho a certeza que sim. Mas quero o medalhão. Disse que
estava à venda.
– Disse que dependia daquilo que queria pagar.
– Posso vê-lo?
Klaus enfiou a mão no bolso. Aceitou aquilo que ele lhe estendeu
e estudou o medalhão oblongo através do estojo plástico. De um lado
um guerreiro, do outro um elefante de guerra a desafiar um cavaleiro.
Com o tamanho aproximado de uma moeda de cinquenta cêntimos,
as imagens quase tinham desaparecido.
– Não sabe mesmo o que é isso, pois não? – perguntou Klaus.
Decidiu ser honesta.
– Estou a fazer isto para outra pessoa.
– Quero seis mil euros.
Cassiopeia dissera-lhe para ela pagar aquilo que ele pedisse. O preço
era irrelevante. Mas ao ouvir o preço exorbitante, perguntou-se porque
é que algo tão insignificante teria uma tão grande importância.
– Só se conhecem oito – disse ele. – Seis mil euros é uma pechincha.
Apenas oito?
– Para quê vendê-la?
Ele mexeu na beata incandescente, puxou uma baforada profunda,
susteve-a, depois libertou devagar um fumo denso.
– Preciso do dinheiro. – Os olhos vidrados baixaram-se e olhou
para a cerveja.
– As coisas estão más? – perguntou ela.
– Parece que isso lhe interessa.
Dois homens flanquearam Klaus. Um era loiro, o outro bronzeado.
Os seus rostos e feições eram uma mistura conflituosa de árabe e asiático.
No exterior, a chuva continuava a cair mas os casacos dos homens
estavam secos. O loiro agarrou o braço de Klaus, e uma ponta e mola
foi encostada ao estômago do homem. O bronzeado passou um braço
à volta dela num abraço aparentemente amistoso e aproximou a ponta
de outra navalha das costelas de Stephanie, a pressionar a lâmina contra
o casaco.
– O medalhão – disse o loiro, a fazer um movimento com a
cabeça. – Na mesa.
Ela decidiu não discutir e calmamente seguiu as suas ordens.
– Agora vamo-nos embora – disse o bronzeado, a guardar a moeda.
O seu hálito fedia a cerveja. – Fiquem aqui.
Não tinha qualquer intenção de os desafiar. Sabia respeitar as
armas que lhe apontavam.
Os homens atravessaram o café até à porta da rua e saíram.
– Levaram a minha moeda – disse Klaus, a voz a erguer-se-lhe.
– Vou atrás deles.
Ela não conseguia decidir se era uma loucura ou a droga a
falar.
– E se me deixasse tratar disso?
Ele avaliou-a com uma expressão desconfiada.
– Garanto-lhe – disse ela – que vim preparada.
Malone acabou de jantar. Estava sentado no Café Norden, um
restaurante de dois pisos virado de frente para o coração do Højbro
Plads. A noite tornara-se desagradável devido a um frio aguaceiro de
Abril que se abatera sobre a praça quase vazia da cidade. Estava sen-
tado, alto e seco, junto a uma janela aberta no piso superior a gozar
o prazer de ver a chuva cair.
– Obrigado por nos teres ajudado hoje – disse Thorvaldsen do
outro lado da mesa.
– Por quase ter explodido? Duas vezes? Para que é que os amigos
servem?
Acabou o que restava da sopa de tomate. O restaurante oferecia
uma das melhores que ele tinha alguma vez comido. Estava cheio de
interrogações mas sabia que, como era hábito em Thorvaldsen, as respostas
seriam poucas.
– Quanto estávamos em casa, tu e Cassiopeia falaram do cadáver
de Alexandre Magno. Que sabiam onde se encontrava. Como é que
isso é possível?
– Conseguimos ficar a saber muito acerca do assunto.
– O amigo de Cassiopeia no museu em Samarcanda.
– Mais do que um amigo, Cotton.
Ele já tinha percebido isso.
– Quem era ele?
– Ely Lund. Cresceu aqui em Copenhaga. Ele e Cai eram amigos.
Malone captou a tristeza na voz de Thorvaldsen quando mencionou
o filho falecido. O seu estômago também se revirou ao pensar naquele
dia há dois anos, na Cidade do México, quando o jovem fora assassinado.
Malone estivera lá, numa missão do Magellan Billet, e conseguira
abater os atiradores mas uma bala também matara o jovem. Perder
um filho. Não conseguia imaginar Gary, o filho de quinze anos, a
morrer.
– Cai queria servir o governo e Ely adorava História. Obteve um
doutoramento e tornou-se um perito em antiguidade grega. Trabalhou
em vários museus europeus antes de Samarcanda. O museu cultural
daquela cidade tem uma soberba colecção e a Federação Centro-
Asiática criou incentivos às ciências e à arte.
– Como é que Cassiopeia o conheceu?
– Fui eu que os apresentei. Há três anos. Achei que seria bom para
ambos.
– O que é que aconteceu?
– Ele morreu. Há pouco menos de dois meses. Ela reagiu mal.
– Amava-o?
Thorvaldsen encolheu os ombros.
– Com ela é difícil saber-se. Raramente deixa que as emoções
venham à superfície.
Mas tinham vindo anteriormente. A sua tristeza a ver o museu
arder. O olhar distante sobre o canal. A sua recusa em olhá-lo nos olhos.
Nada dito. Apenas sentido.
Depois de amarrarem o barco a motor no pontão de Christiangade,
Malone quisera respostas mas Thorvaldsen prometera-lhe que
durante o jantar tudo lhe seria explicado. Assim, fora de novo conduzido
até Copenhaga, dormira um bocado, depois trabalhara na livraria
durante o resto do dia. Dirigira-se algumas vezes à secção de história
e encontrara alguns livros acerca de Alexandre e da Grécia. Mas
questionara-se sobretudo com aquilo que Thorvaldsen quisera dizer
com Cassiopeia precisa da tua ajuda.
Agora estava a começar a compreender.
Pela janela aberta, viu Cassiopeia a sair da livraria do outro lado da
praça a correr através da chuva, algo embrulhado num saco plástico
enfiado debaixo do braço. Trinta minutos antes, dera-lhe a chave da
loja para que ela pudesse usar o computador e o telefone.
– Encontrar o corpo de Alexandre – disse Thorvaldsen –, centra-se
em Ely e nas páginas do manuscrito que ele descobriu. Inicialmente
Ely pediu a Cassiopeia que localizasse os medalhões do elefante.
Mas quando começámos a segui-los, descobrimos que mais alguém
andava à procura deles.
– Como é que Ely associou os medalhões ao manuscrito?
– Ele examinou o que se encontrava em Samarcanda e descobriu
as microletras. ZH. Têm uma qualquer ligação com o manuscrito.
Depois da morte de Ely, Cassiopeia quis saber o que estava a
acontecer.
– Então procurou-te em busca de ajuda?
Thorvaldsen assentiu.
– Não podia recusar.
Sorriu. Quantos amigos iriam comprar um museu inteiro e duplicarem
tudo o que se encontrava no interior apenas para que tudo isso
fosse completamente destruído por um incêndio?
Cassiopeia desapareceu sob o beiral da janela. Ouviu a porta do
restaurante a abrir e a fechar, depois passos a subirem a escadaria metálica
que conduzia ao segundo piso.
– Hoje estás a molhar-te muito – disse Malone, quando ela chegou
ao cimo.
Tinha o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo, as calças de ganga
e camisola de malha ensopadas.
– É difícil para uma miúda manter-se gira.
– Na verdade, não.
Ela lançou-lhe um olhar.
– Hoje estás um encanto.
– Tenho os meus dias.
Tirou o portátil dele do saco plástico e disse a Thorvaldsen:
– Fiz o download de tudo.
– Se soubesse que o ias trazer debaixo de toda aquela chuva – disse
Malone –, teria insistido num depósito de segurança.
– Precisas de ver isto.
– Contei-lhe de Ely – disse Thorvaldsen.
A sala de jantar estava escura e deserta. Malone jantava ali três ou
quatro vezes por semana, sempre à mesma mesa, sempre à mesma hora.
Gostava da solidão.
Cassiopeia encarou-o.
– Desculpa – disse ele, e estava a falar a sério.
– Obrigada.
– Eu é que agradeço teres-me salvo a pele.
– Terias descoberto uma maneira de te safares. Eu apenas acelerei
as coisas.
Malone recordou-se da situação em que se encontrara e não se
sentiu tão seguro acerca da conclusão dela.
Queria fazer mais perguntas acerca de Ely Lund, curioso em saber
como é que aquele conseguira abrir o cofre emocional dela. Tal como
o seu, tinha uma enorme diversidade de trancas e alarmes. Mas manteve-
se calado. Como sempre, quando os sentimentos eram inevitáveis.
Cassiopeia ligou o portátil e fez aparecer no monitor várias imagens
digitalizadas. Palavras. De um cinzento fantasmagórico, desfocadas
nalguns lugares, e todas em grego.
– Uma semana, ou perto disso, depois da morte de Alexandre
Magno, em 323 a.e.c. – disse Cassiopeia –, embalsamadores do
Egipto chegaram à Babilónia. Embora fosse Verão, e quente como o
inferno, encontraram o cadáver dele incorrupto, a sua compleição
como se ainda estivesse vivo. Aquilo foi considerado como um sinal
dos deuses da grandiosidade de Alexandre.
Malone já lera aquilo anteriormente.
– Grande sinal. Provavelmente ainda estava vivo, num coma terminal.
– Essa é a teoria moderna. Mas naquele tempo essa situação clínica
era desconhecida. Então, efectuaram o seu dever e mumificaram
o corpo.
Ele sacudiu a cabeça.
– Espantoso. O maior conquistador da sua época morto por
embalsamadores.
Cassiopeia sorriu, como se a concordar.
– Normalmente, a mumificação demora setenta dias para que o
corpo seque antes de uma maior decomposição. Mas com Alexandre,
utilizaram um método diferente. Foi submerso em mel branco.
Ele já ouvira falar do mel, uma substância que não apodrecia.
O tempo cristalizava-a mas nunca a destruía, e a sua composição
básica poderia ser facilmente reconstituída com calor.
– O mel – disse ela – teria preservado Alexandre, interna e externamente,
melhor do que a mumificação. O corpo acabou por ser
embrulhado em algodão ou linho dourado, depois colocado num sarcófago
de ouro, vestido com uma túnica e uma coroa, e rodeado por
mais mel. Foi aí que ficou, na Babilónia, durante um ano enquanto
se construía uma carruagem incrustada de jóias. Depois o cortejo
fúnebre partiu em direcção ao Egipto.
– E foi nessa altura que se iniciaram os jogos fúnebres – disse ele.
Cassiopeia assentiu.
– Uma força de expressão. Pérdicas, um dos generais de Alexandre,
convocou uma reunião de emergência dos Companheiros no dia
que se seguiu à morte de Alexandre. Roxana, a mulher asiática de Alexandre,
estava grávida de seis meses. Pérdicas queria esperar pelo nascimento
e depois decidir o que fazer. Se a criança fosse um rapaz, ele
seria o herdeiro por direito. Mas outros discordaram. Não iam ter um
soberano em parte bárbaro. Queriam Filipe, o meio-irmão de Alexandre
como o seu rei embora o homem fosse, segundo todos os relatos,
mentalmente doente.
Malone recordou-se dos pormenores do que lera anteriormente.
Houvera, na verdade, lutas à volta do leito de morte de Alexandre. Pérdicas
convocara então uma assembleia de macedónios e, para manter
a ordem, colocou o cadáver de Alexandre no seu centro. A assembleia
votou para que fosse abandonada a já planeada campanha árabe e
aprovou a divisão do império. Foram concedidos governos aos Companheiros.
Irromperam rapidamente rebeliões enquanto os generais
lutavam entre eles. No final do Verão, Roxana deu à luz um rapaz a
quem chamou Alexandre IV. Para manter a paz foi concebido um
acordo conjunto onde a criança e Filipe, o meio-irmão, seriam coroados
reis embora os Companheiros governassem as suas respectivas
regiões do império, sem se preocuparem uns com os outros.
– Foi seis anos depois – perguntou Malone – que o meio-irmão foi
assassinado por Olímpia, mãe de Alexandre? Ela odiava aquela criança
desde que nascera, já que Filipe da Macedónia se divorciara dela para
casar com a mãe do rapaz. Passados alguns anos, Roxana e Alexandre
IV foram ambos assassinados. Nenhum deles alguma vez governou o
que quer que fosse.
– Por fim, a irmã de Alexandre também foi assassinada – disse Thorvaldsen.
– Toda a sua linhagem erradicada. Não sobreviveu nem um
A Traição Veneziana
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único herdeiro legítimo. E o maior império do mundo caiu em
ruínas.
– E o que é que tudo isso tem a ver com os medalhões do elefante?
E que possível relevância pode ter isso hoje em dia?
– Ely acreditava que poderia ter uma enorme importância –
disse ela.
Ele percebeu que havia mais.
– E em quem acreditas tu?
Cassiopeia manteve-se calada como se insegura, mas sem querer
expressar as suas reservas.
– Está tudo bem – disse ele. – Diz-me quando estiveres preparada.
Depois ocorreu-lhe qualquer coisa e disse a Thorvaldsen:
– E quanto aos dois últimos medalhões que se encontram na
Europa? Ouvi-te a perguntar a Viktor a respeito deles. Provavelmente
também vai atrás desses.
– Quanto a isso, estamos à frente dele.
– Já alguém os tem?
Thorvaldsen olhou para o relógio.
– Espero que neste momento, pelo menos, um já esteja na posse
de alguém.
Stephanie saiu do café para a chuva. Ao puxar o capuz por cima da
cabeça, encontrou o auricular e falou para o microfone escondido sob
o casaco.
– Dois homens acabaram de sair daqui. Têm aquilo que eu quero.
– Cinquenta metros mais à frente, a dirigirem-se para a ponte – foi
a resposta.
– Detenham-nos.
Apressou-se noite dentro.
Trouxera com ela dois agentes dos Serviços Secretos, requisitados
do destacamento ultramarino do presidente Danny Daniels. Um mês
antes o presidente tinha pedido que ela o acompanhasse à cimeira
económica anual europeia. Líderes nacionais tinham-se reunido a sessenta
quilómetros a sul de Amesterdão. Naquela noite, Daniels
encontrava-se num jantar formal em Haia e em perfeita segurança, e
por isso ela conseguira arranjar aqueles dois assistentes. Apenas para
jogar pelo seguro, dissera-lhes, e prometera-lhes de seguida um jantar
onde eles quisessem.
– Estão armados – disse um dos agentes ao ouvido dela.
– Facas no café – disse ela.
– Armas de fogo aqui fora.
Sentiu a espinha endurecer. Aquilo estava a tornar-se desagradável.
– Onde é que estão?
– Na ponte pedestre.
Ela ouviu tiros e tirou a Beretta do Magellan Billet de debaixo do
casaco.
Mais tiros.
Deu a volta à esquina.
Havia pessoas a debandar. Loiro e Bronzeado estavam agachados na
ponte atrás de um varandim de ferro que lhes chegava ao peito, a disparar
contra os dois homens dos Serviços Secretos, um de cada lado do canal.
Estilhaçaram-se vidros, quando uma das balas atingiu um dos bordéis.
Uma mulher gritou.
Mais pessoas assustadas passaram por Stephanie a correr. Baixou a
arma e escondeu-a de lado.
– Vamos conter isto – disse ela para o microfone.
– Diz-lhe isso a eles – respondeu um dos agentes,
Na semana anterior, quando concordara em fazer a Cassiopeia o
favor não vira nisso qualquer mal, mas um dia antes algo lhe dissera
para estar preparada em especial quando se lembrou que Cassiopeia
dissera que ela e Henrik Thorvaldsen apreciariam esse gesto. Qualquer
coisa em que Thorvaldsen estivesse envolvido significava sarilhos.
Mais tiros vindos da ponte.
– Não vão conseguir sair daí – gritou ela.
O Loiro virou-se e apontou-lhe a arma.
Ela mergulhou num recanto mais baixo. Uma bala despedaçou os
tijolos a poucos metros de distância. Agarrou-se às escadas e esgueirou-
se para cima. A chuva caía em torrentes pelos degraus e ensopava-
-lhe a roupa.
Disparou dois tiros.
Agora os dois homens encontravam-se no centro do triângulo.
Sem saída.
O Bronzeado mudou de lugar a tentar diminuir a sua exposição,
mas um dos agentes atingiu-o no peito. O homem cambaleou até
outra bala o enviar por cima do corrimão da ponte, o corpo a dobrar-
-se sobre um lado e a embater no canal.
Maravilhoso. Agora eram cadáveres.
O Loiro correu até ao corrimão e tentou olhar por cima dele. Parecia
querer saltar, mas mais tiros mantiveram-no preso no mesmo sítio.
Endireitou-se, depois começou a correr em frente, em direcção à
extremidade mais afastada da ponte a disparar indiscriminadamente.
O agente dos Serviços Secretos à sua frente respondeu com mais tiros,
enquanto aquele ao lado dela se apressava na mesma direcção e fazia
o homem cair atingindo-o pelas costas com três tiros.
Ouviram-se sirenes.
Ela saltou da sua posição e correu até à ponte. O Loiro caíra sobre
as pedras, a chuva a lavar o sangue que lhe escorria do corpo. Acenou
para que os agentes se aproximassem.
Os dois homens correram até junto dela.
O Bronzeado boiava de rosto para baixo no canal.
Luzes vermelhas e azuis surgiram a cinquenta metros de distância,
a acelerarem em direcção à ponte. Três carros da Polícia.
Apontou para um dos agentes.
– Preciso que entres dentro de água e tires um medalhão do bolso
do homem. Está num estojo plástico e tem um elefante gravado.
Assim que o tiveres, sai dali para fora e não te deixes apanhar.
O homem enfiou a arma no coldre e saltou sobre o varandim. Era
aquilo que ela apreciava nos Serviços Secretos. Nada de perguntas, apenas
acção.
Os carros da Polícia derraparam numa travagem brusca.
Sacudiu a chuva do rosto e olhou para o outro agente.
– Sai daqui e arranja-me ajuda diplomática.
– Onde é que vais estar?
A mente dela voou para o Verão anterior. Roskilde. Ela e Malone.
– Na prisão.